EEEXTRAAA: JESUS & MARY CHAIN IN BRASIL E JOY DIVISION NO É TUDO VERDADE!
* Extra I: o venerável grupo inglês Jesus and Mary Chain, um dos ícones máximos do guitar noise e do pós-punk inglês dos anos 80', toca no Brasil em novembro, na segunda edição do festival Planeta Terra, segundo informa nosso dileto colega dom Thiaguito Ney em sua coluna pop no caderno Ilustrada, do jornal Folha De S. Paulo, edição da última sexta-feira (o colunismo musical tem dessas coisas: este blog anunciou em PRIMEIRA MÃO a vinda de Rufus Wainuright ao Brasil agora em maio; em contra-partida, Thiaguito Ney presta um ótimo serviço à nação rocker ao dar notícia tão bacana em seu espaço musical no maior diário do país). O festival estaria marcado pra acontecer no dia 8 daquele mês e a vinda do JMC, se realmente for confirmada, já é motivo mais do que suficiente pra ir no Planeta Terra edição 2008. O Jesus já esteve uma vez no Brasil. Foi há longínquos dezoito anos, em 1991, na tour de divulgação do álbum "Automatic", lançado naquele ano. O show aconteceu no extinto Projeto SP, em São Paulo, e Zap'n'roll, claaaaaaaaro, estava lá (é, este "blogueiro" já não é mais, hã, tão jovem). Foi um dos melhores live concerts que este jornalista viu naquela época e uma lembrança forte do mesmo foi quando a banda executava sua versão noise e esporrenta para "Who Do You Love?", clássico do bluesman americano Willie Dixon. Enquanto os irmãos Jim e William Reid cantavam a música no palco, ao lado deste loki jornalista estourava um pau monumental, onde três sujeitos derrubaram um outro no chão e só não o massacraram com chutes e socos porque a segurança do local interveio rapidamente. Fora isso, a banda executou um repertório fodaço, emoldurado por frenéticas projeções de imagens e, um telão no fundo do palco - uma novidade para a época e que começava a ganhar força em shows de bandas gringas por aqui. O JMC surgiu por volta de 1984, em Glasgow, na Escócia, lançou pelo menos duas obras-primas de guitarras noise amalgamadas à profunda melancolia existencial (os álbuns "Psychocandy", de 1985, e "Darklands", de 1987), teve zilhões de terminos e retornos (por conta das lendárias e homéricas brigas entre os irmãos Reid, notórios junkies e beberrões) e voltou à ativa no ano passado, quando se apresetou no festival Coachella. Portanto, agora é aguardar e torcer para que eles venham mesmo. E se vierem meeeesmo, o segundo semestre vai pegar fogo por aqui. Afinal que coração vai aguentar assistir, entre setembro e novembro, REM, Cure, Depeche Mode e Jesus & Mary Chain? Socorro!!!
* Extra II: a distribuidora Daylight avisa: o documentário "Joy Division", sobre a lenda maior do pós-punk inglês, será exibido na próxima sexta-feira, dia 4 de abril, às onze da noite, no Cine Sesc em São Paulo, dentro do festival "É tudo verdade". Detalhe: a sessão será gratuita! "Joy Division" entra em circuito comercial pra valer, junto com o longa "Control", dia 16 de maio, dois dias antes do aniversário de 28 anos da morte de Ian Curtis.
* Este post extra foi enviado diretamente de um lan house de Heliópolis, uma das comunidades mais bacanas da capital paulista e que desmente a tese de que a periferia das grandes metrópoles é perigosa ou um antro de marginalidade. Após frequentar a comunidade algumas vezes nos últimos tempos, Zap'n'roll se tornou admiradora de um lugar onde as pessoas são humildes, educadas e tratam todos com atenção e carinho. Heliópolis recebeu, nas últimas semanas, as visitas de Zidani (o ex-craque francês, que foi inaugurar uma quadra de esportes na comunidade) e do lendário maestro Ennio Morricone, que foi tocar junto com a Orquestra Jovem da comunidade. Se a torpe elite que domina este país fosse menos canalha (e não produzisse, inclusive, jornalistas que escrevem em sites e blogs e se dizem abertas em termos sociais e comportamentais, mas não têm coragem de ir a um local como a Helipa, como se lá fosse fosse uma espécie de Bagdá paulistana) e bundona, ela iria descobrir porque o senador Eduardo Suplicy é fã de Heliópolis. Fã como este zapper blog também se tornou do local. É isso aê: viva Heliópolis!
