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A Bahia é terra boa. Ela lá e eu cá...

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by Saulo Wanderley 

Nesses tempos em que se fala muito de samba, nada melhor do que saber algo mais do que a merda que os jornalistas atuais despejam nos nossos ouvidos, não bastasse o samba ruim. Um grande compositor daqui do sudeste fez um samba cuja letra já dizia, décadas atrás: “A Bahia é terra boa, ela lá e eu cá”. O buraco é mais ao sul, e espera-se que o baiano não vatapá... Segue-se um apanhado sobre o samba paulistano, que escrevi no começo do século 21, logo, desculpem as desatualizações, a meu ver, desnecessárias. 

Nas primeiras duas décadas do século a música popular ainda se confundia com a erudita no Brasil e no estado de São Paulo. Os nomes conhecidos eram os dos pianistas Zequinha de Abreu (Tico-Tico No Fubá e Branca) e Marcelo Tupinambá, além do violonista Américo Jacomino, o Canhoto. Este último era especialista em “malabarismos” como tocar com o violão nas costas e seu maior sucesso foi a valsa Abismo de Rosas.  No final da década de 30, a rádio Record de São Paulo fez um convênio com a rádio Nacional do Rio de Janeiro formando a então chamada “Frota Carioca”. Grandes nomes da MPB vinham se apresentar em Sampa, e a rádio Record antecipava - em rádio - sua participação na vida musical brasileira. Mais tarde - como TV Record - ela realizaria grandes festivais. Destaques também para Garoto (Aníbal Augusto Sardinha) e Dilermando Reis, este último natural da cidade paulista de Guaratinguetá. As composições de Garoto tinham uma sofisticação harmônica que apontava para o futuro da MPB nas décadas seguintes, com a eclosão da Bossa Nova.  Mas foi Adoniran Barbosa o grande cantor-poeta paulistano, a antena que captou a natureza do sotaque “italianizado” dos imigrantes com a semi-alfabetização dos pobres. Ele e o conjunto Demônios da Garoa começaram a atuar juntos, e o grupo passou a ser seu mais constante intérprete. As músicas Malvina e Joga a Chave foram premiadas em concursos carnavalescos de São Paulo.   Mesmo sendo um bairro de descendentes de italianos, o Bixiga não sabia que naquele mesmo tempo (1954) na Itália acontecia um encontro que iria repercutir para sempre no samba feito em São Paulo. Chico Buarque de Hollanda, morando em Roma, era apresentado a Vinicius de Moraes e em 1955 volta ao Brasil, mais exatamente para o bairro do Pacaembu, em um casarão na rua Buri, em São Paulo. Na primeira metade dos anos 50, um ilustre desconhecido também tinha se mudado para Sampa, vindo da vizinha cidade de Campinas, e já tocava na noite paulistana, além da participar de programas na rádio Bandeirantes e Gazeta como solista de violão: Paulinho Nogueira. Em 1959 Paulinho gravou seu primeiro LP pela CBS. Já dava aulas de violão, e entre seus alunos, já em 1960 estava um tal de Antônio Pecci Filho. Este aluno não se contentava em apenas aprender a tocar violão. Estudou harmonia com Edgard Gianullo e sofria influências de Baden Powell, além de ser amigo do grande Oscar Castro Neves. Seu apelido era Toquinho. Toquinho começou a fazer parte de um time paulistano - ou que pelo menos morava em Sampa - digno de ameaçar a liderança do Rio no campeonato musical brasileiro: Elis Regina, Zimbo Trio, Marcos Valle, Taiguara, Ivete, Tuca, Geraldo Cunha e Chico Buarque. Todos se apresentando no palco do Teatro Paramount, sob a direção do radialista Walter Silva. Toquinho cultiva a amizade com Chico que começou aos 17 anos, época em que compuseram juntos a canção Lua Cheia, a primeira melodia de Toquinho a receber uma letra. Chico publicava suas primeiras crônicas no jornal interno do Colégio Santa Cruz, já sonhando com sua futura carreira como, quem sabe, escritor. Na década de 60 São Paulo já era profissional no roteiro do samba. Sílvio