Dynamite

Entries for month: May 2009

E a contracultura continua a fazer a nossa cabeça...

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Jack Kerouac (1922-1969) mais uma vez tem sua imortalidade literária com "Visões de Cody".

De tempos em tempos, os principais representantes da contracultura são revisitados com novos livros. Como é o caso de "Visões de Cody", de Jack Kerouac (1922-1969), que sai no Brasil, nesta sexta-feira (15/05), pela primeira vez, 27 anos depois de sua publicação póstuma nos Estados Unidos. Com a inclusão de tal obra na cena brasileira, "Visões de Cody" passa a integrar o conjunto de três livros que conferem ao escritor e poeta beatnik, à dita imortalidade literária. Os outros dois exemplares são: "On The Road - Pé na Estrada" (2004) e "On The Road - Manuscrito Original" (2008).

Estas três longas obras representaram e continuam tendo a sua relevância literária até os dias de hoje, por romper com os padrões norte-americanos da época. Principalmente pela escrita peculiar, chamado pelos teóricos de "prosa experimental", que consiste em parágrafos intermináveis, mistura de vozes, interrupções na cronologia (ou seja, rompimento de um pensamento ou idéia linear), digressões infinitas, neologismos e verborragia, sendo esta última característica sempre presente nos registros de Kerouac.

De maneiras distintas, tais livros narram a mesma história, a amizade estradeira entre Kerouac e Neal Cassady, sendo este em formato fictício. O autor apresenta os seus encontros e aventuras de juventude, tendo como ponto de partida as andanças pelos Estados Unidos, vivenciando um mundo mais "libertário", com o uso constante de álcool e drogas e participações em orgias sexuais alcoolizadas, sempre partindo como pressuposto o bebop, seja em termos de trilha sonora ou mesmo de modelo estético.

A versão mais clássica e conhecida do grande público em relação a esta tripla narrativa, sem sombra de dúvidas é "On the Road - Pé na Estrada". Escrito no início dos Anos 50, o livro foi lançado apenas em 1957 e, desde então, se tornou peça de destaque do legado literário deixado por Kerouac, apesar dele ter publicado outras obras de relevância idem, como "O Subterrâneo".

Já "Visões de Cody" foi escrito paralelamente a "On the Road" e publicado apenas três anos depois da morte dele, ocorrida em 1969. Definida por alguns, na verdade, os mais afoitos no consumo da literatura beat em geral, como uma lenda literária e até mesmo mais autêntica que o eterno clássico "On The Road".

No entanto, as diferenças entre os dois textos são substanciais e gritantes. Visto que elas vão bem além do fato de Neal ser aqui batizado de Cody Pomeray e não Dean Moriarty. E por mais fragmentário que possa ser e mais radicalmente experimental também, "Visões de Cody" acentua menos a experiência estradeira e mais as percepções que o narrador tem tanto da figura de Neal/Cody, quanto da própria realidade. E detalhe, o posfácio (escrito com o intuito de guiar e auxiliar o público na leitura) é de outro grande representante da literatura beat Allen Ginsberg.

O único ponto em comum entre estas obras talvez seja a presença do sonho americano como nostalgia impossível, recuperável apenas pela vivência marginal e sem limites. Estilo de vida pouco convencional para a época e que foi abraçado com afã por Kerouac, seus "comparsas" e seguidores, definida exemplarmente em uma de suas memoráveis citações, que diz: "eu só confio nas pessoas loucas, aquelas que são loucas pra viver, loucas para falar, loucas para serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, que nunca bocejam ou dizem uma coisa corriqueira, mas queimam, queimam, queimam, como fabulosas velas amarelas romanas, explodindo como aranhas através das estrelas...".

Crime em formato de ficcção

 

Outro símbolo beat William S. Burroughs (1914-1997) tem livro inédito publicado no Brasil.

