Dynamite

Maio de 68 e a Internet devoradora

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Esse mês houve um rebuliço pelos 40 anos do maio de 1968. Um ano cheio de poder, aura e mito, quando se apertou o botão das transformações fundamentais na sociedade, na política e na cultura pop do chamado tempo contemporâneo. Pra mim, particularmente, que cresci e aprendi a viver no denso ambiente hippie nos anos 70, tudo é uma conseqüência disso. Sim, porque os seventies também foram bastante hippie. A relevância do maio de 1968 se materializa e se formata em tudo o que veio depois, até hoje.

Enquanto uma violenta repressão policial amparava o regime militar e a censura no Brasil, os Estados Unidos chafurdavam na guerra no Vietnã e se chocavam com o assassinato do líder negro Martin Luther King Jr. Na Europa, movimentos estudantis assolavam o continente ocidental, escorados pelo sonho do marxismo e pela sede de liberdade. 1968 foi um período de conquistas importantes que, até hoje, determinaram o novo mundo em que vivemos: Igualdade de direitos civis, a liberação sexual, o reconhecimento das lutas dos estudantes e da diversidade cultural. Um ano prolifero em reinvidicações que ajudaram a conquistar a liberdade e o policulturalismo que existem hoje.

Foram nas ruas de Paris, que milhares de pessoas, lideradas pelo estudante Daniel Cohn-Bendit, Dany Rouge (O Vermelho), participaram de manifestações, se degladiando com os policiais da Compagnie Républicaines de Securité (CRS), a tropa de choque francesa. Contudo, além das barricadas, coquetéis molotov e paralelepípedos arremessados contra a polícia, os manifestantes queriam mais do que simplesmente brigar. Com gritos e cartazes, reinvidicavam: "A imaginação ao poder", "Abaixo o realismo socialista", "Viva o surrealismo", "Ceder um pouco é capitular muito", "Consuma mais, viva menos" ou "A humanidade só será feliz quando o último capitalista for enforcado com as tripas do último esquerdista".  No Brasil, o Tropicalismo representou a liberdade criativa, o experimentalismo, a modernização da linguagem poética e musical, uma nova leitura de uma cultura brasileira marginalizada pela MPB, chata e repetitiva. Chega de banquinho e violão!  

                                                                      

Herbert Marcuse, intelectual e mentor dos estudantes, foi um dos principais defensores da revolta, que teve o apoio de artistas como os cineastas François Truffaut e Jean Luc-Godard - que incentivaram um boicote ao Festival de Cinema de Cannes. Maio de 68 inspirou a música dos Beatles, "Revolution", e dos Rolling Stones, "Street Fighting Man". Aqui, em terras tupiniquins, um dos vômitos de maio de 68 foi dado por Caetano Veloso e Gilberto Gil em "É Proibido Proibir". A canção foi vaiada ao extremo pelo público, no Festival Internacional da Canção, provocando o irado e raivoso discurso de Caetano:

                                           
"Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder! Vocês têm coragem de aplaudir este ano uma música que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado! São a mesma juventude que vai sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem... Vocês não estão entendendo nada, nada, nada. Absolutamente nada!... O problema é o seguinte: estão querendo policiar a música brasileira. Mas eu e o Gil já abrimos caminho... Não fingimos aqui que desconhecemos o que seja festival, não. Ninguém nunca me ouviu falar assim, entendeu? Só queria dizer isso, baby, sabe como é? Nós, eu e ele, tivemos coragem de enfrentar em todas as estruturas e sair de todas. E vocês? E vocês? Se vocês em política forem como em estética, estamos feitos!"