(enviado por Finatti em 29/03/2008, às 22:05hs.)
Ó nóisaquitraveis!
É, com essa história de blog e tals, a vida do colunista pop zapper ficou mais fácil e mais dinâmica. E também mais atarefada e complicada. Sabe como é, a concorrência (aqui no próprio portal, inclusive) anda acirrada, agora que um monte de gente descobriu as "maravilhas" de se falar sobre rock alternativo (dá audiência, né?), embora a maioria nem saiba do que está falando. Então, estas linhas zappers estão com a preocupação redobrada e com a obrigação de ser cada vez mais exigente consigo mesma, para levar o supra-sumo da informação ao nosso dileto leitorado. Assim é que o post das quintas-feiras (hehe) sempre virá mais recheado, como se fosse o velho colunão. E assunto pra isso não falta em uma semana em que o sujeito aqui se viu obrigado (isso mesmo, obrigado) a ouvir na net os novos e fodaços discos do REM, do Raconteurs e do grande e velho gótico genial Nick Cave. Fora os discos indies nacionais que andaram rodando no sound system de Zap’n’roll. Ou seja, tanta coisa que um comentário mais detalhado sobre o novo álbum do Nick Caverna vai ficar, de repente, pra um post isolado mais pro comecinho da próxima semana. Enfim, é isso. Vai lendo o que se segue porque este post vai ser bem looooongo.
* Bien, bien, o "emo" campineiro Rafinha levou a bolada de R$ 1 milhão do BBB8. Bom pra ele, né não? O rapazola tatuado, que foi assediado sem dó durante o programa por alguns dos xoxotaços que estavam confinados na casa com ele, resistiu às tentações da carne e se manteve fiel (uia!) à sua namorada. Que lindo! Na boa, como diversão pop totalmente vazia e superificial, o BBB continua funcionando às mil maravilhas, mesmo porque não dá pra levar uma nulidade televisiva daquelas a sério. Mas o pior é que boa parte do país leva. Isso que é inacfreditável.
* E já tem gente bombardeando a cantora Pitty, porque ela aceitou animar, com sua banda, a finalíssima do programa. Hum... este blogueiro zapper, amigo pessoal da rocker baiana, vai preferir se eximir de algum comentário a respeito desse assunto. Ou quase: Zap’n’roll é notório crítico do BBB mas acha que, se Pitty considerou importante pra divulgar seu trabalho ter ido lá (além do que houve grana de cachê na parada, e aê, alguém nos dias de hoje ainda recusa grana em nome de "princípios artísticos", do jeito que anda o mercado musical? Que este blog saiba, não), direito dela e ninguém tem nada a ver com isso. Que se foda quem está latindo contra.
* Pros interessados: o dândi folk/pop Rufus Wainwright está com datas marcadas no Brasil em maio. Ele deve tocar dia 7 no Rio De Janeiro, 9 em São Paulo (na Via Funchal), 11 em Belzonte e 13 em Brasília.
* Pros interessados II: o primeiro lote de ingressos promocionais pro show dos New York Dolls, dia 10 de abril em Sampa (no Hangar110) e que custavam 80 pilas, já eram. Agora, no novo lote cada ingresso está saindo por 90 paus. No dia, eles irão custar R$ 120,00 reais. Portanto, quem está a fim de ir, é melhor correr.