Outro legado da geração beat e inédita no País é "E Os Hipopótamos Foram Cozidos Em Seus Tanques". A obra, que vai ser lançada também nesta sexta-feira (15/05), foi escrita a quatro mãos por Kerouac e William S. Burroughs (1914-1997), no ano de 1945. Ou seja, bem antes de ambos e mais o poeta Ginsberg se tornarem figuras célebres perante a legião de seguidores e apreciadores do movimento beat. Com uma tônica bastante diferente dos livros citados até agora, "E Os Hipopótamos Foram Cozidos Em Seus Tanques" ficcionaliza de maneira linear um fato real, rumoroso, acontecido em 1944: o crime cometido por um amigo dos dois, Lucien Carr, que matou outro amigo comum, David Kammerer.

Ambos tinham um envolvimento homossexual aparentemente platônico e o que garantiu a Carr uma pena leve foi a alegação de legítima defesa por assédio sexual. Depois de sair da prisão, Carr fez longa carreira de sucesso como diretor da United Press International, bem casado com sua mulher, ele ficou afastado dos antigos amigos. "E Os Hipopótamos Foram Cozidos Em Seus Tanques" só teve autorização legal para ser publicado após sua morte, em 2005.

Apesar de seu valor literário ter sido questionado pelo próprio Burroughs, assim quando tomou conhecimento da existência da obra, o seu enredo é bastante interessante e no mínimo intrigante, como é de se esperar do mesmo, ao ter como centro apenas as circunstâncias do crime, visto que o seu final já é conhecido. Com capítulos escritos alternadamente pelos autores, a obra evidencia mais uma vez a harmoniosa cumplicidade de ambos na criação do clima tenso que levou ao ato, sem deixar de lado, embriões da característica da escrita de cada um deles: a agudeza conceitual de Burroughs e o poder descritivo em Kerouac.

Pois bem, a dica está dada, certo!? Os afoitos por devorar as obras literárias dos escritores e poetas beats esta é uma ótima oportunidade para conhecer outros legados deixados pelos seus grandes representantes, saindo um pouco do "arroz com feijão", certo!?. E os que nada ou pouco conhecem sobre este movimento cultural, revolucionário para a época, e que foi muito além de apenas uma manifestação literária, extrapolando para as áreas da música, artes plásticas, teatro, cinema etc, estas também são boas opções, oray!?

"Visões de Cody"

Autor: Jack Kerouac

Tradução: Guilherme da Silva Braga

Editora: L&PM

Total de páginas: 447

Preço: a definir

Previsão de lançamento: próxima sexta-feira (15/05)

"E Os Hipopótamos Foram Cozidos Em Seus Tanques"

Autor: William S. Burroughs e Jack Kerouac

Tradução: Alexandre Barbosa de Souza

Editora: Companhia das Letras

Total de páginas: 169

Preço: R$ 34,00

Previsão de lançamento: próxima sexta-feira (15/05)

 

Show na Web?

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Cada dia mais, a internet vem se tornando uma ferramenta importante, para não dizer essencial, em nossas vidas, né não!? E usufruindo deste bastante usual canal de comunicação, a CBS Comunicação, liderada por Clayton Botelho e José Luiz, conhecido popularmente como Bugão, criaram o Projeto "Show na Web", cuja festa de lançamento acontece exatamente hoje, terça-feira (12/05), a partir das 20h, na Cia, dos Espetinhos - R. Girassol, 66, Vila Madalena.

Com o intuito de levar aos internautas shows ao vivo ou trechos deles, a iniciativa já conta com algumas gravações, embora o lançamento oficial do projeto ainda não tenha sido promovido. Uma ótima forma de inserção do público na cena musical do País, visto que quem não se deparou com a situação de almejar estar em um determinado evento do gênero, de seu artista predileto (ou nem tanto, o que não vem ao caso) e por motivos de força maior não pode conferi-lo.

