Dynamite

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O nome dele era Kurt Cobain

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Um anjo caído, um gênio rocker atormentado até o fim: Kurt Donald Cobain

Parece que foi um dia desses.

Mas faz tempo já, muuuuito tempo. E o tempo anda tão veloz, tão voraz em sua fúria autofágica que é marca registrada de uma era movida à informação fast food proporcionada pelo cyberespaço, que de repente não nos damos conta de que quinze anos se passaram desde que no dia 4 de abril de 1994, um sujeito se trancou no sotão de sua casa em Seattle (noroeste dos Estados Unidos) e, dopado de heroína até os ossos, meteu uma bala nos próprios miolos. Quinze anos são uma vida e desde que esse tiro foi disparado, muita coisa mudou no rock (ele ficou mais indulgente, mais servil e mercantilista, talvez mais pobre de idéias e conceitos), na música pop (que nunca foi tão... pop, no sentido comercial da palavra, como hoje), em nossa existência. O movimento grunge, que nasceu em Seattle (e que ainda hoje deve sobreviver por lá, nos subterrâneos musicais da cidade), talvez tenha sido umas das últimas – senão a última – grande virada de mesa do rock’n’roll. Aqueles moleques, com suas camisas de flanela xadrez puídas, seu jeito desleixado, seu consumo excessivo de álcool e drogas, seu desregramento dos sentidos (algo que sempre foi defendido pelo imortal poeta Arthur Rimbaud), sua música barulhenta com herança múltipla do heavy metal (na sonoridade) e do punk (na atitude do it yourself, na postura política e nas letras iconoclastas e niilistas), não sabiam, mas estavam fazendo história. E, desde então, fariam parte para sempre da história do rock. E parte dessa história vai ser relembrada aqui, hoje, porque Zap’n’roll a considera importante demais não apenas no contexto da música pop, mas para sua própria existência, pessoal e profissional. Yep, talvez esta abertura do post esteja um tanto solene e séria para os padrões habituais do blog. Mas é assim que o autor destas linhas zappers está se sentindo no momento em que escreve isso na tela do micro: um tanto sério, fleumático, reflexivo, aturdido por alguns "bodes" emocionais particulares e também por se lembrar com nitidez daquela noite em que ele, após jantar no centro de Sampa, passou diante da banca de jornais que existe em frente à lanchonete Estadão e viu a manchete do Notícias Populares (que ainda existia), em letras garrafais: "Rockstar se mata com um tiro na boca". O rockstar era Kurt Cobain. A banda era o Nirvana. E naquela noite, o autor deste blog foi embora para o apê onde morava, no Cambuci, chegou lá e pôs o vinil de "Bleach" pra rodar. E chorou por algumas vezes no decorrer daquela madrugada. O resto, você lê mais aí embaixo, no decorrer do post.

* Por sua vez, o "Kurt Cobain" dos tempos atuais, Pete Doherty (quem mais poderia ser?), continua aprontando. Desta vez os Babyshambles cancelaram a apresentação que fariam ontem, em um festival na França, sob a alegação de "cansaço" por parte do front-man Pete. Hum...

* Já Lovefoxxx vai atacar de dj no festival Stage and Dagger, que rola de 21 a 23 de maio na Inglaterra.

* Prosseguindo a onda "bandas que fazem shows tocando na íntegra o repertório de um álbum clássico de sua discografia", o grande Spiritualized já anunciou que vai mostrar no final deste ano, em três apresentações na Velha Ilha, todas as faixas do sensacional "Ladies and Gentlemen, We Are Floating In Space". Bacana isso, beeem bacana.

* O Kings Of Leon continua com a bola cheíssima lá fora e foi parar na capa da NME desta semana. Será que apenas este blog é que acha que a banda dos Followill está um cú cada vez maior?

* Novas mudanças na redação da Rolling Stone, a atual maior revista de cultura pop, política e comportamento do Brasil. Saiu o editor Ademir Corrêa (que vai cuidar de projetos pessoais), e em seu lugar entrou Paulo Terron, autor do blog "With Lasers", comentado há pouco tempo aqui nestas linhas zappers, em um post analisando a blogosfera brazuca dedicada à cultura pop. Zap’n’roll conviveu pouco com o Ademir, mas por esta pouca convivência sacou que ele é um sujeito bacana, além de ótimo profissional. E por isso mesmo, deseja sorte ao garoto em suas novas empreitadas jornalísticas.