                                                     Beatles - Revolution (1968)

                                                       

                             

Na música, 1968 não foi assim tão produtivo como 1967. Em 67 foram lançados álbuns clássicos como "Axis: Bold As Love", de Hendrix; "Surrealistic Pillow", de Jefferson Airplane; "The Doors", do Doors; "Sgt. Peppers Lonely Hearts Clube Band", dos Beatles; "Disraeli Gears", do Cream; "The Piper At The Gates of Dawn", do Pink Floyd e "The Who Sell Out", do The Who. Porém, foi em 68 que Os Mutantes lançaram "Os Mutantes". Bandas e músicos no auge da criatividade, surpreenderam com discos fundamentais como o "The White Album", Beatles, ou Jimi Hendrix e o revolucionário "Electric Ladyland". Esses dois trabalhos, considerados essenciais na história do rock, são apenas os primeiros de uma fila de ótimos discos que saíram em 1968 e permanecem relevantes até hoje. A eles somam-se, só pra citar, "In-A-Gadda-da-Vida", do Iron Butterfly;  "Cheap Thrills", de Janis Joplin com o Big Brother and Holding Company; "Bookends" de Simon And Garfunkel e "Astral Weeks", de Van Morrinson.

                                                                            
 

Enquanto o Led Zeppelin surgia e se preparava para ser a maior banda de rock de todos os tempos (de rock!!), a cultura hippie e os movimentos de integração da juventude, via rock, pop art, sexo livre e drogas, buscavam um novo entendimento do mundo. Ao mesmo tempo, o Festival de Cinema de Cannes, pela única vez na história, interrompeu suas exibições no meio de sua programação. Em 13 de maio, os cineastas Jean-Luc Godard, François Truffaut e Claude Lelouch, chegaram a Cannes para passar o espírito da revolta que acontecia em Paris. Dois dias depois, os diretores Roman Polanski, Louis Malle e a atriz Monica Vitti, que integravam o júri do festival, anunciaram sua adesão ao protesto. Para terminar, Milos Forman, Carlos Saura e Alain Resnais, que disputavam a Palma de Ouro, retiraram seus filmes da competição, fortalecendo o boicote. Quer dizer, sem os feras, não teve Festival!

É importante entender, que toda a revolta e o inconformismo da época influenciaram no comportamento e nas relações humanas das décadas seguintes, até hoje. Porque, através da mobilização e da revolta, se expandiram pelo mundo os ares das atitudes vanguardistas, fundamentais para difundir os novos valores e propostas. Desde o ano de 1968, até um mundo que hoje tem a sua disposição um mega aparato tecnológico que só vai aumentar, muito mudou. Especialmente na consciência coletiva e na forma de se comunicar. Nas décadas de 60 e 70 - tempos de Woodstock - a onda era o rock pensante, o LSD, a maconha e as comunidades. Acreditava-se que os princípios políticos e a vida comunitária podiam mudar o mundo. Buscar informação e conseguir discos e livros novos, poderia dar uma trabalho danado. Hoje, a maioria dos jovens não acredita nas mudanças realizadas pela mobilização conjunta. E o que é moderno e novidade hoje amanhã provavelmente estará ultrapassado. Além do mais, não se tem certeza de quase mais nada.

A internet e os meios virtuais nos deixam sozinhos, nos comunicado a distância com os outros. A comunicação rola de outra forma, em um mundo diferente, individualista e veloz, o mundo do ecstasy e das raves. É um novo conceito: estar junto sem estar presente, é o que acontece hoje. Acabou a obsessão voraz pela democracia e pela liberdade - toda hora éramos (mão na cabeça cabeludos maconheiros!) parados pela polícia. O que se percebe, é sim um consumismo avassalador em padrão global. As informações vêm rápido e vão mais rápido ainda, substituídas por uma mais legal, em tese.

                     
 

O filósofo e escritor Umberto Eco, em recentíssima entrevista, afirmou: "Esse é um de nossos problemas contemporâneos. A abundância de informação irrelevante, a dificuldade em selecioná-la e a perda de memória do passado - e não digo nem sequer da memória histórica. A memória é nossa identidade, nossa alma. Se você perde a memória hoje, já não existe alma, você é um animal". As redes de informação são tão distintas de movimentos como o maio de 1968 mas vieram para ficar. Os computadores, apesar de criarem essa plasmada fronteira invisível, fazem bem para os negócios, para a educação e para a diversão, mas os maiores benefícios e problemas ainda por vir, estão além do que nossa imaginação possa viajar.