* Na boa? Zap’n’roll, assim como todo mundo que é apaixonado por rock’n’roll e cultura pop, está careca de saber da importância histórica dos New York Dolls (a banda que criou o conceito de punk nos EUA, que foi empresariada pelo escroque mais genial do rock, mr. Malcolm McLaren, que era a banda de cabeceira do Morrissey etc). Mas nem por isso vai esquentar sua moringa pra ir ao show (e olha que o sujeito aqui, ao contrário de blogueiras "ladies" peruas que se dizem punks mas não são porra nenhuma, foi punk durante quatro anos em seus tempos jovens, antes de se tornar um homem, hã, sério e partir pro jornalismo musical). O motivo? Simples: NÃO estamos mais em 1974, o guitarrista Johnny Thunders e os bateras Jerry Nolan e Billy Murcia já foram pro saco, então não faz muito sentido morrer (ops) pra assistir ao grupo a esta altura do campeonato. Yep, o vocalista David Johansen ainda está na banda, o grupo lançou disco inédito há dois anos (o "One Day It Will Please Us to Remember Even This") mas... já foi a época, né? Claro que o show deverá ser animadíssimo, principalmente pra garotada que cultua o mito em torno do grupo e pra punks velhos e nostálgicos, tão velhos e nostálgicos quanto eram os hippies e bichos-grilos que estes mesmos punks tanto odiavam. Enfim, de repente, o ex-punk aqui até se anima e vai. Mas, na real, ele está mais interessado em ver Radiohead e REM (sim, novamente) este ano, ao vivo, no Brasil.
* De qualquer forma, olha que finde supimpa vai rolar em Sampalândia: no dia 10 de abril (quinta) começa a putaria rocker com os New York Dolls. Depois, na sexta (11) tem Datsuns no Inferno. E finalmente no sábado, 12, rola show solo do velho gótico Wayne Hussey (o sujeito que um dia esteve à frente do Mission e que depois casou com uma bocetaça goth loira brasileira, e foi morar com ela em Santo André) na Clash Club. Bão hein...
* E por falar no trio fantástico de Athens, Georgia...
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REM, RÁPIDO E RAIVOSO
Já há algumas semanas circula fácil e faceiro pela net o novo álbum do gigante REM, "Accelerate", e como é praxe nestes tempos de informação hiper-veloz e globalizada via internet, zilhões de pessoas já ouviram o dito cujo e também já o comentaram em blogs (como o amigo "Merched", do carioca Léo Rocha), colunas e afins. Zap’n’roll, como de hábito e mesmo após ver este espaço rocker online se transformar também em um blog, continua não sendo nada amigo do expediente de ouvir música no computador e considera uma babaquice este desespero pra ver quem ouve e comenta primeiro tal lançamento de tal banda. Tanto que somente agora, após fazer algumas audições atentas do décimo quarto álbum de estúdio do trio que surgiu há vinte e oito anos em Athens, na Georgia, é que o blogueiro zapper aqui – e grande fã do conjunto, diga-se – vai de fato escrever o que achou do cd.
Não vai ser o caso de remoer, mais uma vez, toda a história do conjunto, pra elucidar o que é "Accelerate" e porque ele saiu como saiu. Nem também de escrever um "diário sentimental" sobre o quanto o REM esteve presente na vida do autor deste blog. E o conjunto esteve muuuito presente nos caminhos de Zap’n’roll, nos últimos vinte e cinco anos, desde que o autor destas linhas conheceu o vocalista Michael Stipe, o guitarrista Peter Buck, o baixista Mike Mills e o (ex) baterista Bill Berry, através do álbum "Fables Of The Reconstruction", que saiu tanto lá fora quanto no Brasil em 1985. Era um disco sublime, que sedimentava a sonoridade da banda já apresentada no Ep "Chronic Town" (de 1981) e nos álbuns "Murmur" (de 1983) e "Reckoning" (lançado em 1984). O REM vinha da cena independente de Athens e sua música combinava riffs urgentes de guitarra (herança do punk) com melodias que resvalavam no country e no folk, tudo sublinhado pelo vocal "caipira" e pelas letras de alto teor poético existencial e político, escritas por Stipe.
