treat me like your mother
Jack White é um cara ligado no 220. Talentoso, inquieto, criativo e altamente produtivo. Após mostrar ao mundo o poder de sua destreza e fúria musical ao enriquecer a cultura pop com a nervosa banda White Stripes - junto com a baterista Meg White - o compositor e multi instrumentista bancou o Racounters, grupo que lançou dois CDS e formatou seu som nas melhores e mais lúcidas influências dos anos 1970, quando o rock era um rock de verdade, ainda, depois de ser moldado como produto nos anos 1960 ancorado como a voz de uma mensagem básica: O rock deve sim ter o que dizer e não apenas ser uma música qualquer, um entretenimento descartável. Não vou me estender contando a epopéia dos ótimos discos do White Stripes, apenas citar que todos me fazem bem. Nem completar afirmando porque apontei o Racounters lançado em 2008 - "Consoler of The Lonely" - como um dos cinco melhores do ano passado. O lance é saber que, ao mesmo tempo em que Jack se coloca como um dos músicos mais importantes da atualidade, tanto pela qualidade de suas bandas como pela vertiginosa quantidade de bons discos que oferece ele acaba de apresentar ao mundo o primeiro álbum de sua terceira banda, "The Dead Weather", o surpreendente "Horehound", um trabalho que, de novo, dá um tapa na cara dos músicos e bandas preguiçosas. A voz do "The Dead Weather" é Alison Mosshart, vocalista da dupla The Kills. É ela quem dá o tempero sexy à sonoridade sombria da superbanda que inclui ainda Jack Lawrence, do Raconteurs, no baixo, e Dean Fertita, do Queens of the Stone Age, na guitarra. O disco sai esta semana pelo selo Third Man Records.
O som é uma poderosa mistura da agressividade do hardcore com a crueza do blues, mas com muita personalidade própria. Músicas como "Treat me Like Your Mother" e "So Far From Your Weapon" lembram as pesadas "Rage Agaist Machine" e "Helmet". Uma visceralidade que coloca no caldeirão do bruxo um pouco de todos os seus outros grupos, mas com um peso extra, letal, que deixa em pânico bobagens indies mal feitas. O Cd abre com a faixa "60 Feat Tall", que começa com dedilhadas graves e o vocal primal de Alison. É muito, mas muito envolvente e climática. Têm sinais, ecos fortes do melhor rock dos melhores anos. Uma guitarra quase hendrixiana, penetrante. Já "Hang You From The Heavens" vem com as tradicionais quebradeiras de bateria e aquela guitarra conhecida que corta o som como uma faca esperta e cruel. Se for para pontuar entre dois pólos, digo que soa mais White do que Raconteurs, mas é único. Ao ouvir o disquinho, que sai também em vinil, seguem-se "Cut Like a Buffalo", essa como um groove um pouco funkeado e um teclado meio Humble Pie, bem encorpado também passa por Kashimir. São muitas as referências de Jack e companhia, e boas.

A combinação da voz de Jack e de Alison alimenta, ajusta a mente, como na excelente "Rocking Horse" com um baixo pulsante que conduz a insinuante Alison à paraísos perigosos. Ai chega um solo de guitarra ferido, doce e perfeito. Jack não vai salvar o rock, mas alivia muito. Hard rock é "New Pony", bem feita, pura e cheia de elementos. Um grito no escuro que ilumina. É impressionante como Jack e a banda se contextualizam bem, sabem o que querem e fazem o melhor. Depois, "Bone House", com um teclado meio, assim, experimental, permeia e leva o trabalho para onde à voz de Alison possa flutuar com liberdade por onde quer que vá. Ela personifica a voz do rock. Jack experimenta nas guitarras como nos primeiros anos do WS, sem medos ou acomodações. A introdução sabbatiana de "No Hassle Night" apenas engana. Na verdade essa música caminha para o experimentalismo - de novo - onde Jack testa os limites do noise fincado em pedais. "3 Birds" e "Will There be Enough Water" completam mais uma obra de mister Jack White, o homem das mil surpresas e de qualidades múltiplas.
hang you from the heavens

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