Dynamite

Entries for month: September 2008

"Ensaio sobre a cegueira": um verdadeiro "chute no estômago"

1 Comentário »

 

Um dos filmes brasileiros mais comentados nos últimos tempos "Ensaio sobre a cegueira", o quinto de Fernando Meirelles, comprova mais uma vez o talento do diretor brasileiro e se revela uma verdadeira obra-prima, em todos os aspectos. Se com "Cidade de Deus", o diretor apresentou um cinema totalmente inovador para o Brasil e o mundo, principalmente pela forte carga visual e de realismo inaugurada na película, com este filme, ele demonstrou a sua já tão sabida maturidade e intimidade diante das câmeras. O filme, que entrou em cartaz nas principais salas de cinema da cidade, na última sexta-feira (12/09), vem com o olhar diferenciado que o cineasta tem do mundo atual, cuja fórmula vem sendo "imitada", ou mesmo "servindo de inspiração" para muitos de seus sucessores, sejam eles conterrâneos, sejam eles estrangeiros.

"Ensaio sobre a cegueira", obra homônima de um dos maiores clássicos de José Saramago, vale-se da crueza das cores como forma de aproximar o espectador à obra do escritor português, diferentemente do recurso utilizado em "Cidade de Deus" e em "O Jardineiro Fiel", onde as cores são expostas ao máximo. Associado a este artifício cinematográfico, para exacerbá-lo ainda mais, o cineasta usa ainda a tônica de "romance melodramático", para narrar a história (que, aliás, já ganhou diferentes versões, seja no cinema, seja na literatura) de uma epidemia de cegueira, chamada no filme de "cegueira branca", e que assola toda uma cidade, não identificada, que de uma hora para outra e sem qualquer razão aparente, começa a ficar cega.

Diante desta situação, instaura-se o caos, o tumulto e a violência. E como, a princípio, acredita-se que a cegueira é contagiosa, os doentes são trancafiados em um sanatório, onde precisam aprender a sobreviver e superar as limitações. Somente uma mulher (Julianne Moore), esposa de um oftalmologista (Mark Ruffallo), não é atingida pela moléstia e como as vítimas iniciais deste mal são colocadas de quarentena num hospital desativado, ela, para acompanhar o marido, finge não enxergar, também. É exatamente neste ambiente hostil e fechado, pois elas não têm contato algum com o mundo externo, que a trama se passa. Privadas de absolutamente tudo, essas pessoas passam a viver em uma "situação-limite", onde os sentimentos são levados a extremos e o instinto de sobrevivência fala mais alto!

Há grandes interpretações, mas o destaque do elenco vai, sem sombra de dúvidas, para a protagonista vivida pela atriz americana Julianne Moore. Ela é uma mulher em várias: resignada, quase apática no início da trama e que com o desenvolvimento da narrativa, se mostra furiosa e decidida, disposta a proteger e lutar não apenas pela sobrevivência de seu marido, mas dos internos do local. Outro destaque do filme é da brasileira Alice Braga, que tem Meirelles como seu padrinho pelo trabalho em "Cidade de Deus". Pois ela demonstra domínio total do papel que lhe foi concedido a mesma, uma jovem sedutora e que, também, é "pega de sopetão" pela tal "cegueira branca".

Já a encenação do ator mexicano Gael Garcia Bernal, que teve atuações fantásticas no cinema, como, por exemplo, em "Má Educação", do espanhol Pedro Almodóvar, no papel da travesti Zahara, ou mesmo em "Amores Brutos", do diretor mexicano Alejandro Gonzáles, em "Ensaio sobre a cegueira" só serve mesmo para abrilhantar o elenco da trama.Com atuação mediana, o ator decepciona ao vivenciar um dos internos do sanatório para onde as vítimas da obscura doença  e que ao adentrar no lugar, passa a ter papel de destaque no mesmo, como líder de uma das alas do local.