"Accelerate" é o segundo disco do grupo nos anos 2000. E é muito diferente do plácido e bucólico "Around The Sun", lançado há quatro anos e para o qual muitos fãs torcem o nariz – ok, nem o gonzo zapper aqui é muito fã do disco. Após passar pela contemplação e desilusão de músicas como "Living In New York" ou "Electron Blue" (do trabalho anterior), o trio parece ter despertado de alguma espécie de letargia e voltou algo furioso no novo cd. Tudo é muito rápido (as músicas duram, em média, dois minutos e meio e o álbum todo não chega a durar 35 minutos), as melodias são aceleradas, as guitarras voam e há pouco espaço para momentos mais calmos ou reflexivos. Michael Sitpe e a banda sempre se disseram avessos a compor canções políticas mas "Accelerate" é um álbum extremamente político, naquilo que ele tem de mais impactante: as letras forradas de ironia e sarcasmo, de desilusão e de indignação contra os anos de Bush à frente do goveno americano. Tudo isso vem em forma de cacetadas como "Living Well Is The Best Revenge", "Man-Sized Wreath" (esta, com alguns dos arpejos de guitarra mais furiosos de todo o cd) ou o primeiro single de trabalho, "Supernatural Superserious", que já tem clip rodando no Youtube e nas MTVs e rádios do mundo todo. São três faixas poderosas e que abrem o álbum de forma incendiária e parecem ter sido compostas por jovens ainda repletos de ímpeto e testosterona, e não por três sujeitos que já estão beirando ou chegaram aos cinquenta anos de idade.
Há muito do REM dos anos 80’ e 90’ em "Accelerate". A própria "Supernatural..." remete aos momentos pop porém pesados de "Out Of Time". E a face melancólica e folk dos primórdios do grupo pode ser re-ouvida em "Houston" (conduzida por órgãos e violões) e na belíssima "Until The Day Is Done", talvez o momento mais calmo e pungente de um cd que ainda não é a grande obra-prima da banda nos últimos anos, mas que certamente devolve o conjunto aos seus melhores momentos. Momentos de fúria e insatisfação sônica, como não se ouviu em "Around The Sun" e em "Reveal", lançado em 2001. Momentos como "I’m Gonna Dj", onde Michael Stipe se mostra ainda um dos melhores e mais combativos letristas do rock americano.
Há quem considere "Automatic For The People", lançado em 1992, como o último grande disco do REM. Pode ser. "Accelerate" talvez seja, então, o melhor trabalho do grupo desde "Automatic...". Não é pouco para uma banda que está na ativa há quase trinta anos, que trocou a cena alternativa pelo mega-estrelato e conquistou milhões de fãs pelo mundo todo e também vendeu milhões de discos e, mesmo assim, manteve seu prestígio inalterado diante do público e da crítica. Um prestígio mantido graças à excelência de álbuns como este "Accelerate".
* O novo disco do REM sai oficialmente na próxima terça-feira, nos Estados Unidos e Europa. Deve ganhar edição nacional, via Warner, logo em seguida.
* O grupo está neste momento em gig pela Europa. E já começaram rumores fortíssimos de que ele voltará à América Do Sul (Brasil?) entre setembro e outubro.
* E claaaaaaaro, em tempos de blog zapper, nada melhor do que postar abaixo alguns vídeos da banda. Do novo álbum são dois, um para "Supernatural Superserious" (a primeira música de trabalho do disco) e outro para "Living Well Is The Best Revenge", aqui em versão "desplugada" e mostrando a banda descontraída. Completando a trinca, um recuerdo bacanudo com o mega-hit e clássico "Losing My Religion", uma das músicas mais lindas já compostas pelo REM e que também possui um clip fantástico, com sua simbologia religiosa e renascentista.