Mazzuka, Totô, Walter Wanderley, Pocho e Léo Peracchi já eram conhecidos nos meios cariocas. Em 1963 Chico entra na Faculdade de Arquitetura da USP, curso que abandonaria três anos depois. Um dos motivos para a decisão é o clima de repressão que tomou conta das universidades após o golpe militar de 1964. Apresentou-se pela primeira vez como cantor, em um show do seu ex-Colégio Santa Cruz, cantando Canção dos Olhos. A música Tem Mais Samba é também deste ano. Em 1966 é lançado pela Fermata um LP instrumental: O Violão de Toquinho, e o autor assinava contrato com a TV Record para participar do programa comandado por Gilberto Gil chamado Ensaio Geral. De 1965 a 1967 Paulinho Nogueira era também contratado pela TV Record para ter atuação fixa no programa O Fino da Bossa e lança seu primeiro sucesso nacional, a música Menino Desce Daí. Lança também em 1968 aquele que seria o método de violão mais conhecido no Brasil por mais de uma década: Harmonia Para Violão, atualmente com mais de 20 edições. Paulinho Nogueira conseguiu em 1969 unir suas duas paixões - desenho e música - criando o design de seu próprio instrumento: a Craviola. A fábrica de instrumentos Giannini se interessou pelo projeto e passou a produzi-lo em escala. Os pedidos começaram a chegar até do exterior, e a Craviola - reunindo os timbres do violão, da viola caipira e do cravo - é até hoje um instrumento procurado pelos violonistas exigentes. A exportação veio também para sua composição Menina, que alcançou o primeiro lugar nas paradas de sucesso em todo o Brasil e foi muito executada pelas rádios da Itália e França, em 1970. Neste mesmo ano retorna ao Brasil vindo da Itália Chico Buarque, que imediatamente lança Apesar de Você, que depois de vender 100 mil cópias é censurada pelo regime militar e os discos são apreendidos das lojas. Em junho deste mesmo ano Vinícius de Moraes convida Toquinho para acompanhá-lo ao violão em shows na boate La Fusa, em Buenos Aires, junto com a cantora Maria Creuza. Esse encontro continuaria por mais 11 anos, 120 canções e 25 discos, além das históricas participações nos chamados Circuitos Universitários, shows realizados nas universidades de todo o país. Em 1978 Carlinhos Vergueiro participou da gravação do LP Toquinho Cantando, lançado pela Philips. Estavam se juntando aqueles que formariam o embrião do samba paulistano moderno. Em 1979 Paulinho Nogueira e Chico Buarque vão para Cuba participar do Festival Internacional de Países do Caribe, no mesmo ano em que Toquinho e Vinícius comemoravam 10 anos de parceria lançando também pela Philips o LP Dez Anos de Toquinho e Vinicius. Em 1981 se reuniam Beth Carvalho, Zeca Pagodinho, Jovelina Pérola Negra, Mauro Diniz, Pedrinho da Flor, Elaine Machado e outros sambistas dando origem à roda de pagode que mais tarde se espalharia por todo o país. Haviam duas opções então na noite paulistana: a região de Pinheiros, mais instrumental, e a região do Bixiga, mais popular, e seus bares com música ao vivo cantada.  O circuito do samba passava pelos bares Hipnose, Rufus, Chopapo e Barracão de Zinco, dentre outros. Ali já tocavam Mário e Hoody do Katinguelê, na sua primeira formação em 1984. O radialista Moisés da Rocha, conversando com Leci Brandão em 1987 no programa O Samba Pede Passagem já elogiava o trabalho do Katinguelê que começaria sua carreira gravando a música Um Doce Sabor, primeira do lado B da coletânea que o bar Chopapo lançaria sob a produção de Moisés e Adilson Victor. Mais ao extremo oeste da capital paulista, na COHAB de Carapicuíba aos sábados, quando o samba tinha tempo pra rolar, Nenê, Wagninho, Claudinho, Feijão, Netinho, Chambourcy, Ari, Lino e Fabinho se reuniam para formar outra banda que mais tarde estaria nas paradas de todo o Brasil: o Negritude Júnior. Confiantes na qualidade de sua música, inscreveram-se e ganharam o