
No que depender dos integrantes do Supercordas, 2009 deve ser promissor! O grupo já começou o ano na labuta, com participação no Festival Humaitá Pra Peixe, realizado de 09 a 11/01, no Rio de Janeiro, e em seguida, deu uma palinha em terras paulistanas, ao integrar a programação do Festival Alavanca, realizado no final de semana passado (16, 17 e 18/01), no Centro Cultural São Paulo.
Em meio a esta rotina de shows, a banda dispõe uma parte de seu tempo para se dedicar à produção do novo disco, o terceiro do quinteto. Sem nome definido ainda, o grupo vem se empenhando na gravação de seu próximo álbum de trabalho, cujo processo deve ser finalizado em dois ou três meses. A previsão da banda é de que este CD seja lançado ainda neste primeiro semestre.
Com um trabalho diferenciado, resultado da junção de vários estilos musicais, que vai do psicodelismo de Pink Floyd e dos Mutantes (gênero, aliás, que é predominante em suas canções) a MPB dos mineiros Milton Nascimento e Lô Borges e de Zé Ramalho, o grupo traz em suas criações ainda influências do experimentalismo de Kraut Alemão, Stockhausen e Acid Mother's Temple.
Fundado em 2003, o Supercordas hoje é composta por Pedro Bonifrate (vocal e guitarra), Diogo Valentino (vocal e baixo), Filipe Giraknob (guitarra e efeitos), Kauê Ravaneda (guitarra) e Digital Ameríndio (bateria). Entre correria daqui e pausa dali, o grupo há algum tempo despontou na cena musical e já começa a "colher os louros" de seu trabalho, com aparições por palcos Brasil afora, inclusive, na edição do ano passado do Festival Planeta Terra.
Mas como na vida nada é fácil e jamais se pode dar-se por vitorioso, a labuta continua, claro! O grupo prossegue em sua batalha, com bastante pé no chão, afinal de contas, a escolha é convicta: os seus integrantes pretendem viver de seu trabalho, mas sem romantismo! E para saber sobre o novo disco do Supercordas, seus planos para 2009 e outras curiosidades, Town Art entrevistou um de seus integrantes, o músico Pedro Bonifrate. Leia aí:
Town Art - Como foi os primórdios do Supercordas? E de onde surgiu o nome que denomina a banda?
Pedro Bonifrate/ Supercordas - A banda foi fundada em 2003, como um trio. Na época, eu, o Diogo Valentino e o Regis Arguelles compúnhamos o Supercordas, sem bateria humana, mas, logo vimos, que precisávamos nos expandir. O nome faz referência a uma teoria física, que propõe que toda a matéria do universo seja gerada pela vibração de cordas unidimensionais, como em uma grande orquestra cósmica.
Town Art - Desde quando o grupo foi criado, vocês passaram por algumas mudanças, inclusive, na sua formação!? Como vocês lidam com elas?
Bonifrate/ Supercordas - Entre entradas e saídas, tocamos com, pelo menos, quatro formações diferentes. Hoje, temos, além dos fundadores Bonifrate e Valentino, os guitarristas Filipe Giraknob e Kauê Ravaneda, e o baterista Digital Ameríndio. As transformações são quase sempre necessárias para a boa viagem da nossa grande nave psicodélica, através das ondas sonoras. Acho que nosso trabalho só cresceu desde que o grupo começou, tanto musicalmente, como em termos de público e de exposição. A tendência é continuar crescendo...
Town Art - Como é pertencer à cena independente? Qual a saída encontrada pelos membros do Supercordas para conseguir prosseguir sua carreira musical?
Bonifrate/ Supercordas - Não estou certo sobre a existência de uma "cena independente" nos dias de hoje e muito menos sobre se tratar de um nicho. O que antes poderia ser uma cena, atualmente, me parece ser um conjunto de movimentos fragmentados e esquizofrênicos, apesar de amplos e numerosos, com algumas tendências lá e cá, mas ainda muito desbaratadas. A facilidade com que se faz e se distribui música hoje está para mudar completamente o modo como essa coisa toda funciona, e é difícil ainda sobreviver com música neste meio. Talvez muitas bandas estejam encontrando essa tal saída, mas eu diria que nós ainda estamos procurando.