REM - "Living Well Is The Best Revenge", versão acústica
"Supernatural Superserious"
"Losing My Religion"
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MADAME SAATAN NA OUTS/SP

Yep, conforme já amplamente divulgado no post anterior, a super banda paraense Madame Saatan vai fazer o clube Outs, em Sampalândia, ferver e tremer nesta madrugada rocker de quinta pra sexta-feira.
Colá lá que a balada vai ser ótima, este blog 100% alternativo garante. Depois você envia mensagem pra cá contando o que achou do show, okays?
UMA DÉCADA SEM O RETRÔ

Quem deu a letra foi o conhecido dj e dileto amigo deste blog, Rogerio Real. Ele abriu tópico na comunidade dedicada ao Espaço Retrô, no Orkut, lembrando que no último dia 21 de março fez exatamente dez anos que a maior lenda da cena alternativa noturna paulistana fechou as portas.
De fato. E o sujeito aqui se lembra muito bem daquele sábado. Era noite de show de Oasis em São Paulo, no sambódromo do Anhembi, quando a banda dos manos Gallagher veio pela primeira vez ao Brasil. O então já nem tão jovem jornalista trabalhava na equipe que estava montando o lançamento da revista Época, na editora Globo. E como a humanidade indie paulistana, também foi conferir o quinteto mancuniano. Showzaço: Liam ressacudo de consumo de cocaine mas, mesmo assim, a banda toda mandando muito bem, principalmente Noel, que fez um espetacular cover acústico para "Setting Sun", dos Chemical Brothers. E, claaaaro, teve "Wonderwall", "Supersonic" e aquelas maravilhas todas.
Terminado o set no sambódromo o gonzo maloqui descolou uma carona (não se lembra mais com quem, lá se vão dez anos e os neurônios aqui, de fato, já foram em boa parte corroídos pelo tempo, pelo álcool e por drogas variadas) até o centro da cidade. Desceu na praça da República (onde rolava uma autêntica e imensa cracolândia na época) e foi a pé até o Retrô, que ficava numa ruela no bairro de Santa Cecília, a Fortunato. Lá chegando, alguém na porta já lhe disse: "pois é Finatti, hoje é a última noite de funcionamento do bar". E assim foi. Roberto Cotrim, o proprietário, estava em dificuldades financeiras (como sempre), o bar já não faturava como antes, muita gente nunca pagava para entrar lá (como este blogueiro, incluisve) e aí tudo se acabou.
O Retrô era um muquifo, na verdade. Sempre foi, em suas duas versões (a primeira, na rua Frederico Abranches, também em Santa Cecília, durou de 1988 a 1992; depois, a casa reabriu na rua Fortunato, onde funcionou de 1995 a 1998). Mas ganhou tal notoriedade, projeção de mídia e aura "cult" entre seus frequentadores que ele se tornou, sim, a maior lenda do circuito underground paulistano. Uma lenda que persiste até hoje, dez anos após a sua morte. Tudo acontecia ali: shows toscos e geniais de bandas idem (como Pin Ups, Low Dream, brincando de deus, Mickey Junkies e muitas outras), performances bizarras de "artistas" marginais, gente trepando, fumando maconha e cheirando padê nos banheiros, gente descolada e mais ou menos famosa circulando por lá e muitos etcs. A garotada que frequentava o bar era muito estilosa, visualmente falando, e refinada intelectualmente: gostava de indie e gothic rock de última instância, era fã de cinema alternativo e poesia, enfim tinha uma boa formação cultural. Com todo o respeito à molecada que circula hoje pela Outs, Milo, Inferno, Belfiori ou Funhouse, mas não dá pra comparar os referenciais culturais do pessoal de hoje com os da turma que frequentava o Retrô, porque a diferença é mesmo abissal – e não se trata de um comentário saudosista (ok, este jornalista rocker é sim um sujeito saudosista), patrocinado por um coroa nostálgico. É que o pessoal era, hã, mais interessado mesmo em alimentar melhor seu cérebro e seu espírito.