Com um roteiro bom, mas que poderia ter sido facilmente reduzido, visto que não alteraria em absolutamente nada a clareza da narração da trama, o filme, por outro lado, vem com a apresentação das cenas de forma bastante inovadora e ousada com a utilização de imagens fora de foco, planos mal enquadrados e uma brancura pouco vista no cinema (graças a imagens muito saturadas) conseguem, por vezes, turvar a vista, como maneira sinestésica usada pelo cineasta para trazer o espectador para a narrativa.

"Ensaio sobre a cegueira" é um filme duro, que por vezes causa desconforto e muita angústia, é mais uma prova de que o "cinema novo" brasileiro tem todo o poderio para competir com as mega-produções "holywoodianas", embora tenha tido um grande suporte financeiro para a sua elaboração. O filme é uma boa tradução para o livro de Saramago, obra igualmente, se não mais, incômoda. Sensação, aliás, exacerbada pelas cenas de extremo realismo, típica de Fernando Meirelles, que em algumas delas soa com um belo "chute no estômago".

 

 

“Almanaque” desenha a história do rock

1 Comentário »

Nem Chuck Berry talvez tivesse consciência que, ao unir a country music e o rhythm'n'blues, daria origem a um estilo musical que se propagaria de forma tão gigantesca e rápida pelos quatro cantos do mundo, como vem acontecendo ao longo destes mais de 50 anos de existência. Sim, o rock'n'roll, que, hoje, se consolidou e como uma das formas de expressão musical mais populares, se não for a mais, cujo mérito devemos à Elvis Presley, também, afinal de contas, ele foi um dos grandes responsáveis pela tal propagação. No entanto, o rock adquiriu uma definição bem mais abrangente do que quando foi gerado, agregou elementos de praticamente todos os estilos, possíveis e inimagináveis, do jazz, da música clássica, do folk, entre tantos outros.

Só por aí já dá para notar a sua importância, que, claro, não pára por aqui, vai muito além do meandro musical, propriamente dito, pois o gênero influenciou e continua a influenciar a vida das pessoas, nos seus mais variados aspectos. Tanto que tal relevância vem, não apenas como uma manifestação musical, mas cultural e comportamental, também. Para retratar este cenário todo no qual o rock está inserido, o músico, jornalista e radialista Kid Vinil reuniu todo o seu conhecimento de causa que tem na área e o amor "quase que incondicional" do qual ele nutre pela música, para escrever o livro "Almanaque do Rock", lançado recentemente pela Ediouro.

Em suas 248 páginas, a obra aborda a história do rock'n'roll, desde as suas origens mais remotas, quando o seu inventor, sem a menor noção de que criara um gênero musical inédito, até os dias mais atuais, como o auge da cena indie e o surgimento e popularização do britpop pelos ingleses do Radiohead, Oasis, Blur, Pulp, Manic Street Preachers e Suede. Em uma espécie de retrospectiva, cronológica, dividida por décadas, o "Almanaque do Rock" vai muito além de abordar os âmbitos técnicos do rock, visto que o relato de Kid sobre o gênero foi focado para outros aspectos e peculiaridades dentro deste universo, como complemento de tais informações.

O autor do livro acrescenta tais dados com uma perspectiva ampla e completa, a partir do momento que apresenta ao leitor outros informes do campo da música, em geral, como forma de se vestir, comportamento, curiosidades e lista de melhores álbuns (em sua concepção). Conceitos tão importantes quanto o narrar a evolução de um gênero musical. Aliás, podemos dizer que seu relato vai muito além mesmo, pois não se ateve apenas a apresentar a cena mundial do rock, mas abordou, também, tal estilo no contexto onde o seu mais provável leitor vive, o Brasil.

Fundamental e óbvio, afinal de contas, o mesmo precisa de contextualização para entender de forma mais clara e profunda o movimento gerado em torno deste estilo musical. Kid conseguiu, no ápice de seu conhecimento, passar ao público com o "Almanaque do Rock", de maneira didática e embasada, o que o rock representou e representa em sua essência para o mundo e não como apenas um gênero musical, mas como manifestação cultural, que é o que ele representa para o mundo, nos dias de hoje.

