Que a cena alternativa de uns anos para cá vem ganhando cada vez mais projeção e se consolidando como meio de produtivo para muitos artistas, seja na música, no teatro, no cinema, nas artes plásticas, na literatura, é um fato inquestionável, certo!? Para retratar esta nova tendência, que vem atingindo proporções jamais inimagináveis há alguns anos, o cientista social Pablo Ornelas Rosa acaba de lançar o livro "Rock Underground - Uma Etnografia do Rock Alternativo", pela Editora Radical Livros (http://www.radicallivros.com.br/), no qual o gaúcho busca apresentar o lado musical deste cenário, mas de forma aprofundada, possibilitando assim, ao leitor uma visão mais sólida e reflexiva em relação ao assunto.
Elaborada em forma de ensaio, a obra é o resultado da junção das mais diversas experiências de Pablo, que, além de integrar a cena underground há muitos anos como ser atuante, pois já fez parte de várias bandas do gênero, sendo que atualmente é membro dos grupos The New Outsiders e The R.I.Ps, estuda academicamente o assunto, cujo tema é foco de sua dissertação de mestrado. O que é fantástico, afinal de contas agrega, no mínimo, dois pontos de vista diante de uma mesma temática e sendo assim, mostra ao leitor tal manifestação as suas mais variadas óticas e nuances, para que este forme o seu próprio senso crítico, possibilitado por meio da reflexão e compilação do máximo de informações possíveis diante do assunto.
Para isso, Pablo parte do pressuposto a cena na cidade catarinense de Florianópolis, onde reside há muitos anos, para compor este ambiente. No entanto, o local serve apenas como o ponto de partida para retratar uma mesma lógica econômica e social e que pode ser encaixada em qualquer centro urbano do País. Ambiente vivido pelo autor desde a adolescência, o cenário apresentado por ele vem de forma completa e, embora, seja fruto de um objeto de pesquisa, está longe ser vir de forma entediante, para não dizer chata. Muito do contrário, o gaúcho utiliza nas 172 páginas da obra uma linguagem simples, didática e direta para apresentar um movimento tão em voga nos últimos anos no Brasil e outras partes do mundo.
Enfim, ele consegue em "Rock Underground - uma Etnografia do Rock Alternativo" mostrar este cenário de uma forma rigorosa e, ao mesmo tempo, viva, sem perder o rigor conceitual que exige um objeto de pesquisa. Uma leitura agradável e que dá para ter uma visão um pouco mais reflexiva e fundamentada sobre o assunto. Diferentemente, de textos desta alcunha, o livro não é prolixo, pois convenhamos, uma das maiores dificuldades de muitos acadêmicos é exatamente ser objetivo e direto!
No entanto, como o próprio autor define, esta obra é um ensaio e de acordo com todo texto do gênero, é a visão de apenas um dos milhares de pontos de vistas possíveis a ser empregada diante de um fato e, obviamente, no qual o condutor dos trabalhos considera importante para compor e até mesmo elucidar as suas argumentações! Aliás, durante entrevista com o autor da obra, ele conta mais detalhes sobre o livro, de que forma sua vida e profissão convergem e até mesmo refletem no mesmo e muito mais. Vamos a ela?
Town Art - Como surgiu a idéia de escrever um livro sobre o rock underground em forma de etnografia? Como foi a escolha do tema desenvolvido por você nesta obra?
Pablo Rosa - O meu interesse em escrever o livro surgiu no final do meu curso de
graduação em ciências sociais na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Eu estava interessado em estudar o sistema financeiro e o professor e doutor Ari César Minella, que lecionava na ocasião a disciplina intitulada "sistema financeiro no capitalismo contemporâneo", quando ele me sugeriu que eu fizesse um trabalho sobre o rock, já que ele sabia do meu interesse na temática e também sabia do me envolvimento com a mesmo, visto que eu tocava em bandas. Eu acabei aceitando a sugestão, desenvolvendo a pesquisa na qual se tornou a minha monografia e publicada posteriormente.
Town Art - De que forma o fato de ter algum envolvimento com o jornalismo facilitou a
composição da obra?
Pablo - Eu freqüentei o curso de jornalismo durante um ano e dois de direito antes de me formar em ciências sociais. Este livro foi o resultado de uma pesquisa etnográfica realizada através da observação participante, tanto como músico e produtor musical, quanto como público, muito presente nas ciências sociais, sobretudo, na antropologia social.
Town Art - E deste seu envolvimento com a temática desenvolvida no livro, como e quando surgiu o interesse por estudar o assunto "rock underground"?
Pablo - Tenho um pouco mais de uma década de envolvimento com bandas de rock, atuando como músico e produzindo alguns shows. O interesse pelo assunto existe desde a minha adolescência, entretanto, não era em estudar o assunto e sim vivê-lo, mas em estudá-lo cientificamente surgiu somente no final da minha graduação em ciências sociais.