Pois é, para que estas pessoas não fiquem se contorcendo em suas casas, trabalhos ou qualquer outro lugar, os idealizadores do "Show na Web" entraram em ação e criaram tal projeto. Com equipamentos de última geração, a equipe grava a apresentação do artista e/ou banda e a transmite, simultaneamente, ao vivo e em cores aos seus fãs e curiosos também. Por isso, sem desculpas, hein!? Não pôde conferir de perto o show de seu artista predileto, basta acessar, seja na hora em que ele é realizado ou depois, acessa o site do projeto: http://www.shownaweb.com/.

 

 

O “Qual é a joga?” está de volta!!!

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Após a pane técnica, que acometeu o portal Dynamite, esta coluna volta à ativa. Em decorrência disso, infelizmente no feriadão passado, vocês, meus caros leitores, acabaram ficando sem as tradicionais dicas culturais, elencadas semanalmente neste espaço virtual, né não!? Mas como nem todo mal dura para sempre, retorno com elas e prometo compensar a "ausência" da semana passada. Tanto que ela vem em edição especial e recheada de novidades, com sugestões para dar e vender, oray!? Confere aí:

Teatro

Rolê 1

Cena da montagem "Sessenta Minutos Para o Fim", em cartaz na cidade.

Uma dupla de atores trancada em um teatro por um coelho é condenada a se apresentar para um público que não aparece. Esse é o ponto de partida do espetáculo "Sessenta Minutos Para o Fim", da companhia Garagem 21, que cumpre temporada aos sábados e domingos, sempre às 18h30, no Espaço dos Satyros 2 (Praça Franklin Roosevelt, 134, República), até 28 de junho. Escrita e dirigida por Cesar Ribeiro, a montagem representa a segunda parte do Projeto "Naftalinas na Garganta", uma série de quatro obras que serão encenadas no espaço até outubro deste ano. O primeiro espetáculo foi "Queen - a Festa", que esteve em cartaz em abril. O texto tem inspiração em obras como "O Arquiteto e o Imperador da Assíria", de Fernando Arrabal, e "Fim de Jogo", de Samuel Beckett, e fala sobre as relações de poder na sociedade contemporânea. No palco, Ulisses Sakurai interpreta um velho ator cego que depende de seu companheiro de cena, um ator mais jovem interpretado por Paulo Campos. Ao mesmo tempo em que vive o papel de servo na relação, o inexperiente ator, ao ter o domínio da informação, cria uma série de inverdades. Tudo se passa enquanto o coelho, que aprisionou os dois, joga baralho e observa o que acontece. Os prisioneiros somente estarão livres quando fizerem uma apresentação em que o público apareça. Também fazem parte do "Naftalinas na Garganta" as obras "Cigarro Frio em Noites Mornas" (04/07 a 30/08) e "Somente os Uísques São Felizes" (05/09 a 25/10). A proposta do grupo é estabelecer uma linguagem teatral em que ocorra a fusão de elementos tradicionais com a influência do cinema, das HQs e dos cartuns. Os ingressos custam R$ 20,00 por pessoa.

Rolê 2

Na peça "Cidade Desmanche", o público se depara com espetáculo existencialmente urbano.

A Cia. Teatro de Narradores prorrogou a temporada, que vai até 17/05, do espetáculo "Cidade Desmanche", em cartaz no Espaço Maquinaria, localizado na R. Treze de Maio, 240, Bela Vista. Criada a partir do convívio dos integrantes com pessoas das mais variadas origens e trajetórias, que moram no centro de São Paulo, a peça é uma releitura e um aprofundamento do trabalho anterior da trupe, o espetáculo "Um Dia de Ulysses". A montagem conta a história de Nelson, um ex-presidiário que sai da prisão e parte a uma busca sem fim por sua antiga companheira, Helenice. E de Coreano, um homem que integra um esquema de falsificação de documentos e manutenção ilegal de bolivianos na cidade. Com o esquema desarmado, Coreano passa a ser perseguido, ao mesmo tempo, pela polícia e pelos bandidos que integravam o bando. A busca de um e a fuga de outro se confundem e produzem um encontro inusitado. Nesse duplo percurso, figuras do centro da cidade atravessam o caminho dos dois. A direção e a dramaturgia são de José Fernando Azevedo. No elenco ainda estão Benito Karmona, Bruno Gravanic, Conrado Caputto, Humberto Gollabeh, Mawusi Tulani e Teth Maiello. A narrativa é apresentada sempre aos sábados, às 21h, e aos domingos, às 20h, e os ingressos podem ser obtidos na bilheteria do local pelo preço de R$ 20,00, cada um.