Fora as garotas de-li-cio-sas e loucas que frequentavam o bar. Zap’n’roll conheceu grandes bocetas ali, comeu uma infinidade delas e quis casar com algumas. E fora o povo da gringa que vinha tocar no Brasil, ia até o Retrô e adorava: Nick Cave, quando morou em São Paulo, não saía de lá. O ex-baixista do Jesus & Mary Chain, Douglas Hart, passou a madrugada lá depois que o grupo havia feito um show memorável e esporrento no também finado ProjetoSP, na Barra Funda. E o povo do Sisters Of Mercy e Cocteau Twins também baixou no amado muquifo rocker quando suas bandas tocaram em Sampalândia.
O autor destas linhas rockers conheceu o Retrô da forma mais banal possível: eterno frequentador do Madame Satã, achava que o casarão goth do Bexiga já não era mais o mesmo em 1988. E uma de suas grandes amigas de então, a Elaine (uma das primeiras djs femininas do circuito under da cidade naquela época, linda até não poder mais, muito parecida com a cantora Siouxsie Sioux, sendo que todo mundo vivia querendo comê-la, óbvio), sempre pilhava o sujeito para que ele fosse ao Retrô: "vai lá, tá ótimo. O pessoal legal que ia no Satã tá indo todo pra lá e eu discoteco lá todo sábado. Quando for, me avisa que eu libero sua entrada". O gonzo zapper, que a essa altura escrevia para a revista Somtrês e era repórter/colaborador do Caderno 2, do jornal O Estado De S. Paulo (o popular Estadão), resolveu então baixar um sábado no sobradinho em estilo neo-clássico da Frederico Abranches. Foi, gostou do que viu e ouviu e não saiu mais de lá pelos anos seguintes. Quando fez então, algumas semanas depois, uma matéria de meia página no Caderno 2 falando sobre o bar, Zap’n’roll se tornou cliente vip do Retrô e amigaço do proprietário, Roberto, que só faltava estender um tapete vermelho pro figura aqui quando ele chegava ao local. O autor deste blog acabou produzindo a festa de primeiro aniversário da casa, uma noite inesquecível onde o sobrado entupiu de gente pra ver os shows dos grupos Harry e Vzyadoq Moe, além da discotecagem de Kid Vinil, Thomas Pappon (que tocava no grupo Fellini) e do zapper blogger. Havia poucos cds naquela época e boa parte do som da pista vinha dos bons e velhos vinis.
É isso. Real mandou bem ao lembrar dos dez anos sem um lugar que marcou profundamente e para sempre a vida de muita gente em São Paulo. Sim, claro, estamos em 2008 e a vida continua, a cena alternativa se renova sempre, os bares idem, as bandas e o público também. Mas alguma coisa se perdeu pelo meio do caminho. Algo que existia no Retrô e que não existe nos bares unders de hoje, por melhores e mais legais que eles sejam. O Retrô era o lugar. E quem viveu ali, como este jornalista rocker, terá sempre lembranças fodásticas e jamais irá se esquecer do muquifo underground mais genial que já existiu na capital paulista.
* Ex-frequentadores e saudosistas em geral, vivem desenterrando vídeos toscos gravados no Retrô, e postando-os no Youtube. Este aí embaixo mostra um show do grupo Nocturne (de onde saiu o guitarrista Rodrigo Martins, que hoje toca em vários outros grupos na indie scene paulistana) em janeiro de 1997, um ano antes do bar fechar para sempre.
É impagável ouvir alguém gritando, antes do show começar: "É um lixooooooo! Olhem bem o banheiro do Retrô! Mira e entra nessa merda!". (de fato, os banheiros do Retrô eram autênticos "buracos negros". E, mesmo assim, como se trepava neles, rsrs).