Town Art - Você está fazendo mestrado em Sociologia Política e é músico, também, certo!? De que maneira estes trabalhos, seja prático ou acadêmico, contribuiu para a elaboração desta obra? Como você conseguiu e foi o ponto de convergência entre estas áreas nos quais atua?
Pablo - Apesar de eu ter cursado direito e jornalismo, a minha formação é em ciências sociais, pois sou bacharel em ciências sociais e mestre em sociologia política pela UFSC, além de atualmente estar cursando o doutorado em antropologia na PUC/SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Creio que o fato de eu tocar em bandas de rock e ter vivenciado desde cedo este meio, por um lado tenha me possibilitado observar aspectos com uma profundidade possivelmente maior, por outro, poderia ter sofrido com uma "contaminação" do olhar do "nativo" e não do "pesquisador". Mas creio que consegui conciliá-las obtendo um bom resultado!
Town Art - O seu objeto de estudo foi basicamente o rock underground de
Florianópolis (SC), de uma localidade específica, certo?! Como foi o desenvolvimento prático e teórico do livro?
Pablo - O livro não se trata apenas de um estudo de caso sobre um bar, o "Underground Rock Bar" ou "Bar do Frank", como é mais conhecido. Também não se trata do estudo do rock underground de Florianópolis, pois a proposta é ir um pouco além, ou melhor, de utilizar estes referenciais no intuito de refletir sobre a forma na qual se constituem as identidades individuais e grupais dos jovens que vivenciam esta cultura e de que forma esta cultura se manifesta em diferentes localidades. Como este trabalho é pautado no científico, utilizei metodologias idem das ciências humanas e sociais, além de ter usado referências bibliográficas que combinavam com o tema, propondo um trabalho etnográfico. Ao todo, juntando todo o processo de elaboração da obra, que vai desde a pesquisa e a produção do texto, foram cerca de 8 meses.
Town Art - Você aborda os diversos aspectos que compõem o cenário estudado,
como estilo, drogas, território, organização de shows. Como foi e por que escolheu tais perspectivas para traçar o painel da cena alternativa de Florianópolis?
Pablo - Escolhi estes temas, porque acredito, que somados, são os de maior relevância. Propus a idéia de uma tríade formada por estética, música e ideologia para discutir a relação entre o comercial, geralmente pautado em princípios emotivos e individualistas e o underground, geralmente baseado em princípios políticos e coletivistas. Esta análise acabou me dando condições de propor este quadro analítico mais abrangente.
Town Art - De que forma o cenário estudado pode se estender para outras localidades?
Pablo - Cada região possui sua singularidade por mais que busque copiar. Em um dos capítulos, utilizei um texto do antropólogo de Clifford Geertz sobre a religião islâmica, chamado "Observando o Islã", para mostrar como ocorre este processo entre significante e significado. O rock produzido no Brasil, muitas vezes, busca, por exemplo, copiar ao pé da letra o rock inglês, mas o fato de a realidade brasileira ser diferente do objeto imitado, no caso, a Inglaterra, percebemos nitidamente a diferenciação na música, além, claro, de sabermos que enquanto seres humanos, somos diferentes uns dos outros. Neste caso, o significante rock inglês é reinterpretado no Brasil, dando-lhe um novo significado.
Town Art - Esta é a primeira obra sua? Como foi gerar o seu primogênito?
Pablo - Este foi o meu primeiro livro, anteriormente, eu havia publicado artigos em revistas acadêmicas. E esta obra está sendo um enorme prazer ter lançado, foi uma honra ter o prefácio do Luiz Eduardo Soares, assim como, foi uma honra tê-lo como "padrinho do livro", como ele mesmo definiu. A Editora Radical Livros foi excelente, fizeram um ótimo trabalho e tiveram muito cuidado com os detalhes do mesmo.
Town Art - Qual o seu intuito com a publicação desta obra?
Pablo - Pretendo trazer à tona uma importante discussão de Florianópolis sobre o preconceito, estigmas e abusos de poder, que ocorrem com freqüência. Além disso, gostaria de apresentar um pouco da cena do rock underground aos interessados no tema, mas de forma mais aprofundada e reflexiva, contribuindo para uma temática ainda tão carente no Brasil.
Town Art - Só para finalizar: quais são os seus planos futuros daqui em diante?
Pablo - Ainda este ano organizarei, com Rosângela de Sena e Silva, um livro intitulado "Juventude, Ativismo e Redução de Danos", resultado de um projeto muito interessante da ONG na qual atuo, chamado CASA (Centro de Assessoria à Adolescência). Além do mais, pretendo publicar a minha dissertação de mestrado e continuar cursando o doutorado em antropologia na PUC/SP.

Sim, sim, ficamos meio ausentes nestes últimos dias, mas conforme foi explicado no post anterior, voltamos e com a corda toda, podem acreditar!? rsrsrs... aliás, até breve, pois volto com mais novidades sobre a cena cultural do Brasil!!!

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