Exposições

Rolê 3

Em "Alquimia das Cores" você pode conferir telas da artista plástica Sandra Valentim.

Na exposição "Alquimia das Cores", que reúne telas da artista plástica Sandra Valentim, o público pode conferi-la na Galeria Area Artis (R. Normandia, 92, Moema), até 16 de maio (sábado). A artista carioca, residente em Salvador, mostra obras de pintura em óleo, acrílica sobre tela e colagens. Ela tem programadas duas exposições internacionais neste ano: na Infusion Gallery, em Los Angeles (em setembro), e na Agora Gallery, em Nova York (em novembro). A entrada no local é franca e o espaço pode ser visitado de segunda a sexta-feira, das 1h às 19h, e aos sábados, das 10h às 17h.

Esta é uma das obras que pode ser apreciada em mostra na Galeria Area Artis.

Rolê 4

Outra dica é para a exposição "Coletivo Potiguar Fotografia Contemporânea - Imagens da Esquina do Brasil", em cartaz na Caixa Cultural Sé, situada na Praça da Sé, 111, região central da cidade. A mostra fica aberta ao público até 14 de junho, com entrada gratuita. No local o local o público se depara com trabalhos de nove fotógrafos, naturais ou moradores do Estado, que foram produzidos entre os anos de 2000 e 2008. Com foco na fotografia autoral, Numo Rama, Jean Lopes, José Frota, Erik van der Weijde, Karen Montenegro, Hugo Macedo, Max Pereira e Pablo Pinheiro, além do próprio curador Ricardo Junqueira, mostram no conjunto de imagens a diversidade de linguagens e estilos próprios deles mesmos e do Estado nordestino de rica cultura. Imagens cotidianas, da arquitetura e do povo potiguar aparecem em ângulos diferenciados e em imagens coloridas ou em preto e branco. O espaço fica aberto ao público de terça a domingo, das 9h às 21h.

Imagem captada por Jean Lopes e que integra mostra na Caixa Cultural Sé.

Shows

Rolê 5

A primeira dica musical desta semana é para os baladeiros de plantão! Trata-se da Festa "Rockfellas", que acontece semanalmente no Vegas Club (R. Augusta, 765, Consolação). Nesta quinta-feira (07/05), o evento vem com uma edição especial cuja temática é "Country X Surf Music" e que conta com shows das bandas Bad Lucky Gamblers, na qual aproveita a ocasião para promover o lançamento de seu novo clipe, e de Retrofoguetes. Tem ainda a discotecagem dos DJs Focka, Marcio e Tibira X Clemente e China. O evento começa por volta das 23h30 e de entrada é cobrado na porta da casa noturna R$ 20,00.

Rolê 6

Já na semana que vem, na terça e quarta-feira (12 e 13/05), os pernambucanos do Mundo Livre S/A volta a pisar e tocar por palcos paulistanos. Pois é, a banda faz duas apresentações no Clube Belfiori (CB), situado na R. Brigadeiro Galvão, 871, Barra Funda, previstas para acontecer por volta das 0h, embora a casa noturna abre as suas portas cerca das 22h. Quanto você paga para se jogar nesta dica? R$ 35,00.

Mundo Livre S/A faz dois shows nos dias 12 e 13/05, em São Paulo.