* Sim, sim, saiu a escalação do Readding 2009. E tendo como headliners o Radiohead, o Arctic Monkeys e o...Kings Of Leon (afe...). Tudo bem pelo Radiohead, mas o festival de Readding já teve dias melhores...

* Como, por exemplo, quando o Nirvana tocou por lá, em 1991, antes do estouro que viria logo em seguida com o álbum "Nevermind". Pois é, Kurt deixa imensas saudades até hoje, como você vai ler agora, aí embaixo.

UM TIRO SILENCIA SEATTLE

(OU: NIRVANA - DIÁRIO SENTIMENTAL)

Diálogo telefônico trocado entre o autor deste blog e a querida Míriam Martinez, em algum dia do final de 1991. Na época Miroca trampava como assessora de imprensa da gravadora BMG/Ariola (atual Sony/BMG); hoje, ela continua atendendo muito bem toda a imprensa lá na casa de shows paulistana Via Funchal. Na época, Zap’n’roll escrevia para a editoria de cultura da poderosa revista Istoé, além de fazer frilas para a Folha da Tarde (hoje, jornal Agora):

  • Fininho? Te mandei uns discos, é um pacote de bandas novas que estamos lançando. Presta atenção numa delas, o Nirvana. Os caras estão estourados nos Estados Unidos!
  • Sem problema, amorrrr. Vou ouvir aqui e ver o que faço, certo? Você sabe que eu te amooooo e você pode contar sempre comigo!

Nirvana? O álbum que a gravadora estava lançando aqui deles era o segundo, "Nevermind", que havia sido lançado nos EUA em setembro e, surpreendentemente, já chegava ao Brasil em edição nacional no final de novembro do mesmo ano. A bolachona de vinil (os lançamentos em cd ainda eram pouquíssimos aqui naquela época) estava no meio de mais umas quatro bandas, entre ela o "I love you" (alguém se lembra de uma banda com um nome desses? E, acreditem, o disco era bom...). E a pressa em editar o tal Nirvana aqui era justificável: o trio formado pelo guitarrista e vocalista Kurt Cobain, pelo baixista Chris Novoselic e pelo baterista Dave Grohl, com apenas um disco no currículo (o sensacional "Bleach", lançado dois anos antes e que, reza a lenda, custou a miséria de US$ 600 dólares para ser gravado), estava se tornando a banda da hora não apenas nos EUA mas também na Inglaterra: em agosto daquele ano, um mês antes da chegada de "Nevermind" às lojas, o trio fez uma apresentação histórica, inesquecível e consagradora no mega festival de Readding, onde a música "Smells Like Teen Spirit" – que dali a alguns meses iria invadir as rádios do mundo inteiro, se tornando um autêntico hino da geração rocker dos 90’ – foi cantada em coro pela multidão.

A história do Nirvana todo mundo conhece e já foi contada e recontada zilhões de vezes. Kurt Cobain era um adolescente problemático, com um histórico familiar pra lá de complicado (pais separados, mãe alcoólatra etc) e que aplacava um pouco suas dores mergulhando de cabeça no rock. Kurt gostava de metal, mas também de punk clássico. Daí, após criar algumas bandas que não deram em nada, ele fundou o Nirvana em sua cidade natal, Aberdeen (próximo a Seattle), em 1987. Junto com ele estava o grandalhão Chris Novoselic, amigo desde sempre e que foi para o baixo. Kurt nas guitarras e vocais. Na bateria, um sucessão de músicos até que, quando conseguiram um contrato com a gravadora SubPop (que existia há pouco tempo e estava de olho na efervescência rocker que estava invadindo a cidade, com uma série de novos grupos fazendo ótimas músicas), para lançar o disco "Bleach", veio tocar com eles Chad Channing, mas que ficou nas baquetas apenas o tempo suficiente para o álbum ser registrado. Produzido por Jack Endino, "Bleach" foi bem recebido pela imprensa e começou a vender razoavelmente. Era punk, garageiro e pesado ao mesmo tempo e possuía grandes canções, como "Blew", "Love Buzz" e, principalmente, a hoje clássica "About A Girl" (até hoje, vinte anos após seu lançamento, esta música causa estragos quando é tocada pelo autor deste blog na pista do clube paulistano Outs). E ao mesmo tempo em que o Nirvana começava a ser bem notado pela mass mídia rock americana, outros grupos de Seattle também começavam a chamar a atenção, como Soundgarden, Alice In Chains, Screaming Trees, Pearl Jam etc. Logo a imprensa musical tratou de arranjar um epíteto para aquele som que combinava guitarras barulhentas, melodias arrastadas (herdadas do heavy metal) e atitude punkster, um som tocado por uns cabeludos que andavam invariavelmente de camisas de flanela xadrez. Estava criado o movimento grunge.

