Quem acompanha a cena alternativa brasileira já deve, ao menos, ter ouvido falar na banda Eddie, né não!? Pois então, o grupo, nascido em Olinda (PE), há cerca de duas décadas, recentemente lançou novo disco (o que talvez não seja novidade para alguns, principalmente, aos mais antenados nos recém-acontecimentos do circuito underground), que vem com um título bastante sugestivo: "Carnaval no Inferno". Produzido de forma independente, o quarto CD da carreira do quinteto é uma verdadeira obra-prima, em todos os sentidos, seja no quesito inovação ou mesmo no quesito criatividade.
Talvez, "Carnaval no Inferno" tenha sido o apogeu em termos de produção do grupo, ao longo destes 20 anos de estrada. Tanto que não é à toa, que o CD, desde quando caiu nas mãos do povo, com o lançamento oficial em março, vem sendo muito bem aceito, tanto pela crítica especializada, quanto pelo público. Afinal de contas, o grupo tem estofo suficiente e bagagem ainda maior para conquistar tal posição de destaque, aliado ao talento e maturidade de seus integrantes!
Velhos conhecidos da cena alternativa brasileira, os olindenses do Eddie, diga-se de passagem, sempre buscaram produzir algo diferenciado ao associar diversos estilos musicais às suas produções, que vai do reggae, samba, rock, ao frevo e música regional, provando que com destreza e inventividade é possível criar algo relevante, dentro deste "turbilhão" todo que concerne à cena musical brasileira. E em "Carnaval no Inferno" não foi diferente, claro, mas que veio de uma maneira diferente!
Tanto que uma das características mais marcantes do álbum talvez seja o de fazer, mesmo que intencionalmente (conforme afirmação do líder da banda Fábio Trummer, em entrevista exclusiva ao Blog "Town Art" e que pode ser conferida logo mais), uma espécie de retrospectiva da carreira da banda ao reunir o lado mais "energético" e mais introspectivo, ao mesmo tempo, dos três discos anteriores do grupo - "Sonic Mambo" (1998), "Original Olinda Style" (2003) e Metropolitano (2005).
Produzido por Trummer em parceria com Buguinha, "Carnaval no Inferno" compila onze faixas, abrilhantadas com participações de peso, como Junio Barreto, Jorge Du Peixe, Lucio Maia e Karina Buhr. Com uma diversidade de gêneros e uma boa dose de melancolia, porém de maneira dançante e despojada, o disco é o resultado de um trabalho dilatado, impressionista, meticuloso e rico, que retoma o latejo engenhoso de "Original Olinda Style" e sepulta de uma vez por todas (no bom sentido) seu último trabalho, "Metropolitano".
A banda, que passou por várias formações e atualmente é integrada por Fábio Trummer (no vocal e guitarra), Kiko Meira (na bateria), Rob Meira (no baixo), Alexandre Urêia (na percussão e backing vocal) e André Oliveira (no trompete, teclado e samplers), parece bem mais madura neste trabalho. O grupo cria em seu novo disco uma alegoria carnavalesca um tanto soturna, sem exageros à parte, no qual o deixou repleto de belos momentos. Quer saber mais detalhes de "Carnaval no Inferno" e mais umas coisinhas aqui e ali à respeito do Eddie? Então, leia a entrevista com o líder do quinteto, Trummer:
Town Art - Este é o quarto CD da carreira de vocês, certo!? No que ele difere dos trabalhos anteriores da banda?
Fábio Trummer/ Banda Eddie - Acho que a grande diferença para os trabalhos anteriores é a maturidade da banda, com o tempo e trabalho fica mais fácil de chegar perto das idéias musicais que temos na cabeça, mas sempre seguimos uma mesma direção, desde o primeiro trabalho ainda em fitas cassete.
Town Art - Por que vocês escolheram "Carnaval no Inferno" para nomear este disco? Como surgiu a idéia de intitular este trabalho de vocês?
Trummer/ Banda Eddie - O nome "Carnaval no Inferno" foi escolhido por ter a ver com a temática das letras deste trabalho, os extremos nos quais vivemos nos centros urbanos, da alegria à agonia. Enfim, são nomes carregados de simbolismo e significado e achávamos que isto iria ter um destaque na cabeça do nosso público.
Town Art - Nota-se que uma das principais marcas do trabalho da banda Eddie é a miscelânea musical, reflexo do conceito que o próprio manguebeat carrega desde os seus primórdios, que vão desde as influências de reggae, samba ao rock e frevo. Como vocês conseguem digerir e reunir com tanta destreza tais diversidades de estilo?