Rolê 7

Para fechar a tampa, que tal conferir a próxima edição do Projeto Supernova - promovido no Sesc Vila Mariana (R. Pelotas, 141, Vila Mariana) com a finalidade de destinar espaço aos músicos e grupos com destaque no cenário alternativo da música urbana, produzida nos grandes centros - que acontece nesta sexta-feira (08/05), às 20h30. Ele tem como atração a cantora e trompetista Claudia Dorei. A carioca, que nasceu no Rio de Janeiro, mas está radicada em São Paulo desde 2001, tem como proposta criar uma ponte entre a elite e a periferia ao ritmo do trip hop. Influenciada por grupos como Portishead, Cocorosie, Chet Baker e Bjork, a artista se apresenta acompanhada de uma banda, formada por Mestre Nico (percussão), André Édipo (guitarra), Rogê (baixo), MC Thg (beatbox) e Gil Duarte (saxofone, flauta, escaleta e trombone). Os ingressos custam entre R$ 3,00 e R$ 12,00.

 

Bom, acho que por hoje é só, né!?

Espero que todos tenham um ótimo final de semana e claro, que as dicas sejam aproveitadas, afinal de contas, só não se joga quem não quer, não é verdade!?

Até a semana que vem, oray!?

Beijos em todos e inté!

Banda Eddie e seu baile de carnaval no inferno

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Quem acompanha a cena alternativa brasileira já deve, ao menos, ter ouvido falar na banda Eddie, né não!? Pois então, o grupo, nascido em Olinda (PE), há cerca de duas décadas, recentemente lançou novo disco (o que talvez não seja novidade para alguns, principalmente, aos mais antenados nos recém-acontecimentos do circuito underground), que vem com um título bastante sugestivo: "Carnaval no Inferno". Produzido de forma independente, o quarto CD da carreira do quinteto é uma verdadeira obra-prima, em todos os sentidos, seja no quesito inovação ou mesmo no quesito criatividade.

Talvez, "Carnaval no Inferno" tenha sido o apogeu em termos de produção do grupo, ao longo destes 20 anos de estrada. Tanto que não é à toa, que o CD, desde quando caiu nas mãos do povo, com o lançamento oficial em março, vem sendo muito bem aceito, tanto pela crítica especializada, quanto pelo público. Afinal de contas, o grupo tem estofo suficiente e bagagem ainda maior para conquistar tal posição de destaque, aliado ao talento e maturidade de seus integrantes!

Velhos conhecidos da cena alternativa brasileira, os olindenses do Eddie, diga-se de passagem, sempre buscaram produzir algo diferenciado ao associar diversos estilos musicais às suas produções, que vai do reggae, samba, rock, ao frevo e música regional, provando que com destreza e inventividade é possível criar algo relevante, dentro deste "turbilhão" todo que concerne à cena musical brasileira. E em "Carnaval no Inferno" não foi diferente, claro, mas que veio de uma maneira diferente!

Tanto que uma das características mais marcantes do álbum talvez seja o de fazer, mesmo que intencionalmente (conforme afirmação do líder da banda Fábio Trummer, em entrevista exclusiva ao Blog "Town Art" e que pode ser conferida logo mais), uma espécie de retrospectiva da carreira da banda ao reunir o lado mais "energético" e mais introspectivo, ao mesmo tempo, dos três discos anteriores do grupo - "Sonic Mambo" (1998), "Original Olinda Style" (2003) e Metropolitano (2005).

Produzido por Trummer em parceria com Buguinha, "Carnaval no Inferno" compila onze faixas, abrilhantadas com participações de peso, como Junio Barreto, Jorge Du Peixe, Lucio Maia e Karina Buhr. Com uma diversidade de gêneros e uma boa dose de melancolia, porém de maneira dançante e despojada, o disco é o resultado de um trabalho dilatado, impressionista, meticuloso e rico, que retoma o latejo engenhoso de "Original Olinda Style" e sepulta de uma vez por todas (no bom sentido) seu último trabalho, "Metropolitano".

