sacred trickster - santiago do chile
Sempre preferi o Sonic Youth ao vivo pela pegada do seu noise rock com filosofia punk, como pude comprovar no Claro Que é Rock, em 2005, que os discos. De todos os seus trabalhos, "Daydream Nation", 1988, "Goon", 1990, e "Dirty", 1992, talvez sejam os que mais sintetizem a força das experiências sonoras que a banda faz ao misturar pós punk off mainstream com linhas melódicas bastante criativas e peculiares. Formado em Nova York, em 1981, foi um ícone da cultura alternativa americana por um bom tempo. Apesar de ter alcançado certo sucesso de público, seu som sujo, de guitarras distorcidas e arranjos nada deglutíveis para a maioria, sempre o colocou no topo das grandes bandas do rock americano. Da formação original restam Thurston Moore, guitarra e vocal, a sensacional, baixista, guitarrista, compositora e vocalista Kim Gordon e Lee Ranaldo, guitarra e vocal. Steve Shirley é o atual baterista. "The Eternal", Cd de 2009 que já caiu na rede e, de acordo com o site da banda - http://sonicyouth.com/mustang/lp/index.html - estará nas lojas em junho, termina com um hiato de três anos após "Rather Ripped", de 2006, e resgata os melhores dias dos barulhentos novaiorquinos, que bem que poderiam tocar aqui ainda esse ano. Enquanto Santiago do Chile teve seu show, em março último, nós ficamos a mercê de produtoras que preferem apostar em bandas decadentes como o Depeche Mode, que ressuscitou da tumba com seu mais recente álbum, "The Sounds of Universe", um synth pop démodé e datado.

Vamos ao noise. "The Eternal" passa, de cara, uma mensagem às bandas novas que se perdem no segundo ou terceiro trabalho, emparedados por guitarras pasteurizadas e sem alma, e pensando mais em ser o hype do momento, do que criar uma carreira consistente: Envelhecer com classe produzindo uma música de qualidade e sincera. O disco é com certeza um dos mais elaborados trabalhos do SY, segundo a própria banda. As melodias dividem espaço com os experimentalismos característicos do grupo, como os vocais compartilhados entre Kim Gordon, Lee Ranaldo e Thurston Moore, acompanhados de perto por Steve Shelley na bateria e marca também a "estréia" de Mark Ibold - ex-Pavement - como segundo baixista oficial da banda. Tem um pouco de tudo, heavy, colagens de sons que remetem a um patchwork de informações sonoras, mensagens cheias de ruídos com sentido. E guitarras, muitas guitarras. "Sacred Trickster", a faixa de boas vindas, é bem punk rock e ganha um motivo a mais com a voz de Kim - What's it like to be a girl in a band?/I don't quite understand/That's so quaint to hear/I feel so faint my dear/ Doing nothing, sitting around/Sacred trickster in another tight sound - demonstrando que as letras tem um peso bacana na música dos Youths. Já "Anti-Orgasm" tem guitarras bastante orgânicas, uma muralha que segura os picos de bateria e uma organização perfeita de um pseudo barulho. Parece uma coluna de tanques indo à batalha e despejando fogo. A terceira canção é mais calma. "Leaky Lifeboat (for Gregory)" lembra Iggy Pop do Stooges, aquele jeito de cantar, backings bem colocados e nada de exageros, menos noise, mas bem elaborada, quase um King Crimson aos 2:56 min. São influências sinceras, das boas, que o Sonic faz brotar em sua arte.

Bem tranquila, quase como uma brisa de outono, começa "Antenna", bem simples, na forma exata de uma balada fora do comum, gostosa, com personalidade, linguagem própria. Ranaldo canta, uma guitarra rasga o ar e se expande num solo denso, um completo sentimento mágico como a letra diz. Que raiva dos incompetentes que não trazem a banda pra cá!!! "What You Know" é uma viagem, tem psicodelismo cru e uma base que se moldou no noise hard de guitarras descabeladas, muito. Talvez a melhor do álbum. Um baixo bem marcado, a guitarra cresce e se acomoda na cozinha com primazia. De novo o baixo compassado abre a porta para as guitarras cruzadas em "Calming The Snake", perfeita para a voz da já veterana Kim Gordon, que não perdeu a gana pelo rock and roll. O Sonic Youth é uma grande banda porque, essencialmente, é um grupo que privilegia a criatividade e as guitarras, itens indispensáveis ao rock e hoje tão esquecidos pelos indies. Daí em diante vem "Poison Arrow", bastante iggypopiana, mas sem perder o calor e as pedaleiras características das Stratos e Gibsons a todo vapor. Linhas de guitarras bem diferentes e próprias do SY. "Malibu Gas Station" destoa um pouco do trabalho, é um pouco longa e repete partes inteiras na evidente mixagem. As três últimas são a cereja do bolo. "Thunderclap (For Bobby Pin)" tem uma letra bem humorada e talvez o melhor solo, o mais longo, do Cd. Desgaste total nas cordas, noise com consciência, rock puro. "No Way" e "Walking Blue" levanta qualquer cansado da vida. A primeira até pode cair bem no dance floor, a segunda é uma experiência quase elemental, bem sedimentada nos melhores sentidos climáticos das baladas barulhentas do Sonic Youth, um grupo místico. Anyway, "The Eternal" é um discasso que não faz concessões para as bobagens hypadas e mostra quem manda na área do rock alternativo.