Town Art - Quais as vantagens e desvantagens de pertencer ao underground?
Bonifrate/ Supercordas - Bom, acho que o mundo underground cresceu tanto, que fica difícil falarmos num mundo que não seja underground. Tem um pessoal por aí que ainda ganha rios de dinheiro com música, recebe gordos orçamentos para gravar discos, tem contratos com as chamadas "grandes gravadoras", joga a televisão do hotel pela janela, mas quem são eles mesmo? Todos me parecem musicalmente irrelevantes. O poder da música brasileira, hoje, sofre um certo abatimento com a falta de unidade e com o relativo anonimato dos nossos maiores letristas, compositores e músicos, mas isso não quer dizer que não existam, mesmo que não sejam apontados ou percebidos por toda essa cultura midiática-industrial idiotista e viciosa, que devíamos sentir orgulho de abandonar completamente. É preciso de alguma forma eliminar esses intermediários, chegar diretamente ao público, que, também, precisa se libertar dessa existência massificada no qual lhe é imposta. Muita gente tem conseguido chegar diretamente ao público de algum jeito, ao que parece. Mas no geral, ainda estamos virando uma curva e o que vem depois é imponderável.
Town Art - Todos da banda vivem somente da música, seja direta, seja indiretamente, ou pela dificuldade que é viver de arte no Brasil, desenvolvem outras atividades profissionais, além do Supercordas?
Bonifrate/ Supercordas - Desenvolvemos outras atividades sim. Eu faço pós-graduação em História Moderna, o Ameríndio em Psicologia, o Valentino trabalha com som, o Giraknob com divulgação de eventos e o Kauê está se formando em jornalismo. Além disso, agora estamos com nosso "Musgo Estúdio", aqui no Rio, que funciona tanto comercialmente para gravações e ensaios, quanto como um grande laboratório experimental para nós mesmos e outras bandas mais chegadas. O grupo não deixa de ser uma prioridade para todos nós, mas acaba tendo seus limites, principalmente de tempo, por causa das outras atividades que temos que tocar para frente. Ao invés de ficar reclamando que é difícil sobreviver como uma banda independente, o melhor é ir levando tudo com o máximo possível de disposição e humanidade.

Town Art - De uns anos para cá, o Supercordas tem sido escalado para participar de vários festivais grandes do País, entre eles, o Calango, Bananada, Coquetel Molotov e o mega-festival Planeta Terra, entre outros, né!? Como foi para o grupo fazer parte destes eventos? Quais os pontos positivos e negativos do papel assumido por este tipo de evento para a vida dos artistas e grupos brasileiros?
Bonifrate/ Supercordas - O ponto positivo vem justamente do fato de que muitos desses festivais são o caminho mais viável de comunicação com o público, e para nós sempre foram experiências fantásticas. Acabamos conhecendo lugares, pessoas e forças ocultas que talvez não conhecêssemos se não fôssemos o Supercordas. Pode-se dizer que, andamos por aí a conhecer um Brasil, ao nosso próprio modo, entre memórias vívidas e seqüelas das noitadas, e isso é impagável. Em alguns casos, nos festivais, ainda há muito a progredir no suporte aos artistas e na organização em geral, mas isso tem melhorado bastante nos últimos anos.
Town Art - E já que estamos falando desde assunto, quero aproveitar e saber de vocês qual a importância dos festivais de música para a carreira dos zilhões de músicos e bandas brasileiras? Aliás, este tipo de evento tem gerado diversas controvérsias e polêmicas no que tange a sua estrutura e sistema aplicado dentro deles, seja na seleção dos artistas que os integram, seja na viabilidade oferecida a eles, seja na existência ou não de uma máfia na administração dos mesmos etc. Enfim, qual a opinião de vocês em relação a este assunto? O que vocês têm a dizer sobre isso?
