Dynamite

Entries for month: July 2009

Jack White acerta na estréia do The Dead Weather

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                                                   treat me like your mother

Jack White é um cara ligado no 220. Talentoso, inquieto, criativo e altamente produtivo. Após mostrar ao mundo o poder de sua destreza e fúria musical ao enriquecer a cultura pop com a nervosa banda White Stripes - junto com a baterista Meg White - o compositor e multi instrumentista bancou o Racounters, grupo que lançou dois CDS e  formatou seu som nas melhores e mais lúcidas influências dos anos 1970, quando o rock era um rock de verdade, ainda, depois de ser moldado como produto nos anos 1960 ancorado como a voz de uma mensagem básica: O rock deve sim ter o que dizer e não apenas ser uma música qualquer, um entretenimento descartável. Não vou me estender contando a epopéia dos ótimos discos do White Stripes, apenas citar que todos me fazem bem. Nem completar afirmando porque apontei o Racounters lançado em 2008 - "Consoler of The Lonely" - como um dos cinco melhores do ano passado. O lance é saber que, ao mesmo tempo em que Jack se coloca como um dos músicos mais importantes da atualidade, tanto pela qualidade de suas bandas como pela vertiginosa quantidade de bons discos que oferece ele acaba de apresentar ao mundo o primeiro álbum de sua terceira banda, "The Dead Weather", o surpreendente "Horehound", um trabalho que, de novo, dá um tapa na cara dos músicos e bandas preguiçosas. A voz do "The Dead Weather" é Alison Mosshart, vocalista da dupla The Kills. É ela quem dá o tempero sexy à sonoridade sombria da superbanda que inclui ainda Jack Lawrence, do Raconteurs, no baixo, e Dean Fertita, do Queens of the Stone Age, na guitarra. O disco sai esta semana pelo selo Third Man Records.

                                                                   

 

O som é uma poderosa mistura da agressividade do hardcore com a crueza do blues, mas com muita personalidade própria.  Músicas como "Treat me Like Your Mother" e "So Far From Your Weapon" lembram as pesadas "Rage Agaist Machine" e "Helmet". Uma visceralidade que coloca no caldeirão do bruxo um pouco de todos os seus outros grupos, mas com um peso extra, letal, que deixa em pânico bobagens indies mal feitas. O Cd abre com a faixa "60 Feat Tall", que começa com dedilhadas graves e o vocal primal de Alison. É muito, mas muito envolvente e climática. Têm sinais, ecos fortes do melhor rock dos melhores anos. Uma guitarra quase hendrixiana, penetrante.  Já "Hang You From The Heavens" vem com as tradicionais quebradeiras de bateria e aquela guitarra conhecida que corta o som como uma faca esperta e cruel. Se for para pontuar entre dois pólos, digo que soa mais White do que Raconteurs, mas é único. Ao ouvir o disquinho, que sai também em vinil, seguem-se "Cut Like a Buffalo", essa como um groove um pouco funkeado e um teclado meio Humble Pie, bem encorpado também passa por Kashimir.  São muitas as referências de Jack e companhia, e boas.

                                                                          

 

 A combinação da voz de Jack e de Alison alimenta, ajusta a mente, como na excelente "Rocking Horse" com um baixo pulsante que conduz a insinuante Alison à paraísos perigosos.  Ai chega um solo de guitarra ferido, doce e perfeito. Jack não vai salvar o rock, mas alivia muito.  Hard rock é "New Pony", bem feita, pura e cheia de elementos. Um grito no escuro que ilumina. É impressionante como Jack e a banda se contextualizam bem, sabem o que querem e fazem o melhor.  Depois, "Bone House", com um teclado meio, assim, experimental, permeia e leva o trabalho para onde à voz de Alison possa flutuar com liberdade por onde quer que vá. Ela personifica a voz do rock. Jack experimenta nas guitarras como nos primeiros anos do WS, sem medos ou acomodações.  A introdução sabbatiana de "No Hassle Night" apenas engana. Na verdade essa música caminha para o experimentalismo - de novo - onde Jack testa os limites do noise fincado em pedais.  "3 Birds" e "Will There be Enough Water" completam mais uma obra de mister Jack White, o homem das mil surpresas e de qualidades múltiplas.

                                                 

                                            hang you from the heavens

 

Dinosaur Jr. abusa das guitarras com classe e noise

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                                                  over it

