Nascido de um projeto despretensioso há cerca de dois anos, o grupo paulistano Lestics tomou forma e vem buscando o seu espaço na cena musical do País. Gerada em forma de dueto, com apenas Olavo Rocha (no vocal) e Umberto Serpieri (diversos instrumentos) em sua composição inicial, hoje, a banda cresceu e partiu para o quinteto, com a vinda de Marcelo Patu (no baixo e violão), o Felipe Duarte (na bateria e percussão) e o Lirinha (na guitarra e violão). E desde então, os músicos já contam com dois trabalhos compostos e lançados virtualmente, um conceitual "9 Sonhos", de 2007, e o mais recente, homônimo e produzido no mesmo ano que o seu primogênito.
Sem deslumbramentos quanto à fama, os integrantes da banda são bastante conscientes e, como todo grupo que integra o cenário alternativo, vão em busca do seu próprio caminho e se viram como pode para continuar a traçá-lo, sem ilusões! Tanto que cada um dos seus componentes, além de fazer parte do Lestics, tocam projetos paralelos, com outras bandas e sobrevivem, já que ainda não dá para ser somente da música, com outras atividades, até que um dia quem sabe, não precisem mais se dividir e possam enfim se dedicar apenas à música, né não!?
E este último álbum do Lestics, em especial, é muito bom! Um trabalho - que compila quatro canções - lindo, singelo e que exala poesia pura. Com canções a la folk e um certo toque pop, produzido pela inserção do piano em algumas delas, este disco merece, no mínimo, ser conhecido! O ápice está na música "Náusea", que provoca verdadeiros arrepios logo quando começa a ser ouvida, seja pelos arranjos perfeitamente combinados, seja pela letra, cujo trecho inicial é: "A náusea me faz vomitar o que eu penso. A febre me ajuda perder o bom-senso. O delírio me inspira palavras mais certas. O instinto mantém as minhas veias abertas. Não há tratamento para minha patologia. O que não me mata eu transformo em poesia. A dor me obriga a abraços os espinhos...".
Outra canção belíssima e que merece atenção neste trabalho é Luz de Outono, que conta com citações simples, porém extremamente profundas, talvez pela poesia embutida em sua letra, de maneira singela, mas com uma destreza e ritmo próprio, do tipo: "Pode ser que algum dia eu perca o sono e não tenha vontade de andar e comer. Mas eu nunca me canso da luz do outono...", cuja letra é embalada pelo violão, piano e a voz linda e rouca de Olavo. Enfim, Lestics é uma banda que se continuar a galgar, mesmo que com toda a cautela e calma do mundo, pode chegar lá, sim , no "pódio" do mundo da música com seu rock-folk-pop de estirpe, se é que me entendem!?
Ficou curioso para conhecer de perto o trabalho da banda? Então, não deixe de acessar o myspace do quinteto (www.myspace.com/lestics) ou então, o site do grupo (http://www.lestics.com.br/), cujas músicas do primeiro CD estão disponíveis para download. Mas se você ainda sim quiser saber mais sobre o Lestics, confere a entrevista com o seu vocalista, onde ele conta a história dos músicos, a visão diante da cena música e alternativa do país e meio no qual atuam diretamente, São Paulo, e muito mais. Leia aí:

Town Art - Como aconteceu a formação da banda? Me conte um pouco da história do Lestics.
Olavo Rocha - A banda nasceu no finalzinho de 2006, formada por mim e pelo Umberto, como um projeto paralelo, pois nós também tocávamos nas bandas Gianoukas Papoulas. Nessa época a gente resolveu gravar um disco em casa e deu ao projeto o nome de Lestics. Eu cantei e o Umberto gravou todos os instrumentos. Lançamos o trabalho no começo de 2007, um álbum conceitual chamado "9 Sonhos", que pode ser baixado pela internet (www.lestics.com.br). Gostamos do processo e acabamos gravando e lançando um segundo álbum virtual no mesmo ano, chamado "les tics". Até então, éramos um duo e não tínhamos intenção de fazer apresentações ao vivo. Mas a recepção dos trabalhos foi muito boa e por isso resolvemos completar a formação da banda e investir nisso. Chamamos o Marcelo Patu, o Felipe Duarte e o Lirinha, e agora estamos começando a compor novas músicas e tocar por aí.
Town Art - O Lestics, como muitas bandas que integram a cena alternativa, contam com o aliado maior na divulgação do seu trabalho, que é internet, certo!? Na visão de vocês, qual o papel e importância desta ferramenta para os grupos e/ou músicos tanto do underground, como até mesmo dos integrantes do "mainstream", vide como exemplo grandes astros da música, como Radiohead, Coldplay, Tom Zé, entre tantos outros?
Olavo - Em momento algum passou pela nossa cabeça lançar os nossos discos em formato de CD ou coisa parecida. A internet nos basta! Quem já ganhou grana vendendo discos com certeza sofre essa perda, mas não é o nosso caso. A net nos permite trabalhar de forma absolutamente independente, o que é muito confortável!