Enfim, em uma leitura leve e gostosa, o autor consegue envolver o leitor e mesmo que não tenha vivenciado o período embrionário, de gestação e nascimento do rock'n'roll, tem a proeza de embutir em qualquer um aquele sentimento "nostálgico aprazível"! Quer saber mais detalhes sobre esta obra-prima? Então, que tal conferir uma entrevista com o próprio Kid Vinil?

Town Art - Como nasceu a idéia de se fazer uma compilação histórica, em uma espécie de retrospectiva, sobre o rock?

Kid Vinil - A Ediouro já vinha trabalhando este formato de publicação, que é o almanaque, e um dos editores de lá me convidou para participar do projeto em escrever um livro com este foco mesmo, com uma ênfase em cada década, que tivesse curiosidades e que contasse a história do rock. Tanto que comecei a trabalhar dentro desta linha, com uma pincelada no rock brasileiro, para que tivesse um contexto histórico. Foi muito difícil selecionar o que entraria e o que ficaria de fora desta obra, pois o que eu tinha na mão daria até dois volumes. Mas fiquei contente com o resultado!

Town Art - Como foi e quanto tempo você demorou a elaborar e finalizar o projeto deste livro?

Kid - Tudo começou há uns dois anos, mas o livro já estava escrito em seis meses, nesta fase não demorei muito, tanto que em um ano ele já estava todo pronto. Era para ele ter sido lançado antes, mas teve algumas mudanças dentro da editora (Ediouro) e tivemos que postergar um pouco o lançamento do almanaque. Nesta obra procurei trabalhar com poucas fotos e usar mais as capas dos discos de minha coleção pessoal e acho que ficou bem legal! Já o texto, fazê-lo de forma mais didática e com um cuidado muito grande para não conceituar o tema rock, ou seja, de não montar um almanaque apenas de "Lado B", pois não era esta a nossa intenção. Tanto que busquei equilibrar isso, colocando as bandas mais conhecidas do público, em cada uma das décadas elencadas, com pitadas de algumas raridades, grupos mais obscuros do grande público.

Town Art - No "Almanaque do Rock" você busca elencar, em ordem cronológica, as principais bandas de cada década, vindo desde os primórdios do rock'n'roll, nos anos 50, até os dias de hoje, certo!? Como foi, ou melhor, qual foi o critério utilizado por ti para selecionar os artistas que compuseram esse cenário e influenciaram, principalmente, a cultura ocidental?

Kid - Procurei falar de bandas que as pessoas conheçam, como já disse anteriormente. Grupos conhecidos aqui no Brasil e que fazem parte de cada período exposto no livro. A gente preferiu dividir a obra por décadas e elencar as bandas mais importantes de cada gênero dentro do rock, mostrar apenas os "tops" de cada uma dessas fases.

Town Art - Em seu livro você procura citar todos os subprodutos do rock, bebop, surf music, folk, psicodelismo, glam rock, jovem guarda, rock progressivo, tropicália, heavy metal, punk-rock, grunge, entre outros. Em sua opinião, de que forma eles se unem e forma um conjunto, um todo? E neste contexto, onde entram os chamados "one hit wonders" (aqueles artistas ou bandas que fazem sucesso com apenas uma música e depois somem e caem no ostracismo) e qual a importância de tais para a composição deste cenário?

Kid - Dentro do rock encontramos muitos estilos, infinitos, e por isso é muito difícil segmentar. Agora, nesta questão do "one hit Wonders", eu até me inclui neste conceito, pois minha banda (Magazine) fez sucesso com duas músicas, de fato. Não é o fato de fazer um sucesso ou mais, porque quem e qual banda não querem fazer sucesso, nem que seja por pouco tempo? Eles têm sua importância e de maneira alguma foram colocados de forma pejorativa. Sei lá, tudo, todos os gêneros dentro do rock se encaixam, o rock combina com tudo, dá para fazer vários "drinks" e se misturar, não se perde a sua essência. O próprio Bob Dylan fazia folk e era rock, o Jimmi Hendrix fazia blues e era rock e assim por diante. Isso porque o rock combina com qualquer gênero e um grande exemplo que temos hoje é a música eletrônica com o rock, que resultou no electro-rock.

