Dynamite

Entries for month: September 2008

Oasis volta com tudo com “Dig Out Your Soul” - E o doc., Joe Strummer: O futuro está para ser escrito

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Desde a primeira audição do novo disco do Oasis, "Dig Out Your Soul", percebi que a banda havia feito seu melhor trabalho desde seus dois primeiros Cds, "Definitely Maybe" -1994 e "(What´s the Story) Morning Glory" - 1995. Produzido por Dave Sardy, que já havia trabalhado com o Oasis no disco, "Don't Believe the Truth" - 2005 - o lançamento é do próprio selo grupo, o Big Brother Recordings. O Oasis saltou da obscuridade em 1994 para se tornar uma das mais relevantes bandas inglesas da década de 90, junto com bons grupos como The Stone Roses, The Charlatans, Ride e outros do brit rock. Liderada pelo talentoso guitarrista, compositor e encrenqueiro Noel Gallagher, e seu irmão Liam, que pilota os vocais, a banda de Manchester foi capaz de se reciclar, voltando às ótimas canções, relembrando suas origens básicas como Beatles, Rolling Stones e The Who. "Dig Out Your Soul", que foi gravado nos estúdios Abbey Road, em Londres, e mixado em Los Angeles, tem punch do início ao fim. As guitarras hipnóticas, distorcidas na medida exata de Noel, e o vocal climático de Liam, estão presentes todo tempo.

                        


"Bag it Up", a faixa que abre o CD, mostra a vontade que o grupo estava de acertar. Ela é tentadoramente flexível e serve de aperitivo para a segunda canção. "The Turning" começa com uma introdução de bateria logo seguida pelo vocal clássico do Oasis e uma guitarrada muito dinâmica, o que cria um som poderoso e consistente. A música se sustenta na batera, por onde a guitarra distorcida flui com uma nitidez de quem sabe o que está fazendo. A terceira "Waiting for the Rapture", segue conceito rock do disco. Ela é bem Beatles da fase Revolver. Com uma guitarra base que contrasta a levada pesada com a voz até macia de Noel. O CD fica mais rápido e barulhento em "The Shock of the Lightning". É uma clássica canção Oasis dos primeiros anos. Tem clima pra cima sem ser pretensamente grandiosa e eloqüente. Guitarras com tramas exatas. Rock básico, bem feito e que acerta o alvo. Assim como todo disco. I´m over my hearts desire/Í feel cold, but i´m back in the fire/Out control but i´m tied up tight/Come in, come ou tonight, diz à letra que emoldura a harmonia. Teclados estão nessa canção, que também soa psicodélica, sensitiva, abstrata às vezes.

                                                                           

Em um disco tão bacana como esse, que já é um dos melhores lançamentos do ano em minha opinião, junto com os novos do REM, do Racounters e do Metallica, não poderia faltar a tradicional balada Oasiana. E ela vem no melhor estilo. "I´m Outta Time" tem todos os ingredientes para tocar no rádio. Também cai bastante para a influência Beatles, com harmonia ancorada por um piano discreto e coros de apoio que funcionam bem. É impossível não relacionar, mesmo que levemente, a introdução com palmas de "(Get Off Your) High Horse Lady"  com "Give Peace a Chance", de Lennon. A música tem uma levada bem bluesy, comandada pelo vocal e a envolvente base rítmica. A segunda parte de Get Off segue num tom mais alto, até desembocar num fim até melancólico e denso. Já "Falling Down" tem ondas de Hacienda, a famosa casa de Manchester de onde brotaram as mais legais bandas de lá. Tem um clima gostoso e uma batera quebrada. Alto astral com um corinho cirúrgico, preciso. Depois, uma gama bem tramada de teclado assola a canção, até o final. Uma cítara (que Noel confessou ser de brinquedo) meio psicodélica adorna a introdução de "To Be Where There´s Life", que mantem o pique de qualidade do disco. A canção confirma que o Oasis uniu o bom e velho rock com pitadas sutis de psicodelismo.

                                                                       

As três últimas terminam um disco que prima pelo equilíbrio do começo ao fim. "Aint Got Nothing" é a mais pesada. Guitarras impiedosas de boas e certeiras, um solo bem realizado, bom gosto, consistência. Um bom blues é o que é "The Nature of Reality". E um blues com tempero Oasis sempre acaba em guitarras um pouco distorcidas e com o característico timbre super identificável de Liam. E, também, da mesma forma, um blues tem que ter um bom solo, simples e bem posto. A canção que encerra "Dig Out Your Soul", "Soldier On",  canta reflexões e dúvidas : Hold the line/Friend of mine/Sing a song/Soldier on/Shine a light/For me tonight/Don't be long/Soldier on. Pra mim, o Oasis se reencontrou com sua melhor música, com sua essência. Não que tenha feito álbuns ruins entre "(What´s the Story) Morning Glory" e "Dig Out Your Soul". Mas voltaram com um excelente trabalho.  