Bonifrate/ Supercordas - Acho que essas iniciativas estão crescendo e, como tudo que se vê enquanto "mercado", existe aqui e ali uma tendência a formar máfias, seja num sentido de corrupção ou da organização viciosa de "panelinhas". Mas a maioria ainda está na outra margem do rio, felizmente. Os festivais são importantes para os artistas, mas talvez não seja a principal resposta para a subsistência dos independentes. Dão visibilidade, porém não dão estabilidade. Uma banda não consegue se sustentar só tocando em festivais, tem que andar com as próprias pernas e otimizar o número de shows. Claro que a visibilidade e os convites para tocar estão estreitamente relacionados.
Town Art - Em específico, qual a importância que os festivais exercem e exerceram na carreira do Supercordas? Afinal de contas, é um fato incontestável de que este tipo de evento é uma porta para muitas bandas apresentaram o seu trabalho a um número maior de pessoas e com isso, propagá-lo de maneira mais ampla, né!? Imagino que tenha acontecido o mesmo com vocês, né não!?
Bonifrate/ Supercordas - Sim. Como eu disse, todos os festivais em que tocamos foram experiências incríveis e talvez a melhor forma de espalhar nossa música pelo País.
Town Art - Bom, agora, vamos falar um pouco do trabalho de vocês, né!? (risos) O trabalho do Supercordas é marcado pela mistura de estilos, com a predominância, claro, do rock'n'roll, principalmente dos Anos 60 e 70, agregado a outros subprodutos do gênero mor que rege a produção da banda, certo!? De qual fonte o grupo bebeu e que resultou nesta linha de trabalho?
Bonifrate/ Supercordas - Realmente não sei se é por aí. Não sei se predomina o rock'n'roll. Temos um pé "afundadíssimo" nele, mas muito do que fazemos está além, em termos rítmicos e harmônicos. O próprio termo rock'n'roll já não me parece poder indicar nada específico em relação a música, talvez pela própria diversidade da categoria. Sei, sim, que nossa música é uma tentativa de síntese de duas grandes tradições, que não necessariamente andaram separadas nas últimas décadas. Uma é a da canção brasileira, que se modifica e se enriquece com o contato com outras tradições cancionistas, e a outra é a da música que incorpora os timbres e as cores dos sons, não apenas as concepções clássicas de harmonia, ritmo e melodia. Mas sim, ouvimos muito rock sessentista e setentista, gringo ou brasileiro, são grandes inspirações as obras psicodélicas do Pink Floyd, do Beach Boys, dos Mutantes, do Clube da Esquina, de Lula Côrtes e Zé Ramalho; mas, também, as mais recentes, de bandas e artistas como Spiritualized, Super Furry Animals, Beck, Flaming Lips, Olivia Tremor Control. Sem falar na música mais direcionada à experimentação, seja Kraut alemão, Stockhausen ou Acid Mother's Temple; e hoje em dia, acho que somos mais influenciados do que nunca pelos artistas que nos rodeiam, então não posso deixar falar n'Os Telepatas, Stan Molina & O Departamento Celeste, Filme, Teclas Pretas, Lulina, Cérebro Eletrônico, Acessórios Essenciais e muitas outras, que certamente estou me esquecendo de citar.
Town Art - Até agora, vocês contam com alguns discos gravados. Como foi a produção destes trabalhos? E em relação ao novo disco, no que ele vai se assemelhar ou se diferir destes anteriores?
Bonifrate/ Supercordas - Na verdade, o nosso material gravado é composto por dois EP's, um LP "Seres Verdes ao Redor" (2006), o single "Ruradélica" (2006) e o mais recente, "Mágica" (2008). Os dois primeiros EP's "A Pior das Alergias" (2003) e "Satélites no Bar" (2005) são caseiros, gravados com um porta-estúdio magnético de quatro canais. O primeiro LP "Seres Verdes ao Redor", já tem uma produção um pouco mais elaborada, as baterias e algumas outras coisas foram gravados nos estúdios da Trama, em São Paulo, e finalizamos em casa com um pouco mais de recurso que os anteriores, mas não tanto assim, também! Foi mixado nas duas caixas do meu som Aiko dos Anos 80, com microfones e amplificadores, que deixavam bastante a desejar. Esse novo vai ser na certa um passo a frente, tendo nosso próprio estúdio para trabalhar, o "Musgo", sem grandes limites de tempo e grana e tudo mais. Além disso, a atmosfera e a temática desse novo álbum vão ser bem diferentes do primeiro. Vai ser mais elétrico, mais dinâmico, mais esquizofrênico.