Trummer/ Banda Eddie - Pernambuco é um Estado que tem uma variedade grande de cultura. Em Recife e Olinda, nós convivemos com um cardápio de manifestações dos mais diversos e quando não se quer fazer uma música balizada pela indústria fonográfica, esta "ecleticidade" é uma opção boa para fazer o trabalho com originalidade e tentar fugir do que já foi feito. Temos o contato direto com a cultura popular e a cultura contemporânea estrangeira e brasileira, e procuramos usar o que nós gostamos destes mundos para fazer nossa música.
Town Art - Como nasceu o projeto da banda Eddie?
Trummer/ Banda Eddie - O Eddie nasceu para um Festival do Colégio Objetivo Norte/Nordeste. Mas a música foi tomando conta da minha vida até não dar mais para ignorar o fato e buscar me profissionalizar, tanto que tivemos quase uma dezena de pessoas em várias formações e a que se apresenta atualmente está junta há sete anos.
Town Art - As mudanças fazem parte da vida de qualquer ser humano, principalmente, no mundo em que vivemos atualmente, no qual a cada dia temos um "bombardeio de informações" e que estão constantemente em transformação. De que forma tal sistemática reflete no trabalho de vocês? Teve alguma alteração de foco ou mesmo de influências musicais, ao longo de todos estes anos de estrada?
Trummer/ Banda Eddie - Mudaram alguns membros. Na verdade, sou o único da primeira formação, acho este fato é normal, pois começamos ainda na escola, em 1989, e a musica era apenas um passatempo, tanto que hoje, grande parte das pessoas não é profissional da música. Além do mais, com o tempo podemos tomar rumos diferentes e é saudável a mudança de formação do grupo, visto que, musicalmente com o passar do tempo nos interessamos por outros universos gêneros e ritmos, e também conhecemos novas maneiras de trabalhar a musicalidade e isto acaba transformando o seu trabalho.
Town Art - Ah, e já que tocamos neste assunto, quais são as influências da banda e de que forma elas ecoam no trabalho de vocês?
Trummer/ Banda Eddie - Posso listar algumas bandas e músicos que influenciam a gente conscientemente. No início: The Stooges, Ramones, Pixies, Jorge Ben, Dinossaur Jr, Mundo Livre, além de hip hop e a linguagem cinematográfica de David Linch. Depois veio o jazz, bossa, reggae, afrobeat, mais cinema... e agora, música do Leste Europeu, Beirut, Carnaval, futebol, Chavela Vargas, Goran Bregovic... são muitas e não são só musicais, arquitetura, design, literatura etc...

Town Art - Este novo disco de vocês, podemos dizer que é uma espécie de retrospectiva da carreira da banda, passando pelo lado mais "energético" e o mais introspectivo do grupo, ao mesmo tempo, embora as canções sejam todas novas, certo!? Fale mais sobre isso.
Trummer/ Banda Eddie - Verdade, mas não foi intencional. Acho que conseguimos retratar o que é o Eddie, o tempo junto com esta formação e o trabalho contínuo no palco, as turnês, acabou dando esta característica ao CD. As composições novas não são pré-concebidas, elas saem e só depois é que temos uma idéia do que elas são. E elas saíram assim, com características diversas do que é a banda Eddie, desde o início até os dias atuais e eu gostei disso!
Town Art - Em "Carnaval no Inferno" vocês contaram com vários parceiros conterrâneos seus, como Junio Barreto, Jorge Du Peixe e Lucio Maia, entre outros. Como foi contar com tais aliados para o desenvolvimento deste projeto?
Trummer/ Banda Eddie - É natural, são pessoas do nosso convívio e nesta hora, elas estão presentes para somar. São pessoas que admiramos muito.
Town Art - Já que estamos falando em parcerias, é bastante notável a união que existe entre os artistas recifenses e do Nordeste em geral, né!? Ao que você atribui tal característica?
Trummer/ Banda Eddie - Qualidade! Acho que é uma busca pelo novo, apontar outras direções musicais. Recife por estar fora do eixo fonográfico acaba guardando este caráter.
Town Art - Como foi a produção de "Carnaval no Inferno"? Qual foi o tempo de duração de sua elaboração, contando com todos os processos, desde composição das letras e gravação do CD em si? Como foi esta experiência para a banda Eddie?
Trummer/ Banda Eddie - Parei para escrever durante nossa tour européia, a partir de junho, e terminei a maior parte em novembro de 2007. Aí, começamos uma temporada de verão no nordeste onde juntamos a grana para gravar e em março de 2008 começamos a ensaiar e arranjar as músicas. Terminamos a gravação em agosto do ano passado, mix e master, e, em outubro, estávamos com as músicas prontas na mão. Enviamos o CD para fábrica e disponibilizamos na internet as músicas já em novembro e em dezembro, começamos a vender os discos nos shows. E em março de 2009, o álbum começou a ser distribuído para todo o Brasil.
