Enquanto a maioria dos artistas vem optando por se adequar (?) ao sistema vigente no mercado fonográfico atual, que parte do pressuposto o uso da tecnologia e digitalização do seu processo produtivo, outros dão vazão à onda nostálgica do resgate do famoso "bolachão". Um dos artistas brasileiros que aderiram ao revival do vinil (assunto, aliás, que tem sido palco de discussões por parte de profissionais e especialistas da área) são os mineiros do Fungos Funk, que recentemente lançaram, pelo selo Vinyl Land, novo trabalho, homônimo, em LP 7".
Produzido por Kuaker, o "Fungos Funk", o quarto trabalho de estúdio do quinteto, compila três faixas apenas - "Pica-Fumo", "Tudo Que Eu Quero" e "Evem o Trem". E fortalece ainda mais a textura "old school" incorporada pelos músicos (Zebu no vocal, Pow no vocal, JC no baixo, Criolo na guitarra e Bizorro na bateria) em suas criações desde os seus primórdios. Sem deixar de lado, claro, o viés no qual o mercado caminha atualmente, o Fungos Funk Freak Family, como é nomeada pelos seus membros, optou em lançar o LP em formato digital, também, e que está disponível para download no site da banda (http://www.fungosfunk.com.br/) e/ou no Trama Virtual (www.tramavirtual.com.br/fungos_funk).
No entanto, o álbum é o resultado de um trabalho sofisticado e que representa muito mais do que tal gênero musical, por agregar em suas canções outros estilos, como rock, rap e reggae, resultando no chamado funk-core. Aliás, o disco pode ser considerado a essência do quinteto ao mostrar vários ritmos, misturados daquele famoso "jeitinho brasileiro". Com a proposta de romper com a mesmice e fazer música de verdade, com atitude, seriedade, respeito e sentimento, criando um estilo próprio no mercado, parece que o grupo vem conseguindo tal diferencial e o exemplo nítido, sem sombra de dúvidas, está neste disco.
Fundada no ano de 1999, na cidade mineira de Juiz de Fora, a banda mostra o poderio e o verdadeiro efeito avassalador (no bom sentido, óbvio) que seu som pode gerar em nossos ouvidos, sem o ouvinte ter que seguir ou não um dos estilos unidos em suas criações. Ao misturar o groove dançante e frenético com o hard-core cru, o Fungos Funk cria canções graves, cheio de suingue e super-divertidas, que já foram levadas a diversos festivais de música e casas de shows do País. Tudo em respeito e admiração por algo maior: a música.

Com uma discografia razoável, em termos de quantidade, o Fungos Funk conta com quatro registros fonográficos, entre CD, EP ou vinil. O primeiro registro do grupo aconteceu em 1999, com a gravação de uma demo. Já o lançamento do primeiro disco aconteceu somente alguns anos depois, em 2003, cujo título é "Zica" e produção é de Emmerson Nogueira. Em 2006, o quinteto lançou apenas uma faixa e só na net, chamada "Ou, Ou, Ou". Em entrevista exclusiva ao Blog "Town Art", o baterista Bizorro conta curiosidades da história dos músicos, detalhes deste novo trabalho e outras coisinhas mais... leia aí:
Town Art - O Fungos Funk é mais um filho da cena alternativa mineira. Como nasceu este projeto? E desde quando a banda foi fundada, quais foram as mudanças promovidas na banda?
Bizorro/ Fungos Funk - Bom, o Fungos Funk foi fundado em 1999, em Juiz de Fora (MG), como resultado da junção de integrantes de duas extintas bandas locais, que sempre trabalhavam juntas. Naquele momento, acabou ficando quem realmente queria levar o negócio a sério. Daí formamos o Fungos Funk Freak Family. De lá pra cá, nesses dez anos de estrada, estamos há quatro anos morando em São Paulo. Neste período tivemos a mudança do guitarrista e depois do baixista. Mais tarde, tivemos a saída do DJ Niggas e ficamos com a formação de um quinteto, que é o molde atual, com Pow na voz, Zebu também na voz, Bizorro na bateria, JG I no baixo e Criolo na guitarra.
Town Art - É notório o crescimento e projeção da cena musical mineira de uns anos para cá, com o despontamento cada vez maior de músicos e/ou artistas oriundos desta região, assim como de outras partes do País, né!? Ao que vocês atribuem tal fato? E me conta um pouco como vem se conduzindo este processo em Minas.