Os estudantes franceses, Lennon, Jagger e Polanski, jamais imaginariam que suas atitudes e criações pudessem tocar e perpetuar a alma da nossa cultura, que hoje desfruta tanto da isenção de análise lógica, como da loucura permissiva e abundante da internet. Eco ressalta que, "Apesar de sinais claros de que a rede mundial de computadores não sobreviverá como uma estrutura monolítica de informação, a moda continua como uma força indomável a devorar tudo em seu caminho".1968, que com a sua ebulição ajudou a edificação da diversidade e do homem virtual, continua sendo um marco na história do homem. Desde as barricadas de Paris até a materialização do homem virtual, o rock sempre esteve presente através de bons discos e mensagens diretas. Como um catalizador e  amalgama que registra o tempo, ou o resultado e espelho do próprio tempo.  

                                                                                                     

17 respostas para “Maio de 68 e a Internet devoradora”

  1. Catarina Disse:
    Acho que o mais legal é saber como esse maio de 68 influenciou na vida que temos hoje, com suas conquistas ou as sementes plantadas por aquelas pessoas cansadas da sociedade estática e cheia de limitações. O rock, foi um fiel aliado e serviu de suporte ao movimento. Mas é muito interessante como já naquele tempo existia uma interatividade e comunicação entre os jovens e intelectuais. Hoje em dia talvez os jovens são muito individualistas e acho que não se envolveriam em movimentos que necessitassem de mobilização.
  2. aluisio Disse:
    O que mais me chamou atenção apesar da matéria estar muito boa foi o discurso do Caetano. Ontem um revolucionário com músicas boas e hoje um chato de galocha!!
  3. Erika Senra Disse:
    O movimento de maio de 68 para quem não sabe foi importante para o posicionamento político e existencial de toda uma geração, e conseqüentemente das geracões posteriores. Foi muito oportuna a lembrança em um espaço dedicado ao rock e a literatura mostrar a relevância dele. Com certeza vai informar aos jovens que não sabem direito do que se trata. A música foi e é, e sempre será,o espelho de seu tempo. O vídeo de revolution mostra bem esse espírito, que hoje não se vê com frequencia. As palavras de Umberto Eco são certas porque a Internet pode ser uma arma e uma faca de dois gumes nas mãos de quem não tem esperteza e cultura. A velocidade da informação pode sim ser destrutiva, mas isso depende de quem maneja o teclado. A mobilização européia e mundial, em maio de 68 em menor escala, é um marco na história da humanidade. Tenho dúvidas se hoje os jovens, especialmente os brasileiros, tirariam a bunda das poltronas para lutar por um ideal.
  4. Anabela Disse:
    Sempre ouvi falar de maio de 68 e adorei a matéria, bem contextualizada e mostrando em tudo o que influenciou nos dias atuais. Infelizmente minha geração está longe desse poder de luta, todos só querem saber do seu nariz e a comunicação acaba sendo mais sincera e eficaz via messenger, o que é muito ruim. Os músicos eram mais politizados, hoje só vejo o Bono e o Sistem of Down abraçarem causas politicas e sociais
  5. Rainer T. Pappon Disse:
    Adorei! Anos 60 e 70 foram revolucionários , era um bate-rebate com o que acontecia em volta, pena que acabou!
    abr
  6. Maíra Hirose Disse:
    Muito didática e bem feita matéria. Boa para esclarecer os mais novos.
  7. lia Disse:
    Muito legal relembrar esse evento tão importante que muita gente desconhece..............
    Muito rock n roll....................
    Beijos
  8. Pedro Marques Disse:
    A absorção dessa informação pela galera de hoje pode passar batido pra maioria. Como está bem posto no seu texto Dum, as informações são tão rápidas e ostensivas que praticamente nos obrigam a descartá-las quase que imediatamente após obtê-las. Lembrar do maio de 68 é com certeza necessário e acima de tudo instrutivo, mas infelizmente duvido que a maioria dos leitores do site vai captar bem como aquele ano mudou o mundo e na moda, na música, na literatura, na política, na artes e no sexo. Não vi nenhum outro site de rock abordar o tema.
  9. luciana Khalil Disse:
    Dum, muito legal a forma como você linkou a rebeldia e a revolta daquela indignação que se espalhou pelo mundo em 1968 com o mundo de hoje. Tudo está em nossas mãos, mas nem sempre conseguimos discernimento para escolher as melhores opções, como quiz dizer Umberto Eco. Existe muita motivação para outras revoltas, como a guerra do Iraque, a ineficiência do nosso governo, os preconceitos e a corrupção, apenas citando algumas. Mas, como disse Caetano: "Onde está a juventude que quer mudar o Brasil?". Com certeza hoje a grande maioria dessa juventude não quer nada, se perde na rapidez dos produtos e informações descartáveis. Ou em um bom cargo emburrecedor em um Banco.