A partir daí, tudo aconteceu muito rápido, como um furacão devastando tudo ao seu redor. O mainstream musical americano estava ficando cada vez mais insuportável, com Michael Jackson e Madonna se revezando sem parar no topo das paradas. Ao mesmo tempo, toda uma geração de moleques queria ouvir algo diferente, e que falasse diretamente da realidade que esses moleques vivenciavam no seu dia-a-dia. Era 1991 e o rock alternativo americano começou a mostrar suas garras fora dos limites subterrâneos onde estava confinado até então. Veio "Ten", do Pearl Jam. Veio "Dirty", do Sonic Youth. E veio "Nevermind", do Nirvana, lançado em 24 de setembro de 1991. Foi algo avassalador e completamente inesperado: o álbum, que havia sido lançado com uma tiragem inicial de 50 mil cópias (um lançamento em parceria entre a SubPop e a gigante Geffen, que estava atrás de novas e boas bandas de rock, mas sendo que ambas não acreditavam que o disco do trio, a médio prazo, fosse vender muito mais do que ambos os selos haviam imaginado), evaporou das lojas em questão de horas, o que obrigou as duas gravadoras a providenciar uma nova, emergencial e muito maior tiragem. E "Nevermind" não parou mais de vender: em questão de semanas, o álbum vendeu mais de 700 mil cópias e o trio de Seattle foi parar no topo da lista dos mais vendidos da prestigiosa Billboard (a bíblia do mercado musical dos EUA), arracando de lá a chutes tanto Michael Jackson quanto Madonna. O Nirvana tinha rompido a barreira entre o rock underground e o mainstream, e virou a mesa da música pop com uma intensidade que não se via/ouvia talvez desde a eclosão do movimento punk na Inglaterra, em 1975. Foi foda.

 

O álbum "Bleach": estréia clássica, que custou míseros US$ 600 para ser gravado 

Não demorou para o "fenômeno" explodir também no Brasil. Assim que recebeu os tais discos da BMG, o zapper foi ouvi-los. E ficou com o queixo caído a cada faixa que escutou de "Nevermind": o disco era pesado, barulhento mas incrivelmente pop, radiofônico. Não havia sequer uma canção ruim em todo o álbum. E os temas abordados por Cobain nas músicas eram poemas simples e diretos, mas ricos em impacto textual e soavam como socos devastadores em nosso estômago. "Smells Like..." falava de alienação adolescente. "Lithium" descrevia crises de abandono e baixa auto-estima. "Come As You Are" era uma devastadora e delorosa canção de... amor. Em "Polly" ficou célebre a frase final da música, com o vocalista repetindo várias vezes "eu sou um idiota". Além de possuir uma sequência de faixas arrasadoras ("Nevermind", não dá pra esquecer, ainda tinha "In Bloom", "Territorial Pissings" e a fodástica "On A Plain"), o vinil que ficou célebre pela sua capa azul com um bebê nadando e tentando fisgar uma nota de um dólar, ainda possuía um senso melódico (por conta do excelente guitarrista que Kurt era) como poucos conjuntos conseguiam ser naquela época. A produção do trabalho, a cargo do mestre Butch Vig, se encarregou de dar o acabamento definitivo a um momento único da história recente rock’n’roll. "Nevermind" se tornou um clássico (assim como o foram "Never Mind..." dos Pistols, ou "London Calling" do Clash, ou ainda "Exile On Main Street" dos Stones, ou "Led Zeppelin IV" do Led, ou "Who’s Next" do The Who) e permanece assim até hoje. Um disco tão importante que o velho Waldir Angeli, publicitário formado na Usp, cultura vasta, discófilo fanático e há anos trabalhando na loja Baratos Afins, em Sampa, um dia veio até o blogger zapper e lhe disse, em tom definitivo: "eu não gosto do Nirvana. Mas comprei ‘Nevermind’ porque sou obrigado a reconhecer que ele é um divisor de águas na história recente do rock". Ponto.

