A partir do momento em que o Forgotten Boys lançou o seu penúltimo trabalho "Stand by the D.A.N.C.E.", no ano de 2005, a banda comprovou sua longa vida na cena brasileira, conquistada com um trabalho sólido, galgado degrau por degrau ao longo de quase uma década de carreira. Fato que se reafirma com "Louva-a-Deus", disco recém-lançado pelo quinteto paulistano e que marca o retorno triunfal do grupo, após um espaçamento de quase três anos sem novo álbum. Trabalho, este que demonstra o auge da maturidade musical no qual os músicos se encontram atualmente e bastante notório para os que acompanham a carreira deles desde quando começaram, no final dos anos 90.
Integrada por Gustavo Riviera (guitarra, violão e vocal), Chuck Hipólitho (guitarra e vocal), Zé Mazzei (baixo e violão) e Flávio Cavichioli (bateria), a banda vem traçando uma sua carreira sólida e que, hoje, se encontra no limiar entre o underground e o mainstream. Conquista adquirida em cima de um trabalho consciente e talentoso, agregado a muito, mais muito amor e fé no que se faz, claro! No entanto, sem engajamento, nada disso seria possível, certo!? Característica bastante presente, nos últimos tempos, entre os seus integrantes no desenvolvimento pleno de suas atividades!
Além de firmar ainda mais a carreira do Forgotten Boys, "Louva-a-Deus" marca o início de um novo período vivenciado pelos músicos, pois é o primeiro disco lançado pelo selo próprio da banda, sem gravadora, grande tendência, nos dias de hoje! Neste novo disco, o quarteto só comprovou o que todos já estão "carecas" de saber: os músicos só apuraram o que sabem fazer de melhor e muito bem, um verdadeiro rock'n'roll "garageiro". Mas não um simples rock'n'roll, e sim, aquele rock'n'roll, com riffs de guitarras acelerados, que todos já conhecem, pois já se tornou uma das "marcas registradas" do grupo e é fruto da influência direta do punk sob os seus integrantes. Enfim, um rock visceral, como deve ser, né não!?
Com canções muito bem trabalhadas e arranjadas, a banda consegue em "Louva-a-Deus" fazer um rock descarado e furioso com uma "leve" pegada de soul e funk, influências assumidamente abraçadas pelos seus integrantes e que vêm de forma mais nítida neste trabalho do grupo, também. As músicas que mais merecem atenção neste disco são: "Quinta-feira", "Hold On", "Don't Be Afraid" e "Got My Eyes".
Mas se a banda vem se voltando a cada dia a um "som mais maduro e sofisticado", dentro do gênero no qual transitam, por outro lado, o Forgotten Boys vem optando a voltar-se mais às suas raízes e que tem gerado muita controvérsia. Desde "Stand by the D.A.N.C.E.", o quinteto vem andando no sentido oposto da maioria dos artistas e principalmente dos roqueiros, e, ao invés, de compor suas canções em inglês, têm investido em letras em português. Tanto que neste último álbum da banda, esta forma de composição vem de forma bastante equilibrada, com músicas nos dois idiomas!
Demonstração de que o rock'n'roll pode sim ser cantado em todas as línguas, inclusive em "tupiniquim"? Afrontamento à teoria esdrúxula de que o gênero tem que necessariamente ser composto e entoado apenas em inglês? Talvez, mas o que importa é que não precisam provar mais nada (ou quase nada) para ninguém e sim apenas continuar tocando o seu bom e ótimo rock, como sabem e aprenderam a fazê-lo!
Para falar melhor desta nova fase vivenciada pela banda, esta escriba conversou com dois de seus integrantes, os vocalistas e guitarristas Gustavo e Chuck. Durante entrevista, eles contam mais detalhes de como foi o processo de gestação e nascimento de "Louva-a-Deus", além de falarem um pouco de tais mudanças que vem ocorrendo com a banda, a carreira do grupo, seus planos futuros e muitos mais...