primeiro lugar num concurso promovido pela escola de samba Camisa Verde e Branco. O grupo acabou gravando duas faixas em uma coletânea do concurso: Triste Andança e Algo de Valor. Daí para gravar pelo selo independente Zimbabwe o LP Jeito de Seduzir foi um pulo. No Bixiga, foi inaugurado o Café Piu-Piu e dezenas de outras casas com música ao vivo. Em frente ao Vou Vivendo (em Pinheiros) abria o hoje renomeado Bar Avenida, conhecido por seus bailes e eventos dançantes, alguns deles já movimentando os casais com o pagode. Da distante cidade mineira de Uberlândia já chegavam em 1989 os acordes diferentes do Só Pra Contrariar. Chegávamos à decada de 90, o Plano Cruzado tinha congelado o preço da cerveja bem gelada, instrumento essencial do pagode, e daí para chegar ao aparecimento das primeiras grandes bandas de pagode veiculadas na televisão e descobertas pela indústria fonográfica se passaram menos do que dez anos. O Katinguelê, nitidamente influenciado pelo Fundo de Quintal, lançou em 1991 um trabalho independente chamado Bem No Íntimo. Veio a segunda coletânea do Chopapo e junto o sucesso Primavera de Nós Dois, vendendo o dobro da primeira coletânea. De olho no lance, a Continental East West relançou os dois primeiros trabalhos independentes da banda. Em 1992 houve um festival na cidade de São Bernardo do Campo - no chamado ABC paulista - e os vencedores foram os ex-bancários, metalúrgicos e pedreiros que se reuniam em outra roda de pagode e foram descobertos pela gravadora Kaskata’s: o Exaltasamba. A música que tirou o grupo do Anonimato foi Deixa Como Está, batizada pelos fãs de Melô da Padaria. Enquanto isso, na zona leste surgia mais um grupo com o nome de Sob Medida. A medida não era lá muito certa, pois seus integrantes descobriram que já havia um outro grupo na cidade de Campinas com este mesmo nome. Como eram fãs de Djavan, e sabiam que em São Paulo também rolava samba, tiraram de uma música do primeiro outro nome - Soweto - e gravaram duas edições da coletânea Sampa Dá Samba, em 1994, provando que paulistano também faz samba. O pagode começava a pegar. Em 1995 o Exaltasamba assinava contrato com a EMI-Odeon e no ano seguinte gravavam o CD Luz do Desejo, já vendendo meio milhão de cópias. A Continental respondia com o álbum No Compasso do Criador, terceiro trabalho do Katinguelê gravado nos shows realizados nas casas de espetáculo paulistanas Palace e Mistura Brasileira, do Tatuapé. Em 1997 a EMI-Odeon contra-ataca com o Exaltasamba vendendo um milhão de cópias do seu Desliga e Vem. Salgadinho no Katinguelê já fazia sentir suas influências de Zeca Pagodinho, com quem gravou sob os arranjos de Mauro Diniz. Misturas diversas como o sax de Elias Maria já davam o formato moderno ao samba de partido alto “importado” do Rio de Janeiro. Mas o grupo revelação de 1997 foi o Soweto, com Refém do Coração, logo depois da banda perder um de seus fundadores - Robson Buiú - tragicamente morto em um assalto. Com melodias mais leves como em Mundo de Oz que homenageia a cidade de São Paulo, o Soweto também dava espaço para outros compositores em seus trabalhos. Em troca, Claudinho de Oliveira - do Soweto - já contava com músicas gravadas pelo Biro do Cavaco, Katinguelê, Sem Compromisso e Um Toque A Mais, dentre outros. Salgadinho - do Katinguelê - faz por sua vez parceria com Prateado, produtor do Sensação e integrante do Kiloucura  em Pra Nunca Mais Dizer Adeus. O troca-troca-samba é geral...

3 respostas para “A Bahia é terra boa. Ela lá e eu cá...”

  1. Jatene Jr Disse:
    Saulo Wanderley,
    Desculpa aí, querido, mas a história que a gente sabe do samba paulista é outra, meu bem, o negócio é como o Oswaldinho da Cuíca mostrou já numa série da benfazeja TV Cultura, e Eu até dei o mote ao amigo Antonio Parlato, da Dr. Chico, onde o colega Dum de vez em quando dá uma colaborada.