Bizorro/ Fungos Funk - Minas Gerais é um estado com uma veia musical muito forte. Sempre tivemos grandes músicos, bandas e artistas lá. Apesar do pouco espaço e visibilidade no estado em si, sempre tivemos guerreiros, que batalharam para criar o espaço em suas cidades e formar um movimento local. Bem como em Uberlândia, onde temos o Jambolada; em Juiz de Fora, onde tínhamos o Acorde; em BH, onde temos vários movimentos, etc. Enfim, acredito que esse crescimento na área musical do estado está como no restante do País, ou seja, uma galera boa, que batalha pelo próprio espaço de forma profissional e séria. Com isso, temos esse resultado, graças a essas bandas e cabeças pensantes!
Town Art - De um tempo pra cá, surgiu um movimento "nostálgico" de resgate do LP, não apenas no Brasil, mas em diversos outros países. Tanto que inúmeros artistas brasileiros têm optado em lançar suas criações apenas neste formato, quando não, no mais usual, o do CD, junto com o famoso "bolachão". Seguindo esta linha de raciocínio: por que vocês integraram este movimento e optaram lançar seu mais recente trabalho desta maneira?
Bizorro/ Fungos Funk - Na verdade, há um bom tempo nenhum artista lança vinil com fabricação aqui no País, pelo fato da única fábrica que tínhamos estar fechada há mais de dois anos. Nesse período, todos que lançaram algum trabalho em vinil tiveram que buscar fazê-lo fora do Brasil. Quando fomos gravar essas novas músicas, conhecemos o Kuaker (produtor do disco) pela internet e a afinidade foi imediata. Íamos fazer uma demo, com o registro de uns sons novos nossos, mas como o resultado foi muito bom e surpreendeu tanto a nós, quanto a ele mesmo, então, resolvemos lançar esse material de alguma forma. Como não era um disco cheio por serem apenas três músicas, começamos a pensar em como fazê-lo. Sempre tivemos o sonho em ter nossas músicas em um disco de vinil, ainda mais hoje, em um mundo onde a música sai do computador sem você saber e nem querer, às vezes, está no dia-a-dia como uma coisa qualquer. Não temos aquele ritual de se ouvir uma música, tem que pegar o disco, colocar a agulha e sentir o som. Depois do silêncio, virar o disco novamente e continuar a ouvi-lo. Essa coisa lúdica da coisa, entende!? Então, começamos a pesquisar em ter o disco em formato de um EP. Conhecemos o pessoal do selo inglês Vinyl Land e viabilizamos o projeto com eles. O diferencial é que lançamos exclusivamente em vinil, não fizemos CD. Isso já não acontece por aqui sabe se lá há quantos anos. E disponibilizamos na net também, em formato digital, para suprir essa fatia do mercado!
Town Art - Alguns formadores de opinião já especulam que está havendo um revival do vinil, por considerarem que ele pode até a voltar a "dominar" o mercado atual. Vocês acreditam nisso ou que é um exagero?
Bizorro/ Fungos Funk - É difícil afirmar que os compactos vão dominar o mercado. Acho que dominar não, pois o formato digital não será tão fácil assim superado. Mas acho que o CD sim, este pode ser superado pelo vinil, mas os formatos em MP3 e etc, isso acho que só irá evoluir. Mas, com certeza, está voltando com força total. Na verdade, em diversos países nunca se perdeu essa cultura, porém, hoje em dia, está cada vez mais forte. Até mesmo pelo fato deste revival em que sempre vivemos, de a cada dez anos, termos um retorno das influências dos anos anteriores, muitas pessoas nunca tiveram contato com o vinil e querem tê-lo. A expectativa é muito grande em torno disso tudo, no entanto, estamos tendo uma volta extremamente positiva nesse sentido! Aliás, todos ficam surpresos quando vêem nosso novo trabalho em um vinil 7".
Town Art - Vocês contam com as mais diversas influências musicais, passando pelo rock, funk, groove, rap, MPB, etc. De que forma elas foram trabalhadas neste disco e se reflete no mesmo?
Bizorro/ Fungos Funk - Temos todas essas influências e ainda muitas outras. São tantas que preferimos citar estilos musicas ao invés de bandas ou artistas. Atualmente, fazemos exatamente o som que sempre quisemos e por motivos diversos não tínhamos conseguido realizar ainda. O bom e velho "funk core" dos Anos 90. Essa é a nossa maior influência, a década de 90, o Funk Metal daquela época, o Rap-Core, o Hard Core de Nova York, da Califórnia e de Crossover, o Trash Metal, Gangsta Rap, etc. Nossas veias no groove e no peso são as características mais fortes na banda. Nesse disco já se percebe bastante isso. No próximo, então, talvez fique mais nítido, estaremos mostrando ainda mais essa nossa fase, o que já vem acontecendo nos shows.
