Dynamite

Entries for month: February 2009

O Privilégio que Atrapalha

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 Não sei se realmente os festivais independentes privilegiam bandas criando guetos e sub panelas, mas com certeza existe um vácuo entre as bandas chamadas indies e outros grupos e artistas undergrounds que produzem um rock out "indie" scene. Se o universo indie estranhamente parece não aceitar sons diferentes, nem mesmo o metal, dentro dos seus clubes e festivais, as guitarras e a gana de quem busca se inserir na cena nacional põem a cara fora da janela. Tipo, a partir do momento em que novas (ou nem tanto) bandas brasileiras -boas ou não- aparecem de todo o canto do pais com garra, mas na maioria das vezes com pouca estrutura e qualidade, dá pra pinçar sonoridades estranhas, aquelas que fogem ao padrão da repetição, ou da falta de opção. Grupos que buscam a qualidade, pura e simplesmente sem se importar apenas com a imagem, querem seu espaço também. Uma leitora me escreveu na semana passada pelo e-mail: "Tá na moda músicas sem graça, com cantores sem graça, tá na moda ser pseudo-tímido/charmosinho, com músicas pseudo-inteligentes. Tá na moda gostar de ex-integrantes de Los Hermanos. Logo, logo, passa...(é com essa esperança que a gente sobrevive)". Ou então a revolta de outro: "Sinceramente eu não sei se estou careta ou é chique ouvir tudo quando e porcaria q a mídia tenta empurrar na gente, Como dizem por ai ,ta ruim mas ta bom, se comparando com esse lixo todo q estao tocando por ai como funk carioca, axé, pagode, sertaneja e essas bandinhas de rock fuleira q insistem em tocar ,querendo lançar mais moda de roupa e corte de cabelo do q realmente em tocar". Pois é, os leitores querem bandas de rock de verdade, músicos que saibam tocar e tenham atitude. Sem aquele ar blasé de, somos a banda fodona.                                                           

                                               

                                                    carro bomba    

                                                           

 É esse exatamente nesse panorama que a banda Carro Bomba e seu CD "Nervoso" tateiam por espaço. Os experientes músicos Marcello Schevano, guitarras e vocais; Rogério Fernandes, vocal; Fabrizio Micheloni, baixo e vocal e Fernando Minchillo, bateria, fazem um som pesado, dinâmico e orgânico. Rasgam o manual dos bons costumes com um metal poderoso. Guitarras com riffs clássicos, solos e um vocal que chega a lembrar (na audição do Cd Nervoso) o mitológico Cornelius. Do Made de 1976, Dio às vezes. Uma avalanche de rock que não faz nenhuma concessão para o pop horroroso que invade o país muitas vezes travestido de indie. Músicas como "Punhos de Aço", "Sangue de Barata" -"chega de ser boneco; chega de não ser nada; se cedo lá no templo; seu sangue é de barata" - "Bomba Blues", "o sol distorcido no horizonte; as sombras dos viaduto; o povo corre apressado; jogando lixo nos corredores; todos juntos na mesma dança; pobres, ricos, ódios e amores". A qualidade dos músicos me deixa a vontade para sacar que a sujeira, o noise, é uma opção.  Simples e competente. Rock.

                                                                      

                                              www.myspace.com/bandaklatu

É "Em Busca do Rock Infinito" que o Klatu anda, como deixa claro em seu Cd homônimo. O disco, que nasceu da parceria entre o músico e escritor Leco Peres com a vocalista e publicitária Carol Arantes, é bem espontâneo e carregado de influências, faíscas e insights musicais das mais várias procedências. Segundo texto publicado na página do grupo no Myspace "A criação conjunta resultou em uma visão ampla sobre o som, a mensagem e o conceito da banda, agregados ao conhecimento dos diversos músicos convidados que participaram da gravação do disco". São sete faixas inéditas e mais duas bônus, que viajam por matizes do rock setentista nacional (notadamente Rita Lee & Tutti-Frutti), passando por um psicodelismo experimentalista e até sopros jazzísticos, literalmente. "Teoria e Prática do Rock Infinito" é a apresentação da proposta do grupo. Contudo, pra mim, é a que menos bateu. Talvez o timbre da vocalista, muito alto. Depois o disco se contextualiza, se explica. Com várias participações de músicos convidados  o Klatu (nos anos 70 tinha um Klaatu inglês) chegou a um ponto de fusão com as canções "Mais 8 que 80", um quase blues com uma boa guitarra; "Kuarta" Dimensão", que envereda pelo jazz  e uma quebrada fusion e mais "Opus 67 In J Bemol `paramoium`", uma faixa um pouco barnabeniana. Bem construída, cheia de detalhes. Ali tem uma clara citação a banda clássica Som Nosso de Cada Dia, sinal da paranóia. Desconstruir pra construir mais adiante. "Vai Acabar" decreta de vez a condição e vocação estritamente musical do grupo. "Não, não se desespere;o fim é o recomeço; vai acabar, vai acabar". Sanidade no rock.                                                                  

                                             

                                                rainer pappon - o inferno

Já o Dvd "AGV", de Rainer Pappon - o alemão da guitarra verde - foi gravado ao vivo no Café Piu Piu, em São Paulo, e mostra o outro lado do cara que é o band leader e a alma da Central Scrutinizer Band, uma das melhores bandas covers do gênio Frank Zappa. Rainer é conhecido pelo seu talento, ser muito boa gente, e por ser um guitarrista bastante técnico e preciso. Predicados altamente explorados nesse trabalho. Mano Bop, vocal e guitarra; Jimmy Pappon, teclados; Caio Góes, baixo; Cláudio Tchernev, bateria e mais três metais, são os músicos que o ajudam a executar extremamente bem as faixas: "Seja Bem Vindo"; "Vai que Vai" "Otário", "Eat a Banana and a Papaya", "O Punheta da Luneta", "O Inferno" e "A Lot a Biucets". São aproximadamente sessenta minutos de música. Super bem tocada, com várias opções, divisões, solos perfeitos e matadores e uma grande cozinha industrial. O que mais impressiona - e deixa o fato da produção do Dvd não ser das melhores (exatamente por ser ultra underground) em segundo plano - é a voracidade e a alma colocada a serviço do rock, do soul, do jazz e do blues. Existe bastante energia, curiosidade e busca por um som maior. Sem essa de guitarrinhas roe roe: aquelas mesmo que se repetem em loops por pedais de guitarristas sem recursos. Rainer e sua banda mostram a diferença entre fazer música e achar que a faz. Serve de exemplo para muitas bandas, a maioria das quais ele diz nem conhecer. E precisa?                                                   

                                     rainer pappon                           

                                                            

 

 

 

 

 

 

 

 

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