    Nosso samba irmão, é samba de engraxate, vem da ladeira da Memória, nosso primeiro espaço de cultura popular, de lá então com a nossa batucada subiu pelo trem da cantareira jogando aquele jogo de derrubar no samba que se chama tiririca, e subindo se levou no trem da Leopoldina que hoje não anda mais , mas de vez em sempre se lembram de religar porque faz parte da nossa memória paulista.
    Outra coisa, no samba Menino, Luiz Melodia faz uma presença-homenagem à fama do nosso samba paulista que por ter sua raiz na batida dos engraxates da Ladeira da Memoria, ficou com a fama de batida forte que derruba, esse então é o jogo da tiririca, que se sabe : " tiririca vem lhe derrubar".
    Então, amigo , nesse samba ele Negro Gato canta;
    "Deixa o Menino jogar"
    O Menino é bom , ele é esperto e pode lhe derrubar
    Deixa o Menino
    Deixa o Menino jogar..."
    pois é, Luiz é filho de Osvaldo Melodia...
    + o Chico falado da história é filho do Sergio que teve como orientador nosso grande líder e mestre , hoje realmente na ordem fantasma , Gustavo Barroso, que sabe que eles são oportunistas, qua nada criaram , e que apenas se apropriaram da cultura brasileira ; a popular e devolveram com o comuno petismo de que são fundadores e estrelinhas.
    O proprio citado Vinicius era integralista, diplomata e alcoolatra e o Chico fez contato com eles quando o Vinicius começou a demonstrar os efeitos do alcool, aí então entrou na história e roubou o Brecht com a Opera dos 3 Vintens e depois armou outras situações como playboy que é, mas do qual sou adversário, e provo que na verdade quem tem a ver com a real musica pop brasileira é Luiz Melodia.
    Outra coisa, Demonios da Garoa identifica S.Paulo, mas no Rio tinhamos os Anjos do Inferno; e de onde veio essa tradição, da Diabos do Céu, a primeira banda de Pixinguinha, quando tocava sax e depois preferiu a flauta para seguir.
    O motivo de tudo isso é que a antiga capital nossa era o Rio de Janeiro, que alem de tudo tem um nome que rima com brasileiro.
    Ora, quando mudaram a capital para o planalto e deram a Niemeyer o projeto, estavam jogando na mão dos comuno-petistas o país, com seus Buarque de Holanda e Niemeyers e Lulas, que fizeram impermeabilizar nossos solos , inclusive na nossa gloriosa e heróica Barra Funda.
    Mas, nossa herança vai muito alem de divisões e disputas entre S.Paulo e Rio, porque Chico comemora com Niemeyer e aquela juiza corrupta no Canecão, é lá que está seu natural publico.
    Enquanto que Luiz Melodia encontra igualdade de modo integral no pop de primeira linha em trabalhos de nomes como os de Boz Scaggs , pelo lado musical arranjador.
    Que Eu saiba nossa maior memória está com Osvaldinho da Cuíca, que conheceu o Adoniran, o Paulinho Nogueira inventor da craviola, que o Jimmy Page tem uma, pai da Juju que foi do Made in Brazil que gravou samba tambem e tudo...e conheceu tambem o Adoniram, os Demonios e fica aí uma presença de uma história que sempre têve gente de S.Paulo junto, mas que é a integralidade do Brasil.
    Abrax
  2. Dum Disse:
    Saulo,uma vez o Marsicano me disse que, em um insight divino, segundo ele, que entendeu que o som do Hendrix tinha a ver com viola caipira, especialmente na música Fire. Quem sabe o Canhoto tenha sido uma parte doa inspiração para ele colocar sua amante nas costas. Na TV Cultia cheguei a gravar musicais com João Nogueira, Toquinho, Gil, e outros (as) sambistas. Isso no início dos anos 1980. Muito boa a matéria, uma aula. Mas a ignorância musical não rola apenas no carnaval. Em época de Rock in Rio - que nem tem mais aqui ouvi absurdos da imprensa em pela cobertura. Tipo Kurt Kobain morreu de overdose e Ozzy cantou no Purple.

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