Town Art - Qual foi a temática principal deste EP? Do que ele fala e como surgiu a idéia de focar os trabalhos deste disco em tal assunto?
Bizorro/ Fungos Funk - Bom, nossa preocupação principal era mostrar a fase atual do nosso trabalho, o som que estávamos fazendo e o momento em que vivemos. Não houve um tema específico. No disco tratamos de vários assuntos, como o avanço e domínio da tecnologia em relação ao mundo e em nós, seres humanos, tipo "Pica-Fumo". Falamos de metas, objetivos, esforço e superação, em "Tudo Que Eu Quero". E por fim também falamos sobre o mesmo assunto, meio que para nós mesmos, quando mudamos de Minas para São Paulo, em "Evém O Trem". Essa última entra como bônus no disco por ser uma música mais antiga nossa.

Town Art - O mercado fonográfico brasileiro anda bem mais aberto para os mais diversos estilos musicais do que há alguns anos. Como vocês encaram tal fato e aproveitam este curso para divulgar os seus trabalhos, visto que até uns anos atrás ele era bastante tendencioso e dava abertura a certos tipos de artistas, de acordo com o que se buscava em determinado período? Como vocês avaliam tal fato, mudou, continua o mesmo ou mudou? E por quê?
Bizorro/ Fungos Funk - Com certeza o mercado está mais aberto no sentido em que qualquer banda poder fazer seu trabalho, sem depender de nenhuma gravadora ou multinacional, como era o que acontecia antigamente. Isso cria essa abertura no sentido da banda conseguir atingir seu público onde quer que esteja, mesmo sem nunca ter tocado no local. É muito mais vantajoso hoje em dia, pois a banda é dona de seu próprio escritório e tem a possibilidade de fazer seu próprio trabalho, sem depender de ninguém maioral. Claro, isso se a banda for estruturada para tal dever, o que não é fácil!
Town Art - Aproveitando que estamos falando de mercado musical brasileiro, como vocês o avaliam hoje? Muitos dizem que está mais fácil do que há alguns anos, para outros, mais difícil, principalmente quando se pensa em termos de qualidade, e vocês o que pensam a respeito disso?
Bizorro/ Fungos Funk - Em termos de qualidade acredito que todos já estão ficando de "saco cheio" do que estamos vendo por aí. Toda essa coisa superficial e igual no qual se observa. Tudo montado e maquiado, estrategicamente desarrumado, sabe?! Enfim, acho que está mais fácil no sentido em que falei antes, de você poder trabalhar, sem depender de ninguém e poder fazer um "trampo" tão bem feito e profissional quanto o de uma "banda grande", respaldada por uma grande gravadora. A parte difícil se deve ao fato de, como sempre, muitos são obrigados a ouvir apenas a música da vez e o que toca na rádio ou na TV e com isso, acabam não tendo conhecimento de outros artistas. Mas as coisas sempre foram assim: a imposição da mídia. Nossa proposta é justamente romper essa mesmice e fazer música de verdade, com atitude, seriedade, respeito e sentimento, criando nosso próprio mercado.
Town Art - Como vocês pretendem divulgar o novo EP da banda? Eles já estão disponíveis ao público ou não? Caso sim, desde quando, e caso não, quando pretendem fazê-lo e de que maneira?
Bizorro/ Fungos Funk - Sim, já está disponível. O lançamento aqui em São Paulo foi dia 16 de maio, no Sesc Pompéia. Já a distribuição no Brasil será feita pela Fonomatic/Tratore, sendo que os discos já estão chegando nas lojas de todo o País. Além disso, vendemos na net também, em todos os veículos de vendas on line etc. Nos shows sempre temos nossa loja com todos os produtos à venda. Quem quiser também, enviamos o álbum via correio, é só entrar em contato conosco por e-mail.
Town Art - Em tempos do "movimento hype" na cena musical mundial, como vocês avaliam o fato e de que forma buscando trabalhar favoravelmente ao Fungos Funk tal tendência?
Bizorro/ Fungos Funk - Na verdade, a gente nunca seguiu o que está na "crista da onda". Simplesmente temos nosso estilo e nossas características e fazemos destes a nossa música. Nosso som é totalmente Anos 90, se isso estiver incluso ao que está "na onda", a gente está, se não... queremos voltar com esse som no Brasil e estamos sendo pioneiros nessa volta, já há 10 anos... (risos) sabemos que alguém tem que suprir essa carência e é aí que a gente entra.
