O espírito e a atitude do rock and roll sempre estiveram ligados ao protesto e a contestação. Através de sua música, artistas e bandas destilaram sua revolta e bradaram reinvidicações. Músicos como Bob Dylan, Joan Baez, Neil Young, Patti Smith, Donovan, entre outros, engajaran-se em movimentos e shows anti-guerras, essencialmente nos anos 1960. Na época, milhares de jovens eram enviados ao Vietnã. Hoje, eles são mandados ao Afeganistão e ao Iraque, na maioria das vezes sem saber bem o porquê. Um dos caras mais relevantes, o talentoso e respeitado músico canadense Neil Young, hoje com 62 anos dedicados a arte, e um dos membros do lendário grupo Crosby, Still, Nash and Young, é um deles.
Dono de discos clássicos como "Harvest", "Rust Never Sleeps", "Live Rust", "Harvest Moon", "Deja Vu" (com o CSNY) e muitos outros, sempre foi um dos que inseriu em sua arte, especialmente nos shows, protestos contra guerras e violências. Considerado uma lenda, um artista sensível de personalidade única, transita entre o folk, o country e um rock pesado, quase hard. Pois bem, após ter um aneurisma quase fatal - em 2006 - ficou tão engajado contra a guerra no Iraque que escreveu, gravou e lançou rapidamente o disco de protesto "Living With War" (vivendo com a guerra). Menos de dois meses depois do lançamento do disco, saiu em turnê chamada "Freedom of Speech" (Liberdade de Expressão) com seu grupo Crosby, Stills, Nash & amp. Na realidade, ele estava filmando o documentário "Csny, Déja Vu".

Neil, quando decide fazer um filme, coisa que rola de tempos em tempos usa o pseudônimo de Bernard Shakey. Os fãs, apesar de conhecerem a linguagem direta do músico, e mesmo seu lado delicado, deram de cara com espectro mais agressivo. O documentário, que estreou em janeiro no Festival de Sundance, em fevereiro no Festival Internacional de Berlim, e em junho no Festival da Transilvânia, tem data marcada de lançamento oficial para 25 de julho. O filme declara guerra aberta ao governo de Washington. Recupera velhas canções anti-guerra do Vietnã, misturadas com músicas recentes, como a oportuna "Let's Impeach the President", escrita para "Living With War". Muito bem feito, tem uma edição de imagens frenética e intensa, da bombástica turnê que os Crosby, Stills, Nash & Young fizeram em 2006, contra a guerra do Iraque e o presidente Bush.
Basicamente, o filme mostra um concerto de mais de três horas, no qual a banda toca quase todas as faixas de "Living With War" e muitos dos hinos políticos que construíram as suas figuras legendárias, como "Ohio", "Military Madness" e "Found the Cost of Freedom". Apesar da conhecida postura progressista e outsider da banda, muitos fãs se irritaram com a contundência das críticas. Outros se sentiram atraídos. As reações das platéias foram as mais imprevisíveis. Uma forte vibe clarifica as opiniões dos fãs que apoiaram a posição do grupo, em contrapartida aos que se sentiram traídos. Ao mesmo tempo, mostra veteranos da Guerra do Iraque que agora tentam protestar como músicos, políticos ou ativistas sociais. O filme é simples e não tem muitas pretensões. Mas é exatamente isso que o faz especial. Dá seu recado sem medos ou censuras, como Young sempre o fez. É humanista, ao ser educado e democrático, deixando clara a divisão de opiniões do público que a turnê provocou nos EUA. É absolutamente terno e comovente, para deixar claro que o CSNY será reverenciado e adorado pela América para sempre.

Em entrevista a Wes Orshoki (Reuters / Billboard), Neil Young falou sobre as polêmicas da turnê, os rostos que ficaram na estrada, a guerra, e ouras "cositas mas".
A seguir a entrevista de Neil
No filme, um fã de Atlanta o xinga e diz que quer arrebentar seus dentes por causa das canções antiguerra e contra o presidente George W. Bush. Como você reagiu na primeira vez que assistiu a essa cena?