Crédito da foto: Ana Mazzei
Town Art - Após quase três anos sem lançar disco novo, qual a expectativa de vocês
quanto a este novo trabalho da banda?
Gustavo Riviera/Forgotten Boys - O disco em si já nos traz muita mudança. As composições são bem diferentes dos discos anteriores, a gravação do Apollo Nove e do Roy Cicala foi muito nova para a gente. É o primeiro disco lançado pelo nosso próprio selo, sem gravadora. A banda está com a formação bem unida, todos na mesma sintonia, nunca havíamos gravado dois discos com a mesma formação, nos entendemos musicalmente muito bem, hoje em dia. Isso tudo acaba trazendo uma mudança geral na banda e essa é a nossa expectativa.
Town Art - Em vista de quando começou e nos dias de hoje, a banda vem passando por algumas mudanças, certo!? O que faz parte da vida, afinal de contas, mudanças de foco e objetivos são normais! Em relação ao Forgotten Boys, como vem sendo este processo, principalmente, em relação à produção do grupo, que passou por algumas transformações, como, por exemplo, no caso das canções, que no início da carreira de vocês eram compostas apenas em inglês e desde o último trabalho de vocês, "Stand by the D.A.N.C.E.", vêm investindo cada vez mais em músicas em português, também?
Gustavo/Forgotten Boys - Gostamos de passar por muitas experiências, a banda sempre teve essa característica, parece que sempre queremos novos desafios. Mudamos de integrantes, de empresário, de gravadora, de amplificador, de casas de show, etc. A composição em português é mais uma dessas mudanças. Sentimos necessidade de fazer coisas novas, as músicas em português nos trouxeram várias novidades, hoje em dia, não é mais novidade, mas gostamos de fazer música em português, também.
Town Art - Em relação ao disco "Louva-a-Deus", como foi a produção do mesmo?
Gustavo/Forgotten Boys - A fase de composição durou bastante, passamos algum tempo, ensaiando, compondo em uma fazendinha, isso nos deixou mais focados e unidos. Gravamos duas demos, em 5 ou 6 meses, somando as duas tínhamos umas 25 músicas. E junto com o Apollo Nove fomos eliminando uma por uma, até restarem 14 músicas e fecharmos com este número. A gravação foi feita em umas três semanas e depois levou um tempo a finalização e a mixagem que o Roy Cicala fez. Ele teve um trabalho intenso, cada música, ele quis saber sobre o que se tratava, para dar uma personalidade para cada uma delas. Tivemos um resultado surpreendente!
Town Art - Como de costume, as canções do Forgotten Boys abordam o dia-a-dia, enfim, temas bastante cotidianos do ambiente urbano, imagino eu que vivenciado pelos integrantes da banda, certo!? Esta linha acompanha o grupo desde quando ele foi criado, cujos arranjos no começo eram mais crus e, hoje, continuam pesados, mas com um "tom" mais elaborado e caráter um pouco mais "garageiro", claro que sem fugir das nuances e influências que permeiam o trabalho de vocês, né!?
Gustavo/Forgotten Boys - Concordo. Acho que você já responde a pergunta, mas...
Town Art - O trabalho anterior da banda foi bastante elogiado pela crítica, como o ápice de criação do Forgotten. Isso causou algum receio para vocês, como é bastante comum entre os artistas e/ou músicos, na elaboração de "Louva-a-Deus", no seu lançamento?
Gustavo/Forgotten Boys - Não, sempre queremos fazer algo melhor do que o outro. Essa cobrança vem mais de nós mesmos, em fazer um disco melhor, do que de qualquer situação externa à banda.
Town Art - Uma prática que vem se tornando cada vez mais comum entre os artistas e/ou músicos é o lançamento via internet de seus trabalhos. O que vocês têm a dizer sobre este processo de mudança de toda a indústria fonográfica e que de forma direta atinge a todos. Qual o papel da internet na vida dos artistas, de forma geral, e como vocês avaliam que este cenário vai se conduzir, enfim, se firmar?
Chuck Hipólitho/Forgotten Boys - Fundamental hoje em dia, um lugar democrático, para quem tem acesso, claro! E onde tudo pode ser conseguido de graça, mesmo que ilegalmente, mas o que importa é que as pessoas vão atrás, e acham o que querem. É uma ferramenta muito boa para divulgação. Mas, também, a forte oferta deu uma diluída em tudo, pois hoje é facílimo gravar uma musica e colocá-la ao alcance de todos, isso tem seu lado positivo e negativo.
Town Art - De quando vocês começaram a carreira de vocês há quase uma década, o que mudou na vida do Forgotten Boys? Novos objetivos e metas a serem atingidos?
Gustavo/Forgotten Boys - Mudou muita coisa e muita coisa é bem parecida com há dez anos. Ainda queremos lugares com condições técnicas melhores pra tocar, tem bastante lugar legal, mas muito mais lugar que falta qualidade pra fazer um show bom.
Town Art - Dando continuidade ao assunto mudança: o que se alterou no gosto musical dos seus integrantes? O que vocês têm ouvido ultimamente? De que forma estas "novas" ou não influências influem sobre o trabalho da banda?
Gustavo/Forgotten Boys - Vou ficando cada vez mais aberto a vários estilos musicais, isso acaba influenciando nas composições, com certeza! Escuto desde Ray Charles, Sly and the Family Stone, Kinks, até Stooges e Rolling Stones. Sempre alguma coisa nova vai sendo adicionada nas composições, você vai sacando umas coisas que não sacava e vai entrando em sua música naturalmente.
Town Art - Da cena alternativa atual, o que vocês têm ouvido, curtido e acreditam que têm futuro? (risos)
Gustavo/Forgotten Boys - Escuto algumas coisas novas como Bell Rays, Black Keys, Greenhornes, Gnarls Barkley. Eles são bem legais!
Town Art - Vocês conseguiram unir dois fatores que muitos músicos e /ou grupos gostariam de ter tido no começo da carreira, que é talento e sorte, certo!? Qual a dica que vocês dariam para as bandas que estão começando hoje?
Gustavo/Forgotten Boys - Saiba o que você está fazendo.
Chuck/Forgotten Boys - Estude muito, no sentido de se dedicar e aprender, seja interessado, apaixonado.
Town Art - Como vocês avaliam em grau de importância: "sucesso" ou "reconhecimento" ou os dois?
Chuck/Forgotten Boys - Os dois andam relativamente juntos, acho que o "sucesso" vai vindo conforme os objetivos pessoais e as barreiras vão sendo quebrados e se estamos andando para frente, isso é sucesso para a gente. Reconhecimento vem junto.
Town Art - Para finalizar: quais são os projetos futuros do Forgotten Boys? O que a banda almeja para o futuro?
Chuck/Forgotten Boys - Tocar, tocar e tocar. Gravar um clipe novo.

Crédito da foto: Ana Mazzei

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