Town Art - A cena musical brasileira é conhecida no mundo inteiro por conter artistas talentosos e que produzem um trabalho de qualidade e inovador. Ao que vocês creditam tal fato e da cena atual, em quais artistas e ou bandas vocês apostam suas fichas?
Bizorro/ Fungos Funk - Que o Brasil sempre teve excelentes músicos e bandas, todos já sabem! E fora do País temos um reconhecimento muito grande nesse sentido. E é merecido, pois realmente é verdade! São muitas bandas boas no Brasil, fica difícil falar de alguma assim. Gostamos de muitas bandas e somos parceiros de várias e para falar aqui fica quase impossível. Podemos citar Zeferina Bomba, Valverdes, LaRaza, Mó-H, Madame Saatan, Decore, Coyotes California, Questions, Rama Ruana, Expanded Nose, Estrume'n'tal, enfim, é muita gente. Acho que apostar a ficha não é o caso, são bandas que agente curte e respeita pelo "trampo", são apenas algumas dentre milhares delas...
Town Art - Quais são as maiores influências do Fungos Funk e de que forma, vocês conseguem agregar o gosto pessoal de cada integrante da banda em suas criações, o que é natural cada um ter seu gosto particular, embora existam convergências, né!?
Bizorro/ Fungos Funk - Sempre trabalhamos muito, naturalmente neste sentido! A música para nós sempre foi muito fácil e espontânea de se fazer. Sempre fluiu entre os componentes do Fungos Funk.
Nossas influências são os Anos 90, basicamente o funk 70', rock, rap, reggae, ragga, tudo isso e muito mais, mesmo que nem todas apareçam no nosso som. Citando algumas bandas temos Suicital Tendencies, Infectiuous Groove, Biohazard, Really Adictive Soud, Boo Ya tribe, Sweet Lizard Ilted, NOFX, Wu Tang Clan, etc...
Town Art - Cada vez mais, a produção artística está mais abrangente e ampla e, aliás, isso é uma tendência nos dias atuais, né!? Vocês buscam e sempre buscaram tal caminho, né não?!
Bizorro/ Fungos Funk - Sempre buscamos, tanto que constantemente nos vemos envolvidos em produções, tanto da banda, quanto em shows, festivais, etc. Acho fundamental que toda banda tenha esse corre. Quando morávamos em Juiz de Fora, éramos organizadores de um festival lá e também de diversos shows. Aqui em São Paulo sempre buscamos fazer essa produção por nossa conta dos shows do Fungos Funk também. O crescimento desse mercado no País tem sido muito grande, mas ainda pecamos com a inexperiência e falta de profissionalismo de diversos organizadores. Qualquer um acha é pode meter um evento ou um show e não é bem assim. E o mesmo na parte de produção musical e si.
Town Art - Além de estarem trabalhando na divulgação do novo LP do grupo, quais são os projetos futuros, se é que podem ser mencionados?
Bizorro/ Fungos Funk - Acabamos de lançar o EP e também o videoclipe da música "Tudo Que eu Quero". Estamos com a tour para divulgar esse trabalho. O próximo álbum já está composto e até o final do ano estará gravado, dessa vez um LP cheio! Nossa proposta é não trabalhar mais com CD e apenas em EP ou LP ou formato digital na net. Outro projeto extremamente importante para nós e que estamos nos dedicando muito é chamado de Groove Family. Uma família entre as bandas Fungos Funk, LaRaza e Mó-H. Já gravamos uma faixa e um vídeo e já já todos estarão conhecendo. Nessa história outras bandas também estarão somando e a idéia é ter uma Crew do Groove com shows e músicas juntos, enfim, a tudo o que temos direito. O nosso objetivo é resgatar o verdadeiro som de peso, groove, união e atitude que está em falta no País.
Town Art - Só para finalizar: qual a mensagem que vocês dão aos grupos e artistas que estão começando?
Bizorro/ Fungos Funk - Nesses dez anos de banda deu para aprender muita coisa. Acho que o importante para se ter um trabalho consistente e de qualidade é trabalhar com profissionalismo e seriedade. Enfrentar os obstáculos e ter garra para alcançar os objetivos. Humildade e amor pela música também!
Ah, e podem esperar, pois, em breve, volto com muito maaaais... aliás, só para deixá-los com "água-na-boca" (hehehe): contarei detalhes sobre os novos discos de um dos grandes expoentes da cena indie paulistana do final dos Anos 90, os Pullovers, e da cantora e compositora Stela Campos e etc... etc... etc...
Bom, por enquanto é só... fuiiiiiii.... até mais!!!
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