Neil Young - Bom, sabíamos que isso ia acontecer. Não foi a primeira vez. Aconteceu em muitos lugares. Mas Atlanta teve muita força. Eles eram muito passionais no modo como se sentiam a respeito de nós termos, você sabe... Passado do limite e nos intrometido em algo em que eles acreditavam fortemente. Então você tem de respeitar as pessoas, mesmo que elas estejam enlouquecidas. Elas têm suas crenças. Então tivemos de usar (a cena), porque estamos tentando contar a história toda. Houve responsabilidade jornalística.
Ao assistir o filme e recordar-se das reações negativas do público, há algum rosto ou dedo médio que tenha ficado gravado na sua memória?
Young - Eu me lembro de alguns rostos. Há um rapaz de quem me lembro bem, mas ele não está no filme. Mas me lembro de muita coisa de todas as turnês. Esta teve momentos angustiantes. Não é uma experiência que gostaria de repetir.
Por quê?
Young - Acho que, se fizéssemos esse tipo de coisa para o resto da vida, eu viraria a "CNN" e eu não respeito muito isso. É fazer sempre a mesma coisa. Não vejo necessidade disso. Gosto de ter um programa de longa duração, não um segmento repetitivo.

No filme, Graham Nash fala sobre quando ouviu "Living with war" pela primeira vez e teve de decidir se participaria da turnê. Houve alguma vez em que você sentiu que levava Crosby, Stills e Graham para algo prejudicial? Obviamente, vocês tocam para públicos diferentes e fazer turnê com eles não é como pregar para um rebanho.
Young - Acho que sim, porque eles foram doces por um bom tempo e não faziam nada disso. Mas, se você vir às raízes, se olhar a música original, como "Military madness" e "Ohio", elas têm raízes na mesma mensagem. Só que agora é diferente. Eles têm um histórico e eu pensei que isso era bom porque voltavam às raízes.
Eles cantam muitas músicas de amor, muitas músicas de que as pessoas gostam. Mas esses caras curtiram 100%. O Stephen não gosta que as pessoas não gostem dele e eu o respeito. Ele é muito sensível, eu o entendo, mas mesmo assim queria fazer isso. Ele disse: 'Sim, vamos fazer' e tocou com seu coração. Mas falava: 'Olha, é como um desenho animado político...' Ele sempre tentava aliviar as coisas. Mas acho que ele acreditava no que fazia, senão não estaria conosco.
Já Crosby e Nash estavam lá desde o começo porque não ligam muito para a reação do público. Eles não são tão preocupados porque cantam sobre coisas que importam para eles. E eles concordavam com as músicas, queriam cantá-las.
No filme, você fala que não cantava "Ohio" há anos, porque não queria que ela virasse mercadoria...
Young - Penso assim desde o começo. Mas, nessa turnê, o contexto era histórico, então tocamos. Fiz muitas turnês com a banda e não tocávamos essa música. Era raro. Crosby adora essa música, quer tocá-la toda noite. Eu não consigo. É sobre pessoas que morreram, pessoas que possivelmente eram nosso público. Poderiam estar na primeira fila dos nossos shows. Eram estudantes. É pra quem a gente toca.
O que você espera com o lançamento do filme e do DVD?
Young - Discussão. Debate. Fóruns. Você vai ver o que vai acontecer quando esse filme sair na internet. Você vai ver as pessoas falando. Será interessante. Vai abrir portas, é isso o que a música faz. Acontece em todos públicos.
Você se decepciona com a sua geração? Foi essa a razão pela qual você fez a turnê?
Young - Na verdade, sou encorajado por minha geração, porque ela ainda se lembra de muita coisa. Eles tentaram avançar. Os jovens de hoje, que estão na escola, não são ameaçados como minha geração foi. Os jovens hoje pensam: 'Vou trabalhar para o Google? Serei sortudo o suficiente para trabalhar para o Google? Para quem vou trabalhar? Talvez trabalhe para uma empresa ambiental. Talvez tenha um emprego bacana. Talvez seja designer, talvez faça moda. O que farei com a minha vida?'
Isso é diferente de: 'Não quero ir para o Vietnã. Não quero ir para o Afeganistão. Não quero ir para o Paquistão.' Se não há ameaça, não há protesto. Minha geração ainda tem o fogo. Ainda faz muito barulho por causa do Bush. Quando os vejo na platéia, não me decepciono. Fico orgulhoso, porque ainda estão lá. Ainda se lembram de como era.
