O documentário Patti Smith - Dream of Life, que está em cartaz na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, reflete, com nitidez, a alma e a arte dessa artista voraz, talentosa e combativa. Em sua carreira autêntica e produtiva lançou 11 discos e 12 livros. Visceral em seus poemas e músicas, Patti continua uma militante ativa e incansável. Critica com toda força, como fazia nos anos 1960 contra a guerra do Vietnã, à invasão do Iraque, à política israelense contra os palestinos e às leis aprovadas na América para diminuir os direitos individuais a pretexto de combater o terrorismo. A cinebiografia é um projeto da artista com o diretor Steven Sebring, que levou 11 anos seguindo Patti pelas estradas do mundo em busca de um registro profundo de uma mulher que ele define como "uma pessoa diferente de qualquer outra que já conheceu". Narrado pela própria, o filme faz um apanhado corajoso da sua existência, mostrando uma mulher que define a vida como uma "experiência esmagadora". Fala da sua poesia, de sua música, de arte, da cena do falecido clube CBGB em meados dos anos 70 e da família e amigos. Sempre intensa, seu perfil a puxa também para a geração dos anos 60, sua amizade com William Burroughs, Allan Ginsberg, e sua eterna devoção a Arthur Rimbaud, Willian Blake e Jackson Pollock. Maior poetisa premiada do rock de todos os tempos, influenciou, e ainda influencia, muita gente. Sua expressiva e feroz presença de palco, transformou-a em uma lenda dos punk rockers, como uma Shaman invocando a luz e a magia. Quem foi ao show no TIM Festival de 2006 pode comprovar.
Ela namorou Tom Verlaine, do grupo Television, o fotógrafo Robert Mapplethorpe e casou-se com Fred Sonic Smith, guitarrista do MC5. Fez teatro, recitava poesia em Nova York acompanhada por músicos, e naturalmente caminhou para a música, estreando em 1975 com o álbum ''Horses'', produzido por John Cale, ex-Velvet Underground. Assisti ao filme em casa depois de baixá-lo - http://www.mininova.org/search/?search=+dream+of+life - e pude ver uma Patti ainda com muita energia, se desnudando em toda sua pluralidade. Com uma fotografia 90% PB, filmado de forma densa e climática que lembra cinema expressionista alemão, "Dream of Life" é repleto de trens, paisagens, reflexões e música. A artista, que nasceu em 1946 em Chicago, revela uma alma sincera e completamente mergulhada na arte e na consciência de pertencer a um mundo confuso. Seus dois filhos, seus pais, o "espírito da morte que continua depois com a celebração da vida", constroem e desconstroem todo seu amor por Nova York e pontuam sua arte. Eu, que sempre vi Patti como uma personagem misteriosa e impenetrável, gostei ao vê-la no convívio com os filhos, a sua solidão quântica, o seu bom humor reservado e sua câmera Polaroid inseparável.
"A vida é uma linha horizontal ou vertical, nem o universo é ordenado, essa é a real beleza", diz Patti em sua narrativa basicamente poética. Sua impressão sobre a vida e o movimento das cidades - Tókio, Jerusalém, NYC, etc - é como "o interior do espírito de uma selva. Surpreendente, vivo e pulsante". Através de suas palavras e poemas fica nítido que ela se expressa com a química do artista, que afirma com a liberdade revisitada, a redefinição do espaço, a emergência de novas vozes e atitudes. "É assim que me expresso, sob a forma do rock and roll", diz, rindo ao afirmar que admira Maria Callas e Billie Holliday. Ao ver uma das minhas artistas preferidas confessando que nunca se imaginou cantando em um grupo do rock and roll, que isso não fazia parte do seu universo, fez crescer a vontade de gostar ainda mais dela. Porque uma lenda REAL do rock sempre é isso. Simples e densa como sua arte, que fala por si. Flores no túmulo de William Blake, fotos em profusão, trens pelo mundo, um show ao vivo tocando "My Generation", do The Who, enquanto intima a nova geração para ter mais postura política enquanto um moicano boquiaberto na platéia vê a fúria do rock de Patti. Ela grita: "vocês jovens, essa é a sua geração, mobilizen-se contra George Bush", No War! Ela e suas botas.