Town Art - Você buscou contar a história do rock de uma forma bastante peculiar, não se ateve apenas às informações técnicas do campo da música, mas as complementou com outros dados, como a forma de se vestir, de se comportar, selecionou por período os melhores álbuns em sua opinião, além de ter acrescentado algumas curiosidade, certo!? Por quê?

Kid - Eu sempre gostei dessa coisa do contar história. No livro procurei desenvolver o tema rock de forma didática, sem que fosse cansativo. Na verdade, fiz milhares de listas de "alta fidelidade", cheguei a montar uma de cada ano, pena que não deu para publicar tudo. Procurei contextualizar cada banda citada, mas como disse, um volume foi pouco para o tamanho das informações das quais eu dispunha, pois levantei muita coisa. Tanto que o pessoal surtou comigo, quando eu dizia que tinha que sair assim, mas depois nos entendíamos (risos). Sei lá, busquei fazer algo menos burocrático, mais descontraído, embora sério. Tanto que achei interessante em dar detalhes de letras de músicas, coisas engraçadas.

Town Art - De que forma, na sua concepção, o rock trouxe toda uma mudança comportamental na época em que nasceu? E nos dias de hoje, de que maneira este gênero musical influencia a vida das pessoas, de seus apreciadores e seguidores convictos?

Kid - Na vida dos jovens o rock tem um poder de mudança incrível, influencia diretamente. Tanto que todo mundo tem um estilo e o segue, seja nas vestes, na forma de se comportar etc. No âmbito da moda, o rock sempre ditou regras, sempre teve muito estilo. Aliás, o rock e a moda andam de mãos dadas, juntos até hoje. É como se fosse uma maneira de expressão que, desde os seus primórdios e ainda sim, continua sendo transgressora, uma quebra, uma estrutura nova. Na verdade, o rock continua sendo uma coisa de atitude, como foi no começo, embora tenha sempre uma forma de expressão diferente.

Town Art - E de que maneira a sua experiência acumulada ao longo de décadas na cena musical, seja como músico, como formador de opinião, jornalista, facilitou ou contribuiu para a criação do "Almanaque do Rock"?

Kid - De forma totalmente direta. Escrever este livro foi fácil e o fato de atuar na área, sem sombra de dúvidas, me ajudou muito. Pois coleciono livros, discos desde os dez anos de idade. E com este "back ground" formado desde a infância, acaba dando um "feeling" maior e mais aprofundado para as coisas e no meu caso, na música, no rock. Com certeza ser um especialista no assunto, associado à vivência na área, me ajudou muito e o fato de ser jornalista, então, abriu um grande caminho.

Town Art - Como você analisa a cena musical hoje? E em relação quando você começou, no início da década de 80, era mais fácil ou não? Quais as vantagens e desvantagens?

Kid - Acho que hoje, ter uma banda, ser músico, se tornou mais fácil. Pois na minha época não tínhamos a facilidade da internet, de download, do "do it yourself", do faça você mesmo e em casa. Talvez a única coisa que morreu é o formato físico, o disco, pois com a falência das gravadoras e com a ascensão da internet, ninguém mais compra CD, exceto alguns mais nostálgicos, como eu (risos). Eu não sei se é bom ou ruim para o músico, que não mais ganha com a venda de discos e agora, tem que ganhar dinheiro com shows. Enfim, ele acaba tendo que mostrar o quanto é bom ao vivo. A mágica foi perdida, pois, hoje, é muito mais a época do som, do ipod!, do que da forma física, visual, propriamente dita. Mas já que vivemos esta fase, temos que ingressar nesta nova geração, né!?

Town Art - E diante deste contexto, da ascensão da internet como forma de divulgação e propagação dos trabalhos dos artistas, como você acredita que vai ficar daqui a alguns anos?