A banda, que passou por várias formações e atualmente é integrada por Fábio Trummer (no vocal e guitarra), Kiko Meira (na bateria), Rob Meira (no baixo), Alexandre Urêia (na percussão e backing vocal) e André Oliveira (no trompete, teclado e samplers), parece bem mais madura neste trabalho.  O grupo cria em seu novo disco uma alegoria carnavalesca um tanto soturna, sem exageros à parte, no qual o deixou repleto de belos momentos. Quer saber mais detalhes de "Carnaval no Inferno" e mais umas coisinhas aqui e ali à respeito do Eddie? Então, leia a entrevista com o líder do quinteto, Trummer:

Town Art - Este é o quarto CD da carreira de vocês, certo!? No que ele difere dos trabalhos anteriores da banda?

Fábio Trummer/ Banda Eddie - Acho que a grande diferença para os trabalhos anteriores é a maturidade da banda, com o tempo e trabalho fica mais fácil de chegar perto das idéias musicais que temos na cabeça, mas sempre seguimos uma mesma direção, desde o primeiro trabalho ainda em fitas cassete.

Town Art - Por que vocês escolheram "Carnaval no Inferno" para nomear este disco? Como surgiu a idéia de intitular este trabalho de vocês?

Trummer/ Banda Eddie - O nome "Carnaval no Inferno" foi escolhido por ter a ver com a temática das letras deste trabalho, os extremos nos quais vivemos nos centros urbanos, da alegria à agonia. Enfim, são nomes carregados de simbolismo e significado e achávamos que isto iria ter um destaque na cabeça do nosso público.

Town Art - Nota-se que uma das principais marcas do trabalho da banda Eddie é a miscelânea musical, reflexo do conceito que o próprio manguebeat carrega desde os seus primórdios, que vão desde as influências de reggae, samba ao rock e frevo. Como vocês conseguem digerir e reunir com tanta destreza tais diversidades de estilo?

Trummer/ Banda Eddie - Pernambuco é um Estado que tem uma variedade grande de cultura. Em Recife e Olinda, nós convivemos com um cardápio de manifestações dos mais diversos e quando não se quer fazer uma música balizada pela indústria fonográfica, esta "ecleticidade" é uma opção boa para fazer o trabalho com originalidade e tentar fugir do que já foi feito. Temos o contato direto com a cultura popular e a cultura contemporânea estrangeira e brasileira, e procuramos usar o que nós gostamos destes mundos para fazer nossa música.

Town Art - Como nasceu o projeto da banda Eddie?

Trummer/ Banda Eddie - O Eddie nasceu para um Festival do Colégio Objetivo Norte/Nordeste. Mas a música foi tomando conta da minha vida até não dar mais para ignorar o fato e buscar me profissionalizar, tanto que tivemos quase uma dezena de pessoas em várias formações e a que se apresenta atualmente está junta há sete anos.

Town Art - As mudanças fazem parte da vida de qualquer ser humano, principalmente, no mundo em que vivemos atualmente, no qual a cada dia temos um "bombardeio de informações" e que estão constantemente em transformação. De que forma tal sistemática reflete no trabalho de vocês? Teve alguma alteração de foco ou mesmo de influências musicais, ao longo de todos estes anos de estrada?

Trummer/ Banda Eddie - Mudaram alguns membros. Na verdade, sou o único da primeira formação, acho este fato é normal, pois começamos ainda na escola, em 1989, e a musica era apenas um passatempo, tanto que hoje, grande parte das pessoas não é profissional da música. Além do mais, com o tempo podemos tomar rumos diferentes e é saudável a mudança de formação do grupo, visto que, musicalmente com o passar do tempo nos interessamos por outros universos gêneros e ritmos, e também conhecemos novas maneiras de trabalhar a musicalidade e isto acaba transformando o seu trabalho.

