Que Lenine sempre teve simpatia pelo rock'n'roll e outros estilos musicais, dos mais variados possíveis e que sempre agregou aos seus trabalhos, desde quando iniciou sua carreira, lá em meados da década de 1970, não é novidade alguma! No entanto, neste seu novo disco "Labiata", o pernambucano exacerba de vez este seu apreço por tal estilo, com toques de guitarras mais pesadas, sem deixar de lado, claro, as suas raízes. Ou seja, os elementos e estilos dos quais ele sempre se valeu, ao misturar os mais diversos gêneros, como MPB, maracatu, samba, entre outros.
O oitavo da carreira de Lenine, que é considerado um dos maiores compositores desta nova safra de músicos brasileiros, "Labiata" foi lançado recentemente e marca o retorno triunfal do autor de "Jack Soul Brasileiro", após um hiato de dois anos, quando produziu seu último trabalho "Lenine Acústico" (de 2006). A estréia da turnê de divulgação do álbum teve início em São Paulo, quando o pernambucano faz um trinca de show, há cerca de duas semanas (14, 15 e 16/11), nos palcos do Sesc Pinheiros.
Com o teatro completamente lotado e a platéia animadíssima, Lenine, acompanhado dos músicos Pantico Rocha (bateria e percussão), Guila (baixo) e JR. Tostoi (guitarra e programação), trio que tem sido o parceiro de palco de Lenine nos últimos anos, desde a turnê "Incité" (de 2004), provou mais uma vez o porquê arrasta uma legião de fãs pelo País afora, cujo "status" só aumenta a cada lançamento de um novo trabalho. Tanto que de acordo com divulgação do próprio Sesc, os ingressos para os três dias de show foi fenômeno de bilheteria, tendo sido esgotados, poucas horas depois de terem sido liberados para venda.
Provido de um ginga e carisma, que é só dele, ou melhor, de poucos, ele não deixou a "peteca cair" durante toda a sua apresentação, que durou por volta de duas horas. Subiu ao palco meio tímido, mas poucos minutos depois, a platéia já correspondia a ele, prestando atenção a cada detalhe do show, cantando em dançado, principalmente quando Lenine e sua banda tocaram os grandes sucessos do músico, como "Sentimental" (de "Incite"), "Encantamento" (de "Falange Canibal", de 2001), "Paciência" (do álbum "Na Pressão", de 1999), "O Dia em que Faremos Contato" e "Hoje eu quero sair só" (ambos de "O Dia em que Faremos Contato", de 1997).
Já de "Labiata", Lenine e sua banda tocaram "Martelo de Bigorna", "Magra", "Samba e Leveza", "É Fogo", "Ciranda Praieira", "É O que me Interessa", "Excesso Exceto", "Continuação", entre outras faixas do disco. E sem sombra de dúvidas, as canções de "Labiata" ganham uma sonoridade própria, quando formatadas ao vivo, o que não exclui a beleza do álbum em uma audição estérea, no qual se percebe a formosura de outros elementos, talvez imperceptíveis em shows, como a primazia dos arranjos criados por Lenine, além da profundidade das canções, que soam como primorosas crônicas cotidianas em forma de poesia, artifício do qual ele sempre se valeu, e muito bem, em suas criações.

Partindo da premissa de que concerto em si é um novo momento e lança mão de várias outras ferramentas, sem se ater a regras, Lenine preserva em parte a sonoridade do disco, mas também testando outras possibilidades, dando uma "nova cara" à sua produção com "Labiata". O álbum possui 11 faixas inéditas, assinadas por compositores parceiros de longa data de Lenine, como Arnaldo Antunes, Braulio Tavares, Lula Queiroga, Paulo Cesar Pinheiro, Carlos Rennó e a inédita com Chico Science "Samba e Leveza".
O disco abre com "Martelo de Bigorna", cujo texto exala poesia pura, conforme trecho, que diz "Tanto choro e pranto, a vida dando na cara, não ofereço a face nem sorriso amarelo, dentro do meu peito uma vontade bigorna, um desejo martelo...". Outra canção lindíssima é "Magra", a segunda faixa do CD, cuja temática é extremamente romântica, que conta com aquela "batida" de violão bastante peculiar nas composições de Lenine, e versos do tipo: "moça, pernas de pinça; alta, corpo de lança; magra, olhos de corça; leve, toda cortiça; passa como que nua; calma, finge que voa; brasa, chama na areia; bela, como eu queria; magra, leve, calma, toda ela bela...".
Agora, a versão mais rock'n'roll do disco, com toques de guitarras mais pesadas, com certeza, é "Excesso Exceto", faixa 10 do álbum. Também pudera, afinal de contas, a composição vem assinada por Lenine e Arnaldo Antunes e que vem com citações baseadas em poesia concretista, como "o que se abre aberto, se aproxima perto pra esvaziar o já deserto, desorienta o incerto, ruma sem trajeto, nunca existiu, mas eu deleto...".
E para finalizar a concepção de "Labiata", o músico não poderia ter fechado da melhor forma, com a canção "Continuação", que mais se assemelha a um recital poético, com notas de violão ao fundo", no qual ele diz: "o contra o encontro a contração, a era o eros a erosão, a fera a fúria o furacão
o como o cosmo a comunhão, o pré a prece a procissão, o pós o póstumo a possessão, a cor a corte a curtição amor a morte a continuação."
Com "Labiata", Lenine mostra novamente um trabalho diferenciado, mas sem deixar de lado sua marca de ritmos e batidas. Trabalho, no qual é possível encontrar de tudo um pouco, sem se perder o foco, seja nos arranjos musicais, cujas canções são um mix de estilos com um pé um pouco mais firme no rock'n'roll, ou mesmo na temática das mesmas, que falam muito sobre amor, mas também, sobre futuro e vai até o degelo do Planeta. Enfim, neste trabalho o músico e compositor prova mais uma vez que para se consolidar ou fazer um bom disco é possível sim se utilizar da versatilidade, com muita sabedoria e criatividade, qualidades das quais ele possui de sobra!

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