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6 May, 2009 às 6:53 PM Uebaaaaaaaaaaa....eles de novo, e que bundões os nossos empresários.
7 May, 2009 às 9:40 AM É um absurdo eles tocarem no Chile e nem passarem pelo Brasil. Essa foi uma pisada na bola, mas não acho o Depeche Mode ruim.
7 May, 2009 às 10:17 AM Concordo plenamente contigo, Dum, querido! Fiquei pasmen em como uma banda, diferentemente do que temos observado na cena musical atual, consegue envelhecer com tamanha classe como o Sonic Youth (aliás, a definição está perfeita), salvo algumas exceções, claro! Sou até suspeita para falar algo que se refere ao grupo, visto que sou fã de carteirinha dele.
Realmente este disco é um dos trabalhos mais elaborados do Sonic Youth, diversificado, porém sem perder a coesão! "Leaky Lifeboat" e "Antenna", sem sombra de dúvidas são as faixas mais belas de "The Eternal" (em minha humilmde opinião, claro... rsrsrs).
Parabéns, Dum, mandou muito bem no texto. Como de costume, sempre passando suas impressões de forma coerente e visceral, na medida certa, sem perder o foco!
Fluidez é seu nome... rsrsrs... sucesso sempre para vc, viu, meu amigo querido... ah, e para os integrantes do Sonic Youth tb, óbvio... uhahaha
7 May, 2009 às 11:45 AM Dum, o Sonic Youth consegue se manter fiel a sua música porque são de uma geração onde a arte e a palavra, a mensagem, eram mais valorizadas do que hoje. Esse disco é uma prova de que eles são os melhores do rock alternativo, muito confiantes e conscientes do que fazem. Não ficam dando chutes a esmo. "Antenna" já é um novo clássico dos inúmeros deles.
abraço
7 May, 2009 às 1:56 PM Pois é, Dum, envelhecer é saber controlar a piora das ressacas...Ou dar lição de moral baseado em tudo aquilo que não se fez!
Abração
8 May, 2009 às 8:54 AM Ontem vi o show do Oasis e foi maravilhoso, fico imaginado o Sonic aqui no Brasil tocando seu barulho de bom gosto.
beijo
8 May, 2009 às 11:16 AM Dum, parabéns por ter sido um dos primeiros blogueiros que fez uma matéria sobre o excelente disco novo do amado Sonic Youth. Consegui baixar o mp3 e você acertou na mosca na sua análise precisa e carregada de uma visão clara do significado e importância deles. Com certeza mandaram muito bem fazendo um CD que pra mim dos que ouvi é um dos mais legais do ano. É muito bem elaborado mesmo e equilibrado. Parabéns pelas imagens do seu texto, sempre lúcido.
8 May, 2009 às 4:15 PM Para mim o Sonic Youth é uma das melhores bandas independentes ou alternativas do mundo. É isso mesmo, eles não são iguais a bandinhas indies, vê só o lixo do CSS que naufragou no segundo disco e fechou pra balanço, ainda bem.
9 May, 2009 às 1:46 PM Discordo da sua opinião sobre o Depeche Mode, achei o disco muito bom e nada demode mas o Sonic novo está fodão mesmo, muita diversidade.
11 May, 2009 às 9:53 AM O critério dos promotores é dinheiro e hype, no show do Radiohead a maioria da platéia nem sabia direito as músicas da banda, foi ridículo. Duvido que isso aconteceria no Sonic.
11 May, 2009 às 1:41 PM Muito barulho por nada, como diria Sheakespere. Sonic Youth se destaca porque as demais são arremedos de rock, só isso. Prefiro Oasis e as anteriores mais clássicas.
12 May, 2009 às 12:17 PM Eu não gosto dessa banda, sua matéria mas uma vez é muito boa, mas infelizmente não posso dizer nada de bom ou de ruim e concordo com o Paulo Batera, também prefiro o Oasis.
Beijos
Lia
12 May, 2009 às 1:57 PM Do cacete o Cd, mas ainda sou mais o Goo pra mim o melhor deles. Dum, iggy comes back.
14 May, 2009 às 11:25 AM Alguém acha que os bostas dos promotores vão trazer alguma coisa tipo Sonic Youth, eles preferem se garantir com o Depeche Mode cheio de teias.
14 May, 2009 às 3:05 PM É claro que o Sonic Youth e é muitooo melhor. Adorei o disco li aqui e fui conferir valeu a dica.
14 May, 2009 às 5:33 PM Nãoooooooooooooooo..acabo de ler no Folha on line que vão trazer os mega chatos do U2 e o Bon Jovi...
16 May, 2009 às 2:20 PM Realmente, alguém poderia se mobilizar e trazer o Sonic Youth para cá novamente.Resta-nos ( por enquanto ) curtir este novo trabalho que mais uma vez prova porque a banda é a melhor entre os indies.
18 May, 2009 às 1:55 PM Não adianta reclamar porque os empresários visam lucros e o Sonic Youth não dá lucro, não está sempre disponível e talvez nem queira vir até a América do Sul de novo.