O repentino e inesperado estouro mundial do Nirvana expôs rapidamente os problemas emocionais e pessoais que se abatiam sobre o rockstar da vez, Kurt Cobain. Viciado em heroína (que ele dizia tomar para aliviar suas terríveis dores estomacais que o atingiam constantemente por conta de uma úlcera), inseguro e incapaz de lidar com a mega fama e o mega sucesso do Nirvana, Cobain começou a pirar. Casou-se com a perua rocker Courtney Love e começou a se mostrar cada vez mais arredio em tocar para ginásios e estádios lotados – àquela altura, o trio não conseguia mais tocar para menos do que 5 mil pessoas. E também àquela altura, o segundo álbum do Nirvana há muito já tinha superado a barreira do milhão de discos vendidos. Começaram então as apresentações ao vivo que se alternavam entre performances brilhantes e outras no limite do desastre total. Tudo dependia de como estava o humor do, naquele instante, maior rockstar do pop planetário.

Foi assim, entre altos e baixos ao vivo, que anunciou-se que a banda iria tocar em janeiro de 1993, no festival Hollywood Rock, com gigs programadas para o Rio De Janeiro e São Paulo. Iria ser a edição grunge do festival que existia desde 1988: além do Nirvana, estavam a caminho do Brasil Alice In Chains, L7 e Red Hot Chili Peppers, todos no auge de suas carreiras. A molecada ficou maluca. E Zap’n’roll também. Foi inclusive na sala de imprensa do estádio do Morumbi, numa sexta-feira (primeira noite do festival), no intervalo entre os shows do Alice In Chaibs e do Red Hot, que o autor destas linhas online finalmente conheceu o sr. André Cagni, mais conhecido como Pomba, então editor da recém-fundada revista Dynamite, que existia há pouco tempo e estava em sua sétima edição. Zap’n’roll estava em uma péssima fase profissional e pessoal naquela época: casamento desfeito, saindo do apê em que morava na rua Frei Caneca, cheirando cocaine demais, trepando com todas as mulheres que encontrava pelo caminho (das mais gostosas às mais pavorosas) e, principalmente, sem ter onde escrever seus textos sobre rock, já que estava cobrindo três meses de férias no jornalismo da rádio Bandeirantes. Foi quando Pomba lhe acenou com a oferta: "pode escrever na revista, eu conheço você muito de nome (afinal, o sujeito aqui já tinha passado pelas redações da Somtrês, Folha,. Jornal Da Tarde, Estadão, entre outras). Só não podemos pagar suas colaborações". Sem problema: o importante era ter um espaço novamente para expor idéias e pensamentos sobre essa porra apaixonante chamada rock’n’roll. Foi assim que o autor deste blog e Pomba se conheceram e se tornaram amigos, uma amizade que permanece até hoje.

No sábado, seria a noite do Nirvana. Um mês antes de chegar ao Brasil, o grupo se apresentou em um mini-festival em Buenos Aires, tocando junto com Keith Richards (dos Stones). Quem viu o show na Argentina jura que foi sensacional. Daí a expectativa para as apresentações brasileiras se tornaram as melhores possíveis.

 

"Nevermind", a obra-prima definitiva e um dos melhores discos da história do rock

Pois é. Até hoje este jornalista rocker e apaixonado por cultura pop não imagina como foi a gig da Praça da Apoteose, no Rio. Mas em São Paulo o show do Nirvana foi um desastre quase absoluto. Um desastre que já começou antes de o grupo ir para o estádio do Morumbi. Hospedados no hotel Maksoud Plaza, os integrantes da banda começaram a caçar tudo o que fosse possível pra minimizar a privação que Kurt Cobain estava sofrendo com a falta de heroína (droga raríssima e cara no Brasil, naquela época). Há relatos de que a equipe de produção do Nirvana literalmente liquidou o estoque de bolas que havia nas farmácias que existiam no lobby do Makousd, ou próximas ao hotel. Kurt começou a tomar calmantes como se fossem doces, misturando-os com álcool. Quando entrou no palco do Morumbi pra tocar, se arrastava de joelhos. E quando começou a tocar, o fez de maneira completamente desacelerada em relação às melodias originais das músicas. O desastre era visível. Visível ao ponto de Novoselic, em desespero, chegar no ouvido do guitarrista e pedir "acelera, acelera porra!". Havia umas 70 mil pessoas no Morumbi. No meio delas, o cara que está digitando este texto agora. Foi, sem dúvida alguma, um dos piores shows de rock que Zap’n’roll assistiu em toda a sua looonga jornada testemunhando shows gringos. Mas, lá pelo meio da apresentação, quando a banda disparou "Molly’s Lips" (dos Vaselines) o zapper, já doidão por vaaaárias doses de álcool, pulou como louco e gritou: "o show está uma merda! Mas foda-se! É o Nirvana e eu estou aqui!".