Town Art - Ah, e já que tocamos neste assunto, quais são as influências da banda e de que forma elas ecoam no trabalho de vocês?

Trummer/ Banda Eddie - Posso listar algumas bandas e músicos que influenciam a gente conscientemente. No início: The Stooges, Ramones, Pixies, Jorge Ben, Dinossaur Jr, Mundo Livre, além de hip hop e a linguagem cinematográfica de David Linch. Depois veio o jazz, bossa, reggae, afrobeat, mais cinema... e agora, música do Leste Europeu, Beirut, Carnaval, futebol, Chavela Vargas, Goran Bregovic... são muitas e não são só musicais, arquitetura, design, literatura etc...

Town Art - Este novo disco de vocês, podemos dizer que é uma espécie de retrospectiva da carreira da banda, passando pelo lado mais "energético" e o mais introspectivo do grupo, ao mesmo tempo, embora as canções sejam todas novas, certo!? Fale mais sobre isso.

Trummer/ Banda Eddie - Verdade, mas não foi intencional. Acho que conseguimos retratar o que é o Eddie, o tempo junto com esta formação e o trabalho contínuo no palco, as turnês, acabou dando esta característica ao CD. As composições novas não são pré-concebidas, elas saem e só depois é que temos uma idéia do que elas são. E elas saíram assim, com características diversas do que é a banda Eddie, desde o início até os dias atuais e eu gostei disso!

Town Art - Em "Carnaval no Inferno" vocês contaram com vários parceiros conterrâneos seus, como Junio Barreto, Jorge Du Peixe e Lucio Maia, entre outros. Como foi contar com tais aliados para o desenvolvimento deste projeto?

Trummer/ Banda Eddie - É natural, são pessoas do nosso convívio e nesta hora, elas estão presentes para somar. São pessoas que admiramos muito.

Town Art - Já que estamos falando em parcerias, é bastante notável a união que existe entre os artistas recifenses e do Nordeste em geral, né!? Ao que você atribui tal característica?

Trummer/ Banda Eddie - Qualidade! Acho que é uma busca pelo novo, apontar outras direções musicais. Recife por estar fora do eixo fonográfico acaba guardando este caráter.

Town Art - Como foi a produção de "Carnaval no Inferno"? Qual foi o tempo de duração de sua elaboração, contando com todos os processos, desde composição das letras e gravação do CD em si? Como foi esta experiência para a banda Eddie?

Trummer/ Banda Eddie - Parei para escrever durante nossa tour européia, a partir de junho, e terminei a maior parte em novembro de 2007. Aí, começamos uma temporada de verão no nordeste onde juntamos a grana para gravar e em março de 2008 começamos a ensaiar e arranjar as músicas. Terminamos a gravação em agosto do ano passado, mix e master, e, em outubro, estávamos com as músicas prontas na mão. Enviamos o CD para fábrica e disponibilizamos na internet as músicas já em novembro e em dezembro, começamos a vender os discos nos shows. E em março de 2009, o álbum começou a ser distribuído para todo o Brasil.

Town Art - Ele foi produzido de forma totalmente independente, certo!? Como é para vocês, que ao mesmo tempo têm quase duas décadas de carreira, pertencer à cena independente? Quais as vantagens e desvantagens?

Trummer/ Banda Eddie - A desvantagem é não ter um apoio, imprensa, propaganda, clipe pagos por uma gravadora, ou melhor, em forma de adiantamento para a banda, ter este capital de giro para lançar o trabalho com mais infra-estrutura. A vantagem é ter controle sobre as vendas, quando se é dono do fonograma a margem de lucro é muito maior. Hoje, temos distribuidoras que são tão eficientes quanto as das grandes gravadoras e trabalham de forma independente. O valor final do produto é menor para quem compra o CD, vendemos os discos nos shows, temos o controle da liberação das músicas e isto também aumenta a nossa arrecadação. Além do mais, temos total controle sobre a liberdade criativa, dá um pouco mais de trabalho, mas por outro lado, muito mais grana. Se nos organizarmos também podemos ter um capital de giro e fazer uma certa divulgação nos lançamentos de nossos produtos.