Kid - O futuro já é um presente, para as gravadoras é péssimo, pois elas não vão mais existir e sim um portal de provedores de conteúdo, como a Trama Virtual, por exemplo. Não acho isso legal, mas não sou eu que estou falando, a gente era feliz e não sabia...

Town Art - Além do "Almanaque do Rock", atualmente, você está com outros projetos paralelos, entre eles, à frente da banda Kid Vinil Xperience, certo!? Quais são seus planos futuros?

Kid - A banda na verdade é um "revival" do que eu já fazia com o Magazine e outros projetos que já fiz. É uma espécie de releitura, que fiz pela Trama, de tocar covers de The Clash, Beatles, Rolling Stones, Jimmi Hendrix. Mas estamos pensando em algo inédito, também, mais para a frente. Agora, digamos, que estou mais focado com o lançamento do livro, em tocar com a banda, estar nas festas como DJ, além do blog que inauguro em meados de setembro, no Yahoo, que deve falar sobre o que falo no meu atual blog, sobre rock em geral, dicas, novidades etc.

Town Art - E para fechar a tampa: você como crítico e formador de opinião, o que tem lhe chamado a atenção na cena underground brasileira e "gringa"? Qual a diferença entre a cena alternativa aqui no Brasil e no estrangeiro?

Kid - Eu sempre sou otimista com as coisas novas, ouço muitas das bandas tidas como "novas" e mais antigas, também, que fizeram história. Hoje, tem muitas bandas inglesas e americanas da nova geração, muito boas, como, por exemplo, The Kings of Leon, que, aliás, está com uma expectativa quanto ao seu novo trabalho, que deve sair em breve e já está sendo cogitado como o disco do ano. Os ingleses do Oasis eu curti bastante o trabalho novo deles, lançado recentemente; tem ainda os nova-iorquinos do Vampire Weekend, cuja banda é ótima, os americanos do The Hold Steady, que faz um rock muito bom, também. Enfim, tem tanta coisa boa, cada dia que se passa aparece algo novo e legal, um "sabor novo" inspirado em um monte de coisas. Já do Brasil, gosto de Vanguart, Los Porongas, Superguidis e muitas outras, pois tem muita coisa nova e boa aqui também. Sei lá, hoje, o rock está muito mais underground, mas aqui ainda sim tem muitas dificuldades, em vista do estrangeiro, como nos EUA, onde as gravadoras dão uma força muito maior para os novos artistas do que aqui. Lá fora, eles ainda acreditam nas novas bandas. Mas, por outro lado, aqui, por sorte tem os grandes festivais, embora seja mais difícil este tipo de investimento. No Brasil, o rock não é prioridade, e sim a música popular. E para piorar ainda mais a situação, o poder aquisitivo da população atrapalha ainda mais, por isso, o independente aqui tem que acreditar no que faz e correr atrás do seu, unindo as forças sempre.

 

I come back... tudo em ordem, enfim!

1 Comentário »

Após pouco mais de um mês de férias "forçadas" na vida desta colunista, decorrente de problemas que infelizmente atingiram o Portal Dynamite e que culminou com o bloqueio temporário das atividades da mesma neste espaço virtual, enfim chegou ao fim! Sim, podem comemorar juntamente comigo, pois eu estava ansiosíssima, confesso, para retornar à labuta aqui neste blog. Sim, isso mesmo, vocês leram bem! Pois é, infortúnios aparentemente solucionados e que esperamos todos aqui, que não voltem mais, fiquem bem longe daqui!

Agora, com tudo de volta ao normal e como a vida não pára, retornemos às atividades com "gás total" e com muitas novidades, também. Aliás, a Lei de Murphy, neste caso, cabe perfeitamente, pois várias coisas rolando pela cidade, muitas notícias, que, inclusive, se perderam, visto que o nosso trabalho é galgado no tempo e espaço e como 30 dias são 30 dias, muitas informações acabaram deixando de ter a sua devida relevância! Mas tudo bem, "cest la vi", o que importa é que a cena cultural de Sampa continua com seu fluxo natural, se movimentando como nunca!