Town Art - Aliás, vocês pretendem lançar este novo disco do Supercordas no 1º Semestre de 2009, né?! No momento, em que pé anda a produção deste álbum?
Bonifrate/ Supercordas - Sim, é a idéia. Estamos ainda começando a gravar e o plano é que esteja todo gravado nos próximos dois ou três meses.
Town Art - Como vem sendo para vocês, após quase dois anos sem gravar novo trabalho, produzir este novo CD?
Bonifrate/ Supercordas - Dois anos, para nossa média, é muito tempo de intervalo entre um álbum e outro. Talvez o fato de termos uma banda a sério e a necessidade de se produzir com mais sofisticação, tenha derrubado um pouco nosso ímpeto criador mais quantitativo, que talvez fosse mais forte antes dos tempos de Supercordas. No entanto, no fim acho que vai valer a pena. Vai ser uma grande epopéia sônica, muito bem pensada e conceitualizada. Além do mais, pretendemos começar a gravar outro, pouco depois de terminar esse, para compensar esse tempo todo sem lançamentos. Quem sabe não terminamos outro disco até o fim de 2009?
Town Art - E já que estamos falando de produção de discos, como funciona este processo no grupo?
Bonifrate/ Supercordas - Todos têm participação ativa, disposta de forma nada hierárquica. É claro que eu componho a maioria das canções, então, existem estruturas iniciais a serem respeitadas, pelo menos a princípio. E o Valentino é quem manja mais de engenharia sonora, então, cuida mais dessa parte. Mas todos palpitam, discutem, dão idéias e reclamam se não gostam de alguma coisa.
Town Art - Neste novo disco, o Supercordas pretende seguir a mesma linha de inspiração, em termos de temática das canções, ou não?
Bonifrate/ Supercordas - Falam rigorosamente sobre qualquer coisa. Gosto de pensar que somos expedicionários musicais. Gostamos de fazer discos que experimentem temas e atmosferas distintas, cada um decorre de uma nova exploração lírica e musical. O "Seres Verdes" foi um reconhecimento do que existe de humano nos vegetais e na vida inerte do mundo rural, esse novo deve ser mais aberto tematicamente. Falamos do que existe de humano num elefante, do declínio da mídia magnética, da vida sobre um planeta, que é de fato, um grande ímã, e do apocalipse eminente.
Town Art - Além do lançamento do disco novo da banda, quais são os planos futuros do Supercordas para 2009?
Bonifrate/ Supercordas - Estamos nos programando para tocar bastante em lugares legais, como Sescs, teatros, etc. Começamos bem o ano, com o Festival Humaitá Pra Peixe, realizado aqui no Rio; depois seguimos com o Festival da Alavanca, que aconteceu no Centro Cultural São Paulo (CCSP), em São Paulo. E, quem sabe, gravar o tal terceiro álbum.
Town Art - Qual a dica que vocês dão para os que estão começando hoje?
Bonifrate/ Supercordas - Não sei se temos propriedade para dar dicas, pois nós sempre escolhemos trilhar os caminhos mais difíceis. Poderíamos ser uma banda de electro com batida eletrônica e uma guitarra, o que tornaria muito mais fácil e barato viajar, ou cantar sobre sexo sujo em inglês e nos vestirmos como modelos de Nova York, ou mesmo alisar os cabelos e cantar sobre ser um jovem amoroso e carente, mas não dá, né?! Temos que ser nós mesmos. Dizer que as bandas devem encontrar uma identidade própria e criativa pode ser uma boa dica, mas talvez seja vazia se o que se quer é fazer muito sucesso e viver de música e ganhar capas de revistas. Nós ainda acreditamos que algum reconhecimento, mesmo futuro, mesmo que pouco dilatado, porém intenso, vai valer a pena termos criado, nada mais, nada menos, do que aquilo que escolhemos criar.

Mais informações sobre o Supercordas?
Acessem: http://www.supercordas.com/ ou www.myspace.com/supercordas

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