Town Art - De uns anos para cá, a cena alternativa alcançou uma dimensão jamais inimagináveis há alguns anos, ainda mais com a falência das grandes gravadoras, certo!? Como vocês analisam hoje o circuito underground do País, em especial no local de atuação do Lestics, que é a Grande São Paulo? Vocês acreditam que este é o caminho? Como vocês acham que vai se consolidar este processo todo?
Olavo - Hoje em dia anda embolado esse negócio de "mainstream" e a cena alternativa. Quase todo mundo é meio independente, porque as gravadoras demoraram demais a se mexer depois que o barco começou a fazer água. Aí os artistas "estabelecidos" também tiveram que procurar "alternativas". Especificamente no rock, tem bandas excelentes por aí, em São Paulo inclusive, e ótimos festivais. Mas o público, apesar de crescente, ainda é relativamente pequeno. O que não chega a ser um problema! Acho que a gente precisa entender e aceitar essa tendência de segmentação, que eu acredito que vai se consolidar.
Town Art - O Lestics tem total influência de folk, agregado a outros subprodutos do rock, certo!? Qual a identificação dos seus participantes com estes gêneros?
Olavo - Acho difícil dizer categoricamente que o que a gente faz é folk. Também tem muito de rock, de pop, de country, de blues e de outras coisas no nosso som. A sonoridade folk, às vezes, fica mais evidente por conta dos arranjos baseados em violão, o que na verdade é conseqüência da nossa opção por gravar em casa, em "home Studio". Eu gosto de folk tanto quanto gosto de rap, por exemplo. Não pretendo tocar rap, pelo menos não agora, mas também não tenho intenção alguma de ficar preso a um gênero.
Town Art - O que os integrantes do Lestics têm ouvido atualmente e de que forma estas bandas e /ou músicos influenciam no trabalho da banda?
Olavo - Eu e o Umberto temos discotecas bem diferentes e o nosso gosto musical tem mais divergências que pontos de convergência. O Patu, o Felipe e o Lirinha trazem influências e backgrounds muito diversos também. De qualquer modo, a gente adora Neil Young, e Dylan, e os Beatles. Estes caras, com certeza, têm uma influência grande sobre o que a gente faz.
Town Art - As canções do Lestics falam do cotidiano, mas de forma bem direta e singela, sem perder a poesia, claro!? Diante de tanto caos no qual a nossa sociedade está submersa, como vocês conseguem busca tais inspirações para as suas composições e colocá-las de forma tão poética, ou seja, extrair e embutir poesia neste cenário tão conturbado no qual vivemos?
Olavo - Eu escrevo as letras e o Umberto é o autor das músicas dos dois primeiros discos. Agora estamos fazendo novas músicas com a banda toda no processo. Uma das músicas novas eu fiz com o Marcelo Patu, por exemplo. Quanto à "poesia" das letras, na verdade eu reluto em usar essa palavra, não vejo qualquer conflito com a realidade. A "poesia" pode ser tão ou mais árida, ou suja, ou doída, que o mundão aí fora.
Town Art - Como vem fluindo os trabalhos da banda, desde o seu surgimento? Acredito que deve ser difícil viver de música, certo!? Como vocês se mantêm, ou melhor, o que cada um faz em paralelo para poder alimentar este sonho?
Olavo - Estar no "underground" tem suas dores e delícias. As dores são a falta de dinheiro e o reconhecimento restrito. Não dá pra sobreviver dignamente estando no subsolo, então cada um de nós tem seu emprego pra ganhar a vida. Por outro lado, temos a liberdade criativa, a falta de compromisso com o "mercado", a chance de fazer o que nos dá na telha. Nem acho que isso seja um sonho. É a nossa vida.
Town Art - Há quanto tempo os integrantes da banda são envolvidos com a música de alguma forma? De onde vem a formação dos músicos do Lestics?
Olavo - Todos estão na música faz um bom tempo, e também tocamos em outras bandas. O Marcelo Patu toca no Tenente Clown. O Lirinha toca no Plazma. Eu e o Umberto, nos Gianoukas e Papoulas. O Felipe tocava numa banda de hardcore... De todos nós, acho que o único que nunca estudou música sou eu mesmo. Mas acho a formação teórica muito importante, me ressinto de não ter. Talvez um dia eu ainda corra atrás disso.
Town Art - Qual o sonho maior, dentro do ramo musical, dos integrantes do Lestics? Não vale dizer que é ter sucesso... (risos)
Olavo - É o sucesso... risos
Town Art - Qual a importância dos festivais de música para as bandas e/ou músicos? Qual a dificuldade maior de ingressar neste circuito?
Olavo - Ainda não tocamos em festivais, até porque estamos começando agora a fazer nossos primeiros shows. Mas acho que os festivais são muito, muito importantes para ampliar a cena independente, dar a ela uma dimensão maior e mais "pró". A dificuldade para entrar nesse circuito é a velha lei da oferta e da procura: tem muita banda e relativamente pouco espaço. No entanto, acho que a gente acaba entrando em algum...
Town Art - Para finalizar: o que o Lestics almeja para o futuro? Quais os próximos projetos da banda?
Olavo - A gente quer compor músicas boas, gravar num esquema legal, tocar por aí e se divertir.

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