
Irreverência e charme são os dois predicados que define "Vicky Cristina Barcelona", a última obra do cineasta Woody Allen. Embora o filme já tenha sido lançado em DVD, ainda está em cartaz em algumas salas de cinema da cidade. Em um clima bastante diferente das suas produções anteriores, sem deixar de lado jamais o humor peculiar do norte-americano, a película traz uma tônica dessemelhante da que vem sendo aplicada por ele há anos.
Isso porque, após tanto tempo esmiuçando os paradoxos do romance, parece que em "Vicky Cristina Barcelona", Allen ainda sim mostra que tem muito o que dizer à respeito da irracionalidade, a maluquice e os absurdos de um relacionamento amoroso. De forma bastante criativa, ele aborda tais questões de jeito "mudado", sob outro aspecto ainda não abalroado, provando mais uma vez que é possível olhar o mesmo objeto de maneiras absolutamente novas.

Aliás, o clima de transformação usado por Allen em seu último trabalho vai muito além. Tanto que se você esperar encontrar outras similaridades em "Vicky Cristina Barcelona", nem perca o seu tempo! Pois, o tratamento dado pelo cineasta a sua atual cria é outra, algumas boas e outras nem tanto (e no decorrer deste texto você vai entender o porquê).
Em "Vicky Cristina Barcelona" há uma leveza maior, sem, porém, banalizar ou simplificar as emoções dos personagens. Talvez, o tempo tenha amenizado a angústia de Allen em querer analisar tudo sob o aspecto racional e cartesiano, principalmente, quando se trata de emoção, que como a própria denominação da palavra diz é exatamente o oposto da razão!

Mensagem que é detectada, de forma quase descompromissadamente, logo na abertura do filme, quando entra em cena a música-tema do filme "Barcelona", de Giulia & Los Tellarini, cuja letra é mais ou menos assim: "por que tanto perde-se... tanto buscar-se... sem encontrar-se?". E arrisco em dizer que ele não poderia ter escolhido canção melhor para reger a narrativa, que apesar de ser profunda é alegre e extremamente romântica e poética.
O filme narra a história de duas amigas em férias na capital catalã, sendo que cada um delas são providas de personalidades opostas e esperam da vida idem. Vicky (Rebecca Hall) é centrada e prática, já Cristina (Scarlett Johansson) é impulsiva e "meio-artista". Em Barcelona, no verão, as duas visitam os cartões postais da cidade, vagueiam pelas ruas ensolaradas e numa noite conhecem Juan Antonio (Javier Bardem), um pintor que teve um divórcio conturbado com a mulher, Maria Elena (Penélope Cruz), linda e maluca.

Momento, no qual "Vicky Cristina Barcelona" parece começar - e é o que de fato acontece. De casamento marcado com um americano com cara de relógio parado, Vicky tenta resistir às investidas do pintor, mas acaba apaixonando-se secretamente por ele depois de uma noite furtiva. Já Cristina, que logo se entrega, acaba vivendo um affair a três com ele e sua ex-mulher. No entanto, as tão faladas cenas de sexo ousadas se limitam apenas a uns beijinhos e olhe lá!
É nesta fase da narrativa, que surgem então as observações espirituosas, o humor e as idiossincrasias tão característicos do diretor. Enquanto um personagem se questiona se o amor autêntico é o que dá sentido à vida, outro pergunta com afetação a um casal de amigos se eles têm idéia de quanto custa um tapete oriental. Mostrando a permanente existência destes dois contrapontos que tornam a vida tão singular para cada um de nós.

"Vicky Cristina Barcelona" é muito mais que um simples filme analítico. Ele retrata de forma adequada a arquitetura estonteante de Barcelona. Entretanto, Allen peca neste sentido, uma vez que poderia ter explorado outros aspectos, inclusive, pitorescos, da cidade de Miró e Gaudí. Ao se valer do forte uso de cores (fato que poderia render facilmente ao cineasta um comparativo, embora "grotesco", com seu colega de profissão Pedro Almodóvar), o diretor consegue compensar, de alguma forma, as belas imagens colhidas na capital catalã, gerando um filme com uma fotografia razoável!
Se em 2002, o cineasta inaugurou a sua fase européia com "Dirigindo no Escuro" (uma comédia de erros sobre um cineasta, o próprio Allen, que sofre de uma cegueira temporária, mas ainda assim consegue rodar um filme), com "Vicky Cristina Barcelona" ele parece não pretender por um ponto final em tal ciclo paisagístico, que já conta com uma tríade cinematográfica - "Match Point", "Scoop" e "O Sonho de Cassandra", todas situadas em Londres.

Ao ir um pouco mais longe nesta análise é difícil chegar a uma conclusão de até que ponto essa etapa de Allen é fruto de uma necessidade artística real ou apenas de uma combinação de oportunidades. O fato é que o diretor, como tantos outros cineastas americanos, vinha encontrando imensas dificuldades para viabilizar seus filmes nos Estados Unidos, e, a partir de determinado momento, resolveu aproveitar sua fama na Europa e acompanhar o fluxo dos financiamentos possíveis que mantivessem o intenso ritmo de cerca de um longa-metragem por ano.
Evidentemente, Allen tem todo o direito de filmar como e onde quiser e com o financiamento que for, mas o fato é que "Vicky Cristina Barcelona", bem mais do que seus trabalhos londrinos, ficou com um jeitão de filme de conveniência, tantas são as obviedades em torno dos contrastes entre a cultura européia e a americana que desfilam pela tela. Mais incômoda ainda é a visão de uma suposta latinidade espanhola, mas da qual Allen parece compreender muito pouco!
Com Nova York, que durante tantos anos foi a casa e o cenário de seus filmes, Londres compartilha a língua e um certo "ar cinzento", dois aspectos que passam bem longe da originalidade colorida de Barcelona. A nítida impressão que fica é que a câmera de Allen parece um "peixe fora d'água" na cidade de Gaudí e Miró, o que não seria, por si só, um problema maior, se ao menos ele soubesse explorar seu olhar estrangeiro a favor da história que quer contar. Mas não é o que acontece! Tanto que o olhar que Allen lança sobre a cidade não vai muito além de pontos turísticos, visitados pelos personagens.

Mas nem por isso o filme está perdido, pois é banhado em cores quentes, que retratam Barcelona como uma cidade de prazeres e sensações intensas. Em "Vicky Cristina Barcelona" Allen emprega tal arquitetura como um comentário sobre os próprios personagens, que, refletindo o estilo no qual marcou a obra do catalão, são criaturas tão complexas e aparentemente tão instáveis, que mal compreendemos como podem se manter funcionais.
Outro aspecto afirmativo da película são as músicas que atravessam a narrativa - e que pontuam o único aspecto passional do temperamento de Vicky - não só comentam como também compõem aquele universo repleto de paixões e personalidades tempestuosas. "Vicky Cristina Barcelona" é mais uma prova de que não é preciso muita elucubração intelectual para absorver a cidade, sua estética, seu espírito (mesmo estas duas sendo apresentadas de forma "superficial"), rendendo assim, um certo "ar inovador" para o cineasta, que pelo visto, deixou de lado algumas feições "woodyallianas", nem que seja por um breve momento (ou não)!?

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