No disco, você agradece Bob Dylan pela inspiração. Você deu um CD para ele? Ele ouviu?
Young - Acho que não. Não dei um para ele. Imagino que ele tenha ouvido parte do disco. Pode ter ouvido tudo. Realmente não sei. Falei com ele alguns anos atrás, talvez um ano e meio. Ele gostou do show que fiz para New Orleans na TV. Ele viu e me ligou para dizer que gostou. Eu também ligo para ele para dizer que ele é ótimo. Porque alguém tem que dizer. Você pode achar que todo mundo diz isso, mas eu não sei. Eu só quero mostrar como me sinto, porque adoro o cara. Acho que é um excelente artista. Aí, ele retornou o favor. Temos uma amizade.

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26 Jun, 2008 às 4:25 PM Dum, Neil Young é um dos caras que ainda se mantém intactos quanto a seu caráter e suas convicções. Muitos hoje posam de pacifistas, aparecem com políticos, como o Bono,mas estão contando seus milhões de dólares. Ese filme deve ser uma delícia não apenas pela qualidade da música, mas pelo sopro de consciência numa sociedade presa no consumismo e no acomodamento.
beijo
26 Jun, 2008 às 4:51 PM Do cacete o segundo vídeo, deu muita vontade de ver o filme dessa lenda do rock. Apesar da idade eles continuam mandando muito bem em todos os sentidos. Dão de dez a zero em muita bandinha hype por ai.
26 Jun, 2008 às 5:36 PM Um ótimo texto que consegue transmitir a essência do filme. Li sobre ele em outros lugares, mas a sua clareza e precisão me fez ter a certeza de ver esse filme, nem que seja em DVD. Temos que ter orgulho por existir caras como Neil Young, realmente irados com guerras e hipocrisia. Uma amiga que viu um show dessa tour me disse que alguns iam correndo e xingando a banda. Americano é assim mesmo, sempre tem os que defendem a guerra.
27 Jun, 2008 às 9:43 AM Neil Young acho que fez o que desejava faz tempo. Ele sempre foi um cara muito intenso e voraz em tudo o que faz, vai fundo nas suas convicções. O disco Living with war é muito bom e honra a obra dele. Um filme que pelo seu relato diferente da maioria não endeusa o artísta, mas democraticamente se expõe as críticas também. Um bom exemplo para políticos e músicos que se acham.
27 Jun, 2008 às 9:59 AM A entrevista deixa bem clara a visão lúcida de Neil e, juntando-a a matéria fico ainda mais fascinada pela personalidade marcante do cara. Empresários e produtores, NEIL YOUNG já!!!
28 Jun, 2008 às 11:26 AM uhhhhhh!!!!!!!!!!!!!!!!que lindo...........é isso que estava faltando pra sacudir essas cabeçinhas vazias que nada contestam, que não tem nenhuma preocupação com as guerras, que não tem sangue correndo nas veias.Chega desse nacionalismo estagnante que faz com que as pessoas pareçam viver ainda em pequenas aldeias se preocupando só com os seus interesses pequenos e individuais. Mais uma vez o pessoal do R'n R dos 70's está a frente dessas bandinhas novas que posam como superstars e em nada contribuem pra que o público reflita e abra novas perspectivas pra vida.
Beijos
Lia
29 Jun, 2008 às 9:26 AM Um filme que parece ser muito forte e possuir uma mensagem positiva. A postura de Neil colocando as críticas negativas do público no filme, só avaliza ainda mais o doc. Me parece que poucos artistas teriam essa coragem.
30 Jun, 2008 às 9:37 AM Um documentário que merece ser visto e para mim será mais relevante que o do Joy Division, porque não é uma homenagem, mas sim um grito de alerta e um protesto. Muito legais o vídeos que passa a noção da força do filme.
1 Jul, 2008 às 11:15 AM Concordo que esse filme é mais relevante do que Control, apesar do Ian ser uma figura muito especial também. A diferença é básica, e faz muitaaa diferença: enquanto um se matou jovem outro, aos 62 anos, continua fazendo um som do caralho e engajado em causas pacifistas. É de se admirar, porque a maioria das bandas de hoje não se prestam a isso.