Pra matar as saudades, dêem uma olhada:
ISTO ERA O RETRÔ – HISTÓRIAS DE SEXO, DROGAS E ROCK’N’ROLL
* Quase manhã de sábado, final de balada, bar já bem vazio, ainda na Frederico Abranches. Zap’n’roll, que morava no centro de Sampalândia e tinha resolvido sair de casa às QUATRO DA MANHÃ (como era seu costume na época), vai pro muquifo rocker tomar algumas. Lá chegando, dá de cara no balcão com uma delicinha de peitos enormes, cara de safada e bermuda deixando à mostra tesudas coxas morenas. O barman Gringo (figuraça que esteve presente em boa parte das duas encarnações do bar), alerta: "nem mexe com isso Finatti, que é chave de cadeia, ela tem quinze anos de idade!". E tinha mesmo apenas quinze aninhos mas nem por isso era menos safada: após um rápido bate-papo com a garota, ela resolve descer com o jornalista loki pro porão do bar, onde se localizava a pista e os banheiros. E a trepada rolou lá mesmo, em pé, num dos "reservados". O gonzo zapper, eterno mané sentimental, encanou de querer sair novamente com a garota mas ela, em outra noite no Retrô, deu o corte: "não rola, foi legal aquele dia mas não quero ficar presa em ninguém". Certo. Até que, numa bela madrugada, Zap’n’roll dá de cara novamente com a figura, que estava indo pro banheiro com o Callegari, célebre ex-baixista de trocentas bandas do movimento punk paulistano. O sujeito aqui não perdoou e disparou no ouvido do Callegari: "já comi!". Pior ainda foi a resposta dele: "Eu também". Pow!
* Outra manhã de sábado, ainda na época da Frederico Abranches: Zap maloqui encontra seu amigo Max Cavalera, do Sepultura (ele e o irmão Igor moravam encostado no bar e viviam por lá), literalmente babando em cima do balcão. Teve que levá-lo, com o auxílio de outro sujeito, carregado no ombro pra casa já que o músico não conseguia sequer parar em pé sozinho.
* Tempos já da rua Fortunato. Muita cocaine rolava por lá. O saudoso dj Toninho (que morreu há cerca de quatro anos) vivia bicudaço de padê, junto com o gonzo zapper, claaaaro. E um dia disse a frase clássica sobre o autor deste blog: "quando o Finatti sobe a escada de entrada do bar meio corcunda, é porque ele já está com o diabo no corpo". E era isso mesmo, por incrível que pareça.
* Pior quando este rock’n’roller doidão, que sempre teve transtorno bipolar e mania de perseguição em grau mediano, saia do Retrô entupido de farinha até os ossos e achando que alguém (quem?) queria arrumar encrenca com ele na rua. Invariavelmente, ele tinha que ser "escoltado" até o metrô Santa Cecília pelas lindas e fofas irmãs Adriana e Vera Ribeiro (amigonas do autor destas linhas zappers até hoje), que iam pelo caminho repetindo: "calma, está tudo bem, não tem ninguém querendo brigar com você". Era foda...
* E como a farofa era farta, boa e barata, o povo ficava louco no bar. Tão louco que numa certa manhã, dia já claro e sol a pino rasgando e queimando tudo na rua, todo mundo querendo ir embora, Roberto querendo fechar a casa onde já não tinha mais ninguém e... quer dizer, quase ninguém: no banheiro feminino o popular Cabelo, de Guarulhos, amigo dos djs Plínio e Toninho, estava literalmente "pego". Tinha dado um "teco" monstruoso, ficou em pânico e não queria ir pra fora do bar de maneira alguma. Acabou indo na marra, arrastado por Zap’n’roll e mais alguns chegados.
* E no banheiro que era um lixo... o loki zapper tinha acabado de chegar já bebaço no bar e foi direto pro banheiro masculino, com a inabalável intenção de dar uma cafungada master, para cortar um pouco o efeito do álcool e assim ficar, hã, um pouco mais "social" pra começar a conversar com as pessoas. Quando foi abrir a porta do quadradinho que abrigava o vaso sanitário, a cena nada insólita para os padrões do Retrô: um sujeito estava sentado no vaso, calça e cueca arriados até os joelhos e "arma" em riste. Por cima dele, uma xoxotaça gótica,

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