Fala sobre suas perdas pessoais, do marido e irmão mais velho, o que a encorajou ainda mais a seguir na vida, emociona. "Banzai, banzai, melhor escrever do que morrer". Patti e seus chapéis, seus sobretudos. Dançando na praia e pintando uma tela enquanto comenta Picasso e Pollack. Fala sobre cores e mensagens. Recita com Phillip Grass ao piano. É feroz ao detonar Bush pela guerra, por New Orleans, por tudo, e conta como Bob Dylan a convenceu a retornar aos shows nos anos 1990, depois de seis anos recolhida. O diretor Steven Sebring, que estreou a película no Sundance Festival desse ano, foi feliz ao ligar a câmera e seguir Patti em seus momentos simples, profundos, tristes, alegres, rockers, ativista, avassaladora, furiosa, filha e mãe. É um filme de arte, não um documentário que narra à carreira de uma artista emoldurando seus feitos. Mas um mergulho na alma de uma guerreira fiel a sua idéias e completamente inserida, como o também genial Neil Young, no mundo contemporâneo do virtual impessoal. Patti é um alerta para a urgência que existe neste mundo. "Tudo hoje nos é apresentado num formato digerível, acessível ao apertar de um botão".


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27 Oct, 2008 às 4:26 PM Patti é a grande poetisa do rock, uma grande figura que sempre prezou seus princípios e ideais. Filme indispensável para quem gosta do real rock and roll.
27 Oct, 2008 às 5:10 PM Gostei bastante da matéria e do vídeo aperitivo do filme. Patti,Lou Red, Iggy Pop, Bowie, MC5,Ramones, todos eram da mesma turma lá em NYC nos anos 70. Fora o Ramones continuam atoda fazendo o bom rock. Essa mulher sempre foi considerada cima da média, letras com conteúdo e alma, como vc salienta.
27 Oct, 2008 às 6:20 PM Muito interessante esse documentário que mostra o outro lado do rock n roll. Fiquei emocionada vendo que a Patti Smith é uma pessoa muito simples bem humorada e não tem nada da punk bissexual que era a imagem que eu tinha dela dos anos 70.
O diretor Steven Sebring fez um trabalho com imagens lindas e suaves mostrando o lado mais terno, doce e poético de quem definiu a vida como "Uma Experiência Esmagadora",a melhor definição que já ouvi.
Grande filme ,que me fez admirar mais uma figura de quem eu já gostava muito.
Imperdível.
Beijos
Lia
27 Oct, 2008 às 7:51 PM Também fiz o dowload do filme e a forma como escreveu foi muito bem elaborada, curta e bem objetiva. Adorei em especial essa parte: "Porque uma lenda REAL do rock sempre é isso. Simples e densa como sua arte, que fala por si. Flores no túmulo de William Blake, fotos em profusão, trens pelo mundo, um show ao vivo tocando "My Generation", do The Who, enquanto intima a nova geração para ter mais postura política enquanto um moicano boquiaberto na platéia vê a fúria do rock de Patti. Ela grita: "vocês jovens, essa é a sua geração, mobilizen-se contra George Bush", No War! Ela e suas botas." Mas eu achava que ela era no mínimo bisexual, será quenão é????
abraço
28 Oct, 2008 às 12:05 PM Patti sempre carregou uma aura de magia e mistério mesmo. Sua figura estranha e sempre meio escondida passava a impressão de metida, mas pelo que está escrito na matéria parece não ser nada disso. Ela é maravilhosa e o show do TIM que fui foi incrível, o melhor da edição daquele ano. Agora o TIM traz porcarias..
28 Oct, 2008 às 5:11 PM Fala mestre,Dum, meu professor de produção de rádio em 98...achei seu blog que o Lincon me indicou, lembra dele, era da mesma turma. Nunca me esqueço das brejas depois da aula, e às vezes durante.rss. Ótimo texto o seu, Patti Smith é uma lenda mesmo, um ícone com integridade que não se vendeu ao mercado do fraco rock que se faz hoje. Ainda tem o programa na Rádio USP?
beijo
29 Oct, 2008 às 3:30 PM Easter é um dos melhores discos da história do rock, une poesia e furor de forma quase incomparável. Patti não poderia apenas restringir seu trabalho a poesia e liga-lo ao rock foi maravilhoso. Com personalidade, tenacidade e trabalho ela é a maior lenda do rock, sem dúvida. Já estou baixando do link e espero ansioso para ver.