Como o último texto que havia sido postado neste espaço, permaneceu no mesmo por algumas horas apenas, momentos antes do sistema de blogagem dar "tilti", e a matéria ter simplesmente "sumido". Voltemos com ela mesma, a resenha sobre o polêmico e super-comentado espetáculo "A Megera Domada", de Cacá Rosset, que ficou em cartaz na cidade por meses e se estendeu até o final de agosto  (31/08), no Teatro Sérgio Cardoso. Muitos devem estar se perguntando o porquê da sua repetição, né não!? Simples, pela importância que o dramaturgo tem para as artes cênicas do País, embora a peça esteja há anos luz de ser o primor da genialidade e potencialidade de Cacá! Vamos nessa!?

E não é que Cacá Rosset quase doma a megera!

Para celebrar os 30 anos de aniversário da Companhia de Teatro do Ornitorrinco, o grupo apresenta, desde o mês de maio, o espetáculo "A Megera Domada" - um dos grandes clássicos e uma das primeiras comédias de William Shakespeare - no Teatro Sérgio Cardoso. Considerada revolucionária quando nasceu, na década de 1970, a trupe, liderada até os dias atuais por Cacá Rosset, sobreviveu no tempo e no espaço e continua tendo a sua importância para as artes cênicas, assim como Bob Dylan está para o folk-rock. No entanto, tal conceito empregado há três décadas e que coube por muitos anos, não mais tem cabimento (sem desmerecer e ignorar o valor do grupo)!

O texto do dramaturgo inglês retrata a história de Catarina (Christiane Tricerri) e de Petruchio (Cacá Rosset), ambos inseridos em uma trama em que os personagens são capazes de tudo por amor - trapaceiam, dominam e se submetem. Bela, ide língua ferina, Catarina afasta todos os interessados em namorá-la. Para enriquecer a narrativa, sua irmã Bianca, interpretada por Maureen Miranda, só pode se casar depois de Catarina. A tarefa de domá-la caberá a Petruchio, tão temperamental quanto sua amada. A partir daí, ambos conduzem um grande duelo de forças.

Não, a montagem não é ruim, é boa, divertida, criativa e ponto! Cacá Rosset continua sim, sendo um ator e um diretor primoroso, pois atua das duas formas neste espetáculo, e a levar ao grande público o humor inteligente e irreverente bem típico e que se tornou marca registrada do Teatro do Ornitorrinco. Considerado por muitos até uma espécie de Woody Allen brasileiro, Cacá se tornou célebre exatamente por agregar as principais características do cineasta americano, o humor inteligente e intelectivo do mesmo. Mas diante da importância histórica que o Teatro do Ornitorrinco tem para artes cênicas no Brasil e que influenciou diversas companhias contemporâneas, como Grupo Tapa, Parlapatões, entre outros, confesso que esperava mais, principalmente no aspecto que deu notoriedade à trupe quando surgiu, a insolência e a inovação, o que não torna a montagem em nada perniciosa ou algo do gênero!

Muito do contrário, "A Megera Domada" é visceral e reverbera o mundo "shakespeariano" de maneira bastante inteligível ao público, principalmente pela linguagem utilizada por Cacá no texto da peça, que é bastante simples e direta, se aproximando assim, do coloquial utilizado pela nossa sociedade nos dias de hoje, com emprego até de algumas expressões em inglês, bastante usada por muitos de nós no dia-a-dia. Aliás, este é um dos pontos altos do espetáculo, pois, ao inverso do que a maioria das pessoas acreditam, criar um épico que não seja entediante, para não dizer chato, é extremamente difícil, principalmente quando se opta por trabalhar o texto original e ainda mais de Shakespeare - que ao elaborar uma obra tinha como intuito, ao contrário do que muitos pensavam, não era de atingir a elite burguesa da época e sim, a grande massa - é extremamente complexa e refinada!