    beijo
  10. Avogadrus Disse:
    Felizmente fizemos nosso Sham 69 e não ficamos nessas "tendencias",
    nem todos estão de acordo com esse ideario e hoje está superado, em
    76/77 já estava superado. Submission Destroy!!!
    NEVER TRUST A HIPPIE.
    Caras como CohnBendit, Chico Buarque, etc, etc, etc.
    Porra o quanto Caetano , Gil e Gal, enfim todo o Tropicalismo devem pras inteligencias mutantes que os ajudaram aqui em S.Paulo no começo , quando eram revolucionarios, caras como Nelson Pavão, um dos primeiros bateristas do Made, Eu mesmo, Alban Bonnemaison, o filho do consul frances, nada disso foi de graça.
    Nossa Liberdade vale mais, bem mais do que eles valem.
  11. fabiana Disse:
    Superado ou não, na sua opinião, Avogadrus, é certo que até hoje é importante e foi efetivo na mudança de comportamento. Ainda prefiro confiar em um hippie do que na maioria dos engravatados hipócritas. Onde estavam as cabeça dos que fizeram a festa aqui no Brasil? Aqui, ou lá?
  12. Ruy Rocker Disse:
    Pois é, tudo vai e vem. Alguns se mantém fieis a sua ideologia, ou ideario, e ainda conseguem adaptar-se a modernidade. Tendências são efêmeras assim como a maioria das bandas atuais, mas mensagens, atitudes e músicas que promovem alguma reflexão e eletricidade são atemporais. Submisso é Caetano que hoje condena a pirataria - que muitas vezes é feita pelas próprias gravadoras - e canta braguisses do Peninha e boleros enfadonhos.
  13. Silvia Disse:
    Oie. Faz tempo que não passo por aqui e adorei a pauta, como sempre instigante e bem construída. Me lembro bem daqueles tempos da mão na cabeça, inclusive a gente na faculdade, lembra?? que horror!! O Umberto Eco é esperto e sagaz, sabe das coisas. Ontem mesmo vi na Tv que crianças que estudam em pcs aprendem menos, são devoradas, mas claro que depende de quem monitora. Salve o rock and roll Dum, afinal, essa sempre foi nossa bandeira.

    beijão
  14. jose pujol Disse:
    Na Espanha, foi criado um portal especialmente dedicado aos acontecimentos de maio de 1968. O site é bem bacana e traz uma relação de músicas que acompanharam os acontecimentos daquele mês em vários países europeus. Incluo também o link para Mayo Del 68 para que quiser ouvir todas ou algumas das músicas da relação.

    http://www.elmundo.es/especiales/2008/04/internacional/mayo_68/canciones/cancion03.html

    abraço

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