Foi isso. E a aventura do Nirvana em terras paulistanas não acabou com o péssimo show do Morumbi. Já na madrugada, Zap’n’roll foi para o Der Temple, muquifo rocker que existia lá no baixo Augusta (e cujo dono, o Giggio, hoje comanda o Matrix, na Vila Madalena), e que reunia sempre o povo mais antenado da indie scene rock paulistana de então. Pois qual não foi a surpresa de todos que estavam ali ao se dar conta de que, de repente, quem havia acabado de entrar no bar era Kurt Cobain, acompanhado de Courtney e do casal João Gordo e Alê Brigantti (que na época era noiva do vj da MTV e vocalista dos Ratos De Porão; hoje ela está casada com o Farofa, vocalista do Garage Fuzz e continua trampando na MTV, assim como o Gordo também, sendo que na época tanto ele quando Alê detestavam o autor deste blog, mas são tretas passadas que se resolveram com o passar dos anos). Imediatamente Giggio mandou fechar as portas, para que ninguém mais entrasse. O zapper já piradíssimo também nem quis ficar muito ali (por conta da "treta" com João Gordo) e se mandou logo, já que morava a duzentos metros do Der Temple e havia encontrado lá a Jade, ex-gótica bocetudíssima e com quem o blogger loki já havia dado ótimas trepadas. Ambos foram para o apê da Frei Caneca e terminaram a noite fodendo (e com Jade, louca, gritando "me come! Me come!"), enquanto a balada rocker continuou no Der Temple. O jornalista rocker doidaralhaço não presenciou a cena, mas todo mundo ficou sabendo como terminou a noite de Kurt e Courtney na rua Augusta: com o dia amanhecendo, os dois loucos atrás de cocaína e distribuindo notas de 100 dólares para as putas que trampavam na boate Kilt, na praça Rosevelt.

O movimento grunge ainda sobreviveu bem alguns anos Mas talvez tenha começado a morrer justamente quando o Nirvana lançou "In Utero" (outro disco fodaço), em 1993, meses depois de se apresentar no Brasil. As turnês continuaram, os problemas de Cobain se agravaram, ele e Love ficavam cada vez mais chapados o tempo todo e acabaram sofrendo um processo judicial que quase lhes tirou a guarda da filha Frances Bean. Houve uma tentativa de suicídio por parte dele algum tempo antes do fatídico tiro dado em abril de 1994 em Seattle. O Nirvana estava na Itália, para fazer um show em Roma. Kurt se entupiu de Roypinoll (um calmante fortíssimo) e champagne e foi parar no hospital. Felizmente ele escapou. Mas médicos e psiquiatras alertaram que ele não podia mais ficar sozinho, sob o risco de cometer algum ato insano contra a própria vida.

E veio o ato insano. Naquele início de abril de 1994, Courtney Love estava fora de Seattle. Tinha ido viajar para promover o recém lançado álbum "Live Through This", da sua banda Hole. Kurt ficou sozinho na mansão onde o casal morava. Não se sabe exatamente quando, mas em algum momento daquela madrugada de 4 de abril ele se trancou no sotão da casa e, dopadaço de heroína, enfiou o cano de uma das muitas armas que tinha em casa na própria boca e puxou o gatilho. Cobain tinha 27 anos de idade (havia nascido em 20 de fevereiro de 1967). O sujeito que agora escreve este enorme texto sobre tudo isso, só ficou sabendo na noite seguinte (como já foi dito logo na abertura do post), quando passou em frente à banca de jornais da lanchonete Estadão e viu a manchete do jornal Notícias Populares. Foi um pesadelo aquela madrugada porque Zap’n’roll amava Nirvana e também porque o autor deste blog, mesmo já morando no Cambuci, onde dividia um bom apartamento com o fotógrafo Luis Carlos Leite (onde anda você, amigão?), escrevendo na revista Interview, e namorando com a tesudíssima mulata Greta (que foi uma das grandes trepadas da vida deste sujeito, e acabou se formando em letras na Usp), ainda assim vivia em crise consigo mesmo, por achar que era desajustado demais para viver no mundo das pessoas normais.