Dinosaur Jr. é uma das maiores e melhores influências de uma grande parte das bandas de rock, desde a década de 1990 em diante. Quando o grupo do talentoso e carismático guitarrista e vocalista Jo Mascis surgiu na cena, em 1983, a new wave e o punk dominavam. As guitarras melódicas e ácidas, tocadas com sentimento e poder, e o noise bem organizado do Dino Jr., junto com o Pixies e o Sonic Youth, injetaram uma nova energia no que quase foi a indie music, hoje perdida e quase sem rumo. Mascis, um cara de raízes punks, soube compor e manter a característica de guitar band sem perder a classe e a pegada. Em 1994, quando o entrevistei por telefone como editor da Revista Top Rock, conheci um pouco desse cara de personalidade forte e que faz canções belas e constroe solos de guitarra que deslizam cheios de amor e ardor. Um dos grandes méritos do Dinosaur Jr. é nunca ter perdido o rumo de sua música, sempre intensa, visceral e compacta. Nela, não existem buracos, mas sim vários detalhes e um repertório repleto de nuances e que, principalmente, tem uma proposta tão bem definida, que fica difícil errar. Por mais que essa proposta não vise inovação ou mudanças radicais, fica claro que a banda não necessita disto. Alguns grupos quando se tornam mitos se perdem, coisa super comum hoje me dia. Vide Coldplay. Os 10 anos entre "Hand It Over", de 1997 e "Beyond", de 2007, fizeram muito bem ao DJ. Voltaram com a formação original, que não era vista desde 88, Mascis, nas guitarras e vocais, Lou Barlow, no baixo e Pat Murphy na batera. E, mais uma vez, não precisaram inventar nada de "novo". Apenas fizeram aquilo que era necessário.

                                                                

"Farm", lançado agora, o nono álbum, é ótimo. Novamente, nada muito além de Dinosaur Jr.e sua essência. Sempre criativo, com muitas guitarras, o vocal sempre orgânico de Mascis e, uma tamanha personalidade que os faz ainda renovados e diferentes da maioria das mesmices sonoras que infectam o mercado. Uma grande banda que, com muita unidade sonora, consegue manter sua personalidade sem se repetir, com grandes riffs, pegadas absurdamente noise e melodias potentes e deliciosas. O Dinosaur Jr. é carismático e toca a minha alma, sempre foi assim minha relação com esse grupo. Às vezes a voz de Mascis parece um lamento blues, uma vez comparei-a a alguém que perdeu um amor e sentou-se na calçado com uma garrafa de Jack Daniels na mão, chapado. O trabalho é uniforme, sólido, um grande disco. É muscular, melódico e maduro, sem dúvida um dos melhores trabalhos do grupo. "Plans", a canção mais pop, é uma autêntica balada dinosauriana, com uma guitarra dedilhada com força e que serve de modelo para os toscos guitarristas das bandas indies que infestam a Inglaterra, hoje.  O épico "I Don't Wanna Go There", de quase nove minutos, sintetiza toda energia do rock, e lembra bastante Neil Young, o mago eterno. Tem um solo arrasa quarteirão, um pedal fuzz vibrante acompanhado por um baixo em linha, como a cereja do bolo. "Over It", primeiro single, e responsável por um dos clipes mais simples e carismáticos do ano, é um genuíno diamante rosa, como um certo chacra, explodindo toda a essência do Dinosaur Jr. A atitude da banda reflete seu estado de espírito, no seu som, desprovido do hype, das páginas eletrônicas do New Music Express, que elege um herói a cada mês, e o grupo dispensa. "Farm", despretensiosamente, conseguiu as notas mais altas nos melhores portais de rock do mundo, inclusive aqui.

                                                                 

Tudo o que o DJ não quer é ser hype, mas apenas mandar muito bem seu som. Em "Pieces", a faixa de abertura, o tom já sugere um autêntico álbum de um rock de verdade, sem subterfúgios ou guitarras enganosas. Como sempre, com criatividade, a banda mostra a diferença enorme que existe hoje entre o rock americano e inglês. O inglês, um amontoado de hypes sem qualidade, e o americano, formatado na espontaneidade e na raiz do blues. "I Want You to Know" considero a canção que destoa um pouco do CD, que, no geral, mantem uma uniformidade coerente. É um pouco arrastada demais.   Já em "Ocean in The Way", uma linda balada, Mascis, declara seu amor arruinado. O som do Dinosaur Jr. se amplia a cada álbum, e a reunião dos integrantes originais representa uma simbiose perfeita. Na mesma onda, de um trabalho com o selo de qualidade DJ, "Friends", "Said The People" e "There´s no Here", são canções típicas de um power trio, meio Grand Funk Rairoald da primeira fase, muita energia em cada instrumento e um perfeito casamento de performances. Das três, "Said The People" é um quase blues, atormentada e abusivamente bela, ajuda a construção do mito, quando Mascis brada "save me, save me, my last night is true. I can´t help you save me, save me", tudo emoldurado por um grandioso e rico solo de guitarra, cheio de elementos e recursos diferenciados, que não colocam dúvidas na destreza do guitarrista como um cara realmente diferenciado. A abertura de "See You" , insisto, comprova que o Dinosaur Jr. é a autêntica guitar band que optou pelo amor e sentimento. Grandes solos carregados de feeling e coração, paisagens sonoras que tanto podem arrasar os tímpanos e, ao mesmo tempo, aquecer o coração. A última faixa, "Imagination Blind", é um tanto hard rock e também lembra Neil Young, no andamento.  Enfim, mais uma vez Jo Mascis e companhia brindam a música com um disco real, ou seja, feito com o coração e honestidade, coisa rara nos dias dominados por falsos heróis e grupos ruins. O Dinosaur Jr., em grande forma, reassume seu lugar entre as melhores bandas de rock em atividade.  

                       

                                            

                                                    

                                                         what else is new    

 

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