Town Art - Ele foi produzido de forma totalmente independente, certo!? Como é para vocês, que ao mesmo tempo têm quase duas décadas de carreira, pertencer à cena independente? Quais as vantagens e desvantagens?
Trummer/ Banda Eddie - A desvantagem é não ter um apoio, imprensa, propaganda, clipe pagos por uma gravadora, ou melhor, em forma de adiantamento para a banda, ter este capital de giro para lançar o trabalho com mais infra-estrutura. A vantagem é ter controle sobre as vendas, quando se é dono do fonograma a margem de lucro é muito maior. Hoje, temos distribuidoras que são tão eficientes quanto as das grandes gravadoras e trabalham de forma independente. O valor final do produto é menor para quem compra o CD, vendemos os discos nos shows, temos o controle da liberação das músicas e isto também aumenta a nossa arrecadação. Além do mais, temos total controle sobre a liberdade criativa, dá um pouco mais de trabalho, mas por outro lado, muito mais grana. Se nos organizarmos também podemos ter um capital de giro e fazer uma certa divulgação nos lançamentos de nossos produtos.
Town Art - Aproveitando o gancho, quais as diferenças da cena musical hoje em relação a quando vocês começaram? Está melhor ou pior e por quê? Como é viver de música no Brasil, visto que atualmente o mercado fonográfico está em uma fase de turbulências e passando por um a reestruturação, que vem sendo sentida há pelo menos uma década, sendo que a cena alternativa acabou sendo uma das saídas encontradas pelos artistas brasileiros para produzir e divulgar o seu trabalho? Qual a opinião de vocês em relação a este assunto?
Trummer/ Banda Eddie - Acho hoje muito mais fácil! Em recife, por exemplo, temos um espaço conquistado, palcos durante todo o ano, leis de incentivo, mais estúdios de gravação e ensaio, além de mais opções de compra de equipamentos, reconhecimento do público e até da mídia, melhores equipes técnicas, aparelhagem de som, e empreendimento na área. A democratização da informação, possibilitada pela internet e as novas tecnologias, é aliado da melhoria de condições de trabalho e por conta destes a possibilidade de viver de cultura de maneira independente.
Town Art - Embora Recife tenha se sobressaído na cena musical brasileira, com o despontamento de vários ícones, como Nação Zumbi, Cordel do Fogo Encantado, entre tantos outros artistas talentosos, que vem sendo dia-a-dia revelados na cena do Norte e Nordeste para todo o País, como é trabalhar com arte, em especial, com música lá?
Trummer/ Banda Eddie - Trabalhar em Recife é uma delícia para mim, pois temos a matéria-prima, uma terra fértil em criatividade, que é o motor da produção de qualidade. Temos exemplos recentes e antigos de como fazer o trabalho, enxergar o certo e o errado, e com isso, conquistamos o apoio dos governos estadual e municipal, e elevamos a auto-estima do povo, através do trabalho com nossas raízes e nossas características próprias. Eu acho uma maravilha, mas tem quem ache que isto atrapalha! Enfim, convivemos harmonicamente com as diferenças.
Town Art - Cada vez mais, o público brasileiro vem se abrindo para novas e mais diversificadas propostas musicais, né!? Qual a visão de vocês em relação a este assunto e ao que atribuem tal fato?
Trummer/ Banda Eddie - Acho que isto se deve à fraca produção musical fora do Brasil e que perdurou por muitos anos. Desta maneira, o público cansado do mesmo, está procurando saídas e tem encontrado na produção cultural brasileira. A crise lá fora é um aliado nosso, as grandes indústrias do ramo não tem mais tanto dinheiro para aplicar em lavagem cerebral e impor seus produtos.
Town Art - Quais são as apostas de você que advém da atual cena alternativa brasileira?
Trummer/ Banda Eddie - Catarina de Jah, Cidadão Instigado, Tiê, Karina Buhr, Curumim, Eddie, China, Siba, Orquestra Contemporânea de Olinda...
Town Art - Agora, vocês estão empenhados na turnê de divulgação de "Carnaval no Inferno"? Qual vem sendo a receptividade do público em relação ao mesmo?
Trummer/ Banda Eddie - Das melhores, nunca trabalhamos tanto e tão rapidamente. As músicas novas estão na boca do nosso público. Ao mesmo tempo, o novo trabalho afirmou uma característica musical da banda Eddie e isto trouxe um reconhecimento da crítica ao nosso trabalho.
Town Art - Além da divulgação deste último trabalho de vocês, quais são as novidades para este ano? Algum plano em vista que vocês possam contar para a gente?
Trummer/ Banda Eddie - Adoraria gravar um DVD...

Mais informações (inclusive para fazer download do disco "Carnaval no Inferno"): http://www.sombarato.org/ ou www.myspace.com/bandaeddie.
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