No entanto, embora tal artifício seja um dos diversos atributos do espetáculo, por outro lado, é provável que Shakespeare ao ver "A Megera Domada" de Cacá Rosset se revirasse em seu túmulo! Por quê? Pelo simples fato de que ele na sua busca incessante por criar obras de um alto grau de elaboração, ocorrência que inclusive é inquestionável, não aprovaria uma releitura de seu trabalho de forma tão tosca, pois os diálogos da peça são carregados de "clichês". Não! Nada contra ao uso deste método, mas é que utilizado em demasia, convenhamos, perde sua graça e se torna maçante, não é verdade!? Por outro lado, se usado de forma equilibrada, na medida certa, dá até uma "certa" graça para uma comédia, seja pela irreverência, seja pela aproximação do texto com a linguagem atual e coloquial.

Em contraponto, o figurino de "A Megera Domada", assinado por José de Anchieta e que também é responsável pelo cenário da montagem, foi muito feliz nas escolhas das vestes de cada um dos personagens. Trajados com roupas extremamente bem elaboradas e fidedignas com a época vivenciada pelos personagens, os atores da peça conseguem trazer ao público para dentro da trama, graças ao realismo e sofisticação embutidos nas vestes! No entanto, este artifício entra em contraste com o caráter "clown" de cada personagem, proporcionado pelas maquiagens deles em tal estilo, que, aliás, de "clown" não têm nada, talvez, somente a busca pelo humor sarcástico e irreverente e alguns malabarismos realizados pelos atores em algumas cenas da peça.

Outro ponto baixo da peça é o tempo utilizado, de quase duas horas e meia, para apresentar a história de Shakespeare! Ele poderia ter sido reduzido na metade, que não prejudicaria em nada o desenvolvimento da trama e a compreensão do público da narrativa! Pois, em um dado momento, se torna enfadonho permanecer sentado na cadeira do teatro para assistir ao espetáculo. As cenas e textos poderiam ser cortados ao meio, que a montagem transcorreria de maneira perfeita, sem lacunas!

Enfim, o espetáculo "A Megera Domada" ainda sim vale a pena! E o Teatro do Ornitorrinco de fato conseguem domar a megera da trama com muita criatividade, irreverência e destreza! Os atores que integram a trupe, de maneira geral, conseguiram incorporar os seus respectivos personagens, com destaque para Cacá Rosset, no papel de Petruchio, e Christiane Tricerri, na pele de Catarina, que conseguiram trazer à tona uma das características mais marcantes da companhia, a "visceralidade" dos mesmos junto ao público, se é que me entendem!?

Saiba mais sobre a trupe

O Teatro do Ornitorrinco foi fundado há trinta anos por Cacá Rosset, Luiz Roberto Galízia e Maria Alice Vergueiro, todos da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Estreou em maio de 1977, com uma reunião das obras do dramaturgo sueco August Strindberg, "A Mais Forte", "O Pária" e "Simun", todas apresentadas no porão do Teatro Oficina. No mesmo ano, a trupe apresentou o show musical "Ornitorrinco Canta Brecht e Weill", com tradução e adaptação de letras e canções de "A Ópera dos Três Vinténs", do poeta, dramaturgo e encenador alemão Bertolt Brecht. Entre os muitos atores que passaram pelo grupo figuram Rosi Campos, José Rubens Chasseraux, Chiquinho Brandão, Ary França, Eduardo Silva, Rubens Caribé e Christiane Tricerri que, nos últimos anos, assumiu o comando das produções. Adaptar Shakespeare não é uma novidade para a companhia que, em 1991, foi convidada pelo produtor americano Joseph Papp a participar do New York Shakespeare Festival.

Ah, e podem aguardar, pois volto com muitas outras novidades sobre a cena cultural da cidade, entre elas, só para deixá-los com "água na boca", notícias sobre o novo CD do Instiga, que acaba de ser lançado; a nova empreitada de Lirinha, do Cordel do Fogo Encantado; informações sobre o "Almanaque do Rock" - a mais nova obra de Kid Vinil e que foi lançada recentemente - e muito mais... promessa de escoteira!!! hehehe

Beijos em todos e até já...

Powered by Mango Blog. Design and Icons by N.Design Studio
RSS Feeds