29 Oct, 2008 às 8:18 PM A cinebiografia é mesmo fantástica. Sebring realizou um trabalho primoroso, conseguindo tirar da introvertida personalidade da artísta momentos delicados, ferozes, especilamente nos mais íntimos. Quem poderia imaginar a agitada Patti gentilmente mostrando a roupa do filho ou na companhia dos país, como qualquer mortal. Sim, Patti Smith é como todos nós. O diretor fugiu ao lugar comum e foi direto aonde interessa, um e-mail direto pro céu. Parabéns pelo excelente texto que retrata com talento e exatidão o filme.
30 Oct, 2008 às 5:53 PM Dum, o show da Patti aqui foi do cacete, lembro que te encontrei nesse dia, no TIM de 2006 se não me engano. Não gosto de fazer comparações, mas lendo a matéria fiquei pensando qual cantora parece com ela hoje em dia, tanto na música como na atitude. Ai me vem a cabeça lixos como a Britney Spears, a Paris Hilton e aquela menininha loirinha que veio tocar no Pacaembú há uns 3 anos. Rock and roll real mesmo é toda a arte dessa maluca que foi casada com o cara do MC5, essa não sabia. Também lembrei o Page e Plant que fomos no Pacaembú quando o Black Crowes abriu.
beijo
31 Oct, 2008 às 11:56 AM A lenda viva Patti significa todo o espírito do rock and roll que é forjado pelo inconformismo e por atitudes, longe das posturas babacas, alienadas e bem comportadas dos grupos de hoje. Temos a alma do Stooges, MC5, Ramones, Electric Prunes, Ventures, e tantos outros como até Ravi Shankar que se mixava com esse povo para protestar. Hoje a acomodação das bandas remete ao cansaço de um mundo apático que se desmancha em uma crise. Rock nunca foi coisa de perfumados e limpos, mas de gente com gana de quebrar guitarras como Hendrix e Tonshend e tocar de verdade.
31 Oct, 2008 às 3:44 PM O filme é do caralho!!
31 Oct, 2008 às 3:48 PM Patti Smith pode tachada como uma perfeita encarnação do ideário punk! Não só no que se refere ao estereótipo associado ao gênero, mas sim à ética no discurso contestatório inerente ao punk. Com uma carreira iniciada com o emblemático álbum Horses - um marco filosófico na história do punk rock, ela ainda consegue angariar respaldo intelectual ao gênero, em razão da ponte que há tempos promove entre a vanguarda estética e a tradição iconoclasta do rock'n'roll. Ela vale mais do que tudo o que se produz hoje revestido de punk mas que tem qualidade e personalidade zero. Não vi o filme mas gostei da matéria e segurei seu link.
2 Nov, 2008 às 11:27 AM Patti, a eterna poetisa do rock, horses,ester e todas as maravilhosas letras eternizadas pelo cinema.
2 Nov, 2008 às 6:40 PM HÁ MAIS COISAS ENTRE O CÉU E A TERRA , DO QUE DESCONFIA A NOSSA VÃ FILOSOFIA...
http://br.youtube.com/watch?v=8m41LJoLqOY
PODE CRER, MAIS, MUITO MAIS...:
http://br.youtube.com/watch?v=xdk8IlFFNCI
3 Nov, 2008 às 4:08 PM Dr, muito legais os vídeos. Zébama é ótimo.
4 Nov, 2008 às 3:56 PM Patti, caminhando pela vida como um cavalo veloz, fazendo poesia e destilando rock.....linda Patti
5 Nov, 2008 às 12:03 PM Hilários os vídeos do Jatene!! Mas não entendi o que tem a ver com a matéria já que deixou os mesmos links em outro blog...
6 Nov, 2008 às 5:19 PM Todos já falaram o que a Patti significa para a arte, mas Dum, te parabenizo por pautas bacanas e consistentes. Faz tempo que leio seu blog, desde a reformulação do site, mas só uma vez, faz tempo, havia deixado uma mensagem. Você é um dos críticos que sabem diferenciar o bom e o ruim. Não se deixou contaminar pelo "novo" rock, muito quantitativo e pouca qualidade. Lembro da matéria do pavoroso Bloc Party, que pelo que sei continua dando vexame na América do Sul. Abraço