Town Art - Aproveitando o gancho, quais as diferenças da cena musical hoje em relação a quando vocês começaram? Está melhor ou pior e por quê? Como é viver de música no Brasil, visto que atualmente o mercado fonográfico está em uma fase de turbulências e passando por um a reestruturação, que vem sendo sentida há pelo menos uma década, sendo que a cena alternativa acabou sendo uma das saídas encontradas pelos artistas brasileiros para produzir e divulgar o seu trabalho? Qual a opinião de vocês em relação a este assunto?

Trummer/ Banda Eddie - Acho hoje muito mais fácil! Em recife, por exemplo, temos um espaço conquistado, palcos durante todo o ano, leis de incentivo, mais estúdios de gravação e ensaio, além de mais opções de compra de equipamentos, reconhecimento do público e até da mídia, melhores equipes técnicas, aparelhagem de som, e empreendimento na área. A democratização da informação, possibilitada pela internet e as novas tecnologias, é aliado da melhoria de condições de trabalho e por conta destes a possibilidade de viver de cultura de maneira independente.

Town Art - Embora Recife tenha se sobressaído na cena musical brasileira, com o despontamento de vários ícones, como Nação Zumbi, Cordel do Fogo Encantado, entre tantos outros artistas talentosos, que vem sendo dia-a-dia revelados na cena do Norte e Nordeste para todo o País, como é trabalhar com arte, em especial, com música lá?

Trummer/ Banda Eddie - Trabalhar em Recife é uma delícia para mim, pois temos a matéria-prima, uma terra fértil em criatividade, que é o motor da produção de qualidade. Temos exemplos recentes e antigos de como fazer o trabalho, enxergar o certo e o errado, e com isso, conquistamos o apoio dos governos estadual e municipal, e elevamos a auto-estima do povo, através do trabalho com nossas raízes e nossas características próprias. Eu acho uma maravilha, mas tem quem ache que isto atrapalha! Enfim, convivemos harmonicamente com as diferenças.

Town Art - Cada vez mais, o público brasileiro vem se abrindo para novas e mais diversificadas propostas musicais, né!? Qual a visão de vocês em relação a este assunto e ao que atribuem tal fato?

Trummer/ Banda Eddie - Acho que isto se deve à fraca produção musical fora do Brasil e que perdurou por muitos anos. Desta maneira, o público cansado do mesmo, está procurando saídas e tem encontrado na produção cultural brasileira. A crise lá fora é um aliado nosso, as grandes indústrias do ramo não tem mais tanto dinheiro para aplicar em lavagem cerebral e impor seus produtos.

Town Art - Quais são as apostas de você que advém da atual cena alternativa brasileira?

Trummer/ Banda Eddie - Catarina de Jah, Cidadão Instigado, Tiê, Karina Buhr, Curumim, Eddie, China, Siba, Orquestra Contemporânea de Olinda...

Town Art - Agora, vocês estão empenhados na turnê de divulgação de "Carnaval no Inferno"? Qual vem sendo a receptividade do público em relação ao mesmo?

Trummer/ Banda Eddie - Das melhores, nunca trabalhamos tanto e tão rapidamente. As músicas novas estão na boca do nosso público. Ao mesmo tempo, o novo trabalho afirmou uma característica musical da banda Eddie e isto trouxe um reconhecimento da crítica ao nosso trabalho.

Town Art - Além da divulgação deste último trabalho de vocês, quais são as novidades para este ano? Algum plano em vista que vocês possam contar para a gente?

Trummer/ Banda Eddie - Adoraria gravar um DVD...

Mais informações (inclusive para fazer download do disco "Carnaval no Inferno"): http://www.sombarato.org/ ou www.myspace.com/bandaeddie.

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