Zap’n’roll defende até hoje (e vai continuar defendendo, a menos que surja algum gênio do além na história atual do rock mundial) que o Nirvana foi a última grande banda de rock que vale a pena ser ouvida. E "Nevermind" foi o último grande clássico gravado no rock’n’roll. Tanto que ele faz parte da lista zapper dos dez melhores discos de todos os tempos no rock. Foi, inclusive, o último título a entrar nesta lista. E amanhã, quando se comemora quinze anos sem Kurt Cobain, o blog se lembra de tudo isso que acabou de contar aqui e chega à conclusão de que, sim, valeu a pena viver e testemunhar tudo isso. Porque talvez essa grande história não se repita nunca mais. Nem na vida do blog nem na vida de ninguém.

 

"In Utero", o último trabalho de estúdio; depois, Kurt se suicida

* Desde que o Nirvana acabou, saíram dezenas de lançamentos póstumos com material da banda. Nem seria preciso citar aqui, mas vale muito a pena ter o "Unplugged In New York", lançado em 1994, ou ainda o "From The Muddy Banks of the Wishkah", registro ao vivo e editado em 1996.

* Livros? A biografia "Kurt Cobain – mais pesado que o céu", é um primor e foi lançada no Brasil pela editora Globo. Vale a pena ir atrás dela.

* Vídeos: o "Live! Tonight! Sould Out!" é fodástico e indispensável, mas só existe em versão gringa (ou na net, claaaro). A gravadora ST2 lançou no Brasil, há alguns anos, o dvd "Classic Album – Nervermind", que documenta com entrevistas e cenas de bastidores a gravação do disco que tornou o Nirvana um dos maiores nomes da história do rock.

* Este texto gigantesco sobre Kurt vai para as pessoas que conviveram com Zap’n’roll intensamente naquela época (tempos do Espaço Retrô, onde todos dançavam loucamente ao som de "About A Girl"): Adriana e Vera Ribeiro, dj Toninho (in memorian), dear André Pomba, Philippe Brito, Juliana Cezário, Patrícia Cortez e Eliana Martins. Zap’n’roll ama todos vocês. E vai amar sempre! E vai também pro chapa Alex Sobrinho, lá de Colatina (ES), que ama tanto Nirvana como todos nós aqui. E para Laney Staley, o loucaço falecido vocalista que deu corpo e alma ao Alice In Chains, e que morreu aos 34 anos de idade, em abril de 2002, entupido se heroína (seu corpo foi encontrado na casa onde ele morava, provavelmente umas duas semanas após sua morte). A morte de Laney foi, sem dúvida alguma, a pá de cal no grunge.

NIRVANA AQUI

Ao vivo, no histórico porém péssimo show realizado em São Paulo, em 16 de janeiro de 1993:

Nirvana – "Seasons in the Sun", ao vivo em Sampa

E NO RIO DE JANEIRO!!!:

"About A Girl" ao vivo, na Praça da Apoteose, em 23 de janeiro de 1993

"One a Plain", no mesmo show, na mesma noite

NIRVANA NA ROLLING STONE

Como o blog já antecipou aqui, no espaço reservado aos comentários dos leitores, chega às bancas de todo o Brasil na próxima semana a nova edição da mega Rolling Stone, e que irá trazer duas capas diferentes mas ambas sobre o mesmo tema: os quinze anos sem Kurt Cobain. Promete ser a edição mais vendida e fodona da revista, desde que ela está sendo publicada no Brasil. Ou seja: não dá pra perder!

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* Entonces, muitas lembranças aí em cima. E, pode parecer exagero, mas este texto desgastou bastante em termos emocionais o zapper sempre emotivo. Por isso a resenha sobre o novo do Depeche Mode (que está sombriooo e pouco dançante) fica pro post do comecinho da semana, okays? Promessa de Zap’n’roll!

* Lembrando que hoje à noite, sextona, os velhos e bons punks do 365 tocam lá no Belfiori (rua Brigadeiro Galvão, 871, Barra Funda, zona oeste de Sampa). E amanhã na Outs (rua Augusta, 486, centrão rocker da capital paulista) tem mega tributo ao Nirvana, com uma jam no palco, certis? E também lembrando que sábado da semana que vem, dia 11/4 (aleluia, irmão!), Zap’n’roll vai botar pra foder nas pick-up’s da mesma Outs, em sua residência mensal por lá.

* Até! Beijos, muitos, na amada Ana Laura. Que ela melhore da gripe e seja mais paciente com quem a ama.

(enviado por Finatti às 20:35hs.)

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