1 Jul, 2008 às 11:21 AM Dum, você sempre dando dicas significativas e bacanas. manda vê meu.
2 Jul, 2008 às 2:10 PM É impressionante a vitalidade desse veterano músico. Desde os tempos do Buffalo Springfield ele vem construindo uma carreira sólida e totalmente real. É um cara que tem credibilidade e mostra isso na prática, correndo atrás de suas crenças e ganhando grana com isso. Aliás um dinheiro bem merecido e bem pago. ESpero ainda poder ver um show de Neil Young no Brasil.
5 Jul, 2008 às 10:17 AM Dum, você sabe onde posso encontrar o documentário? Muito bom o conteúdo do filme.
abraço
7 Jul, 2008 às 3:39 PM Outra noite vi um doc sobre a história das drogas na VH1 onde o David Crosby foi preso. Ele sobreviveu aos anos 60 e 70, os mais loucos e criativos. É merecedor de respeito, como John Synclair.
7 Jul, 2008 às 7:39 PM Nossa Dum quanta inspiração. Eu ainda sou uma jovem roqueira mas estou aprendendo aos montes contigo, detesto essa gente que vive cheirando naftalina fica presa ao passado. Beijos, Fabiana Ciolfi.
10 Jul, 2008 às 5:59 PM Existe muito alarde em relação a esse doc aqui nos USA. É impressionante como o cara consegue ainda ser ativo e coerente. Sou mais um a falar bem de Neil Young, que fez uma tour sensacional e polêmica. Não conhecia o site e foi indicado por uma amigo brasileiro. Adorei esse blog, pra mim o melhor. Bem escrito, isento e sem auto promoção, como li em outro. Dei uma lida em outras matérias Dum, e achei todas stoned.
12 Jul, 2008 às 4:27 PM Não sou fã do cara, mas o filme é atrativo.
17 Jul, 2008 às 2:16 PM Dum, sempre leio seu blog,mas em se tratando do cara em questão não me contive em mandara letra de uma das músicas que mais gosto do grande Neil Young. Tantos festivais rolando e mesmo entendendo a coerência em trazer bandas novas meio Neil Young vale mais do que mais do que a metade das bandas do TIM Festival desse ano.
Mr. Soul (Lyrics and Music by Neil Young)
Well, hello, Mr. Soul… I just dropped by to pick up a reason
For the thought that I caught that my head is the event of the season
Why in crowds just a trace of my face could seem so pleasin'
I'll cop out to the change, but a stranger is putting the tease on
I was down on a frown when the messenger brought me a letter
I was raised by the praise of a fan who said I upset her
Any girl in the world could have easily known me better
She said "You're strange, but don't change," and I let her
In a while, will the smile on my face turn to plaster?
Stick around while the clown who is sick does the trick of disaster
For the race of my head and my face is moving much faster
Is it strange I should change? I don't know… why don't you ask her?
Is it strange I should change? I don't know… why don't you ask her?
Is it strange I should change? I don't know… why don't you ask her?
Sr. Espírito (Neil Young) – Originalmente lançada no álbum do Buffalo Springfield Buffalo Springfield Again, de 1967.
Bom, olá, Sr. Espírito... Eu só passei pra pegar um conselho
Sobre a idéia que eu peguei de que minha cabeça é o evento da temporada
Por que entre milhões, um traço do meu rosto pode parece tão agradável
Eu vou evitar mudar, mas um estranho ta sempre provocando
Eu tava pra baixo e de mal-humor quando o mensageiro me trouxe uma carta
Eu fui despertado pelo comentário de uma fã que disse que eu decepcionei-a
Qualquer garota no mundo poderia facilmente ter me conhecido melhor
Ela disse, “Você é estranho, mas não mude”, e eu larguei ela
Dentro de algum tempo, será que o sorriso no meu rosto vai virar gesso?
Fique vendo enquanto o palhaço que está doente faz o truque do desastre
Já que a corrida em minha cabeça e no meu rosto está indo muito rápida
É estranho que eu deveria mudar? Eu não sei... por quê você não pergunta a ela?
É estranho que eu deveria mudar? Eu não sei... por quê você não pergunta a ela?
É estranho que eu deveria mudar? Eu não sei... por quê você não pergunta a ela?
17 Jul, 2008 às 2:42 PM Leila, obrigado pela letra.