                                                                    

 

                                "Joe Strummer: O futuro está para ser escrito"

 

A primeira coisa que me veio à cabeça quando assisti o documentário "Joe Strummer: O futuro está para ser escrito" (2007), que estreou no Festival de Cinema do Rio, no fim de setembro, foi a lembrança do avassalador show da banda que assisti em Paris, em 1983, na turnê do álbum "Combat Rock". O diretor Julien Temple, sete anos após filmar o Sex Pistols no documentário "O Lixo e a Fúria", outra vez voltou suas lentes para a cultura pop. Porém, dessa vez, passou longe do modelo de documentário datado, que mistura entrevistas em estúdio a cenas de arquivo. De forma esperta, Temple optou por intercalar cenas raras da intimidade da banda e do vocalista com desenhos animados, tudo muito bem editado e no timing exato. A narração do próprio Strummer, extraída de entrevistas dadas a rádios e TVs, dá ao doc. um diferencial único. O filme mostra um dos principais e melhores grupos do punk do mundo, o inglês The Clash, através do seu principal integrante, o cantor e guitarrista Joe Strummer, morto precocemente em 2002. Além dos tradicionais depoimentos dos outros integrantes do Clash, figuras como Bono Vox, o ator John Cusak, o diretor Martin Scorsese e Flea (Red Hot Chilli Peppers), também falaram sobre o músico. "Strummer foi ídolo em uma época que o rock´n'roll era uma questão de vida ou morte", disse Bono em seu depoimento.

                                                                        

Ao tocar em temas como o suicídio do irmão de Strummer e da época difícil em que o músico que tocava nas ruas de Londres, Temple dá um tom sensível, amplo, sem ser piegas, depressivo, ou dramático. Desde formação da primeira banda, 101ers, à criação do Clash, em 1976, a impressão que dá é que foram anos rápidos e furiosos. Como líder do Clash, Strummer assumiu seu lado político em defesa dos fracos e oprimidos Seu desconforto quando o Clash o transformou num popstar também é enfocado por Temple de forma contundente. O documentário mostra como o egocentrismo do músico acabou com o Clash, e como, mais tarde, ao formar o grupo Joe Strummer & The Mescaleros, recuperou sua auto-estima. Temple ainda conseguiu material raro do Clash (como as demos de White Riot e I'm so Bored with the U.S.A.).  O documentário, de forma cronológica e bem construída, mostra um Strummer cheio de vida, som, fúria e amor, especialmente por suas duas filhas. "Joe Strummer: O futuro está para ser escrito", é, com certeza, um documento que, para quem conhece o Clash e Strummer, só faz elevar a admiração pelo homem/músico. Já quem não conhece vai no mínimo, além de entender porque ele foi um dos melhores letristas do punk, correr para a net baixar um Clash, ou comprar um original. Pra começar, recomendo o "London Calling", considerado o melhor disco lançado na década de 1980. Esperemos que passe no circuito normal de cinema das cidades.  

link - http://www.mininova.org/search/?search=The+future+is+unwritten  

                                                             

                                              Tommy Gun

                                                   

                     

O Metallica inova voltando ao passado

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                the day the neves comes

O Metallica está de volta. Após lançar os inconstantes e duvidosos "Load" -1996-, "Reload" -1997 e "St. Anger" -2003-, o grupo chega com "Death Magnetic", um trabalho com pegada e grandes riffs, como aqueles que caracterizaram sua carreira e que grande parte dos grupos imitou. Quando surgiu para o mundo do rock, no começo dos anos 1980, o Metallica mudou o conceito do metal produzindo clássicos como "Kill 'em All" -1983-, "Ride the Lightning" -1984, "Master of Puppets" -1986-, "...And Justice For All" -1988 - e "Metallica" -1991-, mais conhecido como o black álbum. Sua música ampliou o limite do trash, elevando a velocidade e o volume do som. Para mim, a raiz essencial da música do Metallica é o metal punk, também bem representado por grupos como GBH, Exploited, Broken Bones e Discharge, por exemplo. Alguns "detalhes" foram fundamentais para a melhor banda de metal do planeta voltar a velha e magnífica forma: uma batera de verdade, avassaladora, com bumbos duplos vorazes e demolidores; solos de guitarra bem construídos, criativos e bem idealizados; músicas mais longas (a menor tem 6:25min) e trabalhadas com variações e detalhes. Além disso, o produtor é Rick Rubin, que não deixa dúvidas.    

                                                          

 

Kirk Hammett, um dos guitarristas mais copiados do metal, James Hetfield, vocal e guitarra, Lars Ulrich, batera chamado de thunder (trovão) e o baixista Robert Trujillo, voltaram ao passado produzindo um som rápido, distorcido e agressivo. Um metal verdadeiro, um "novo metal" em contraposição a experimentos e chatices como Linkin Park, Korn, Slipknot e outros enganos. "Death Magnetic" inicia em grande estilo com "That Was Just Your Life", uma pedrada que começa com uma guitarra leve e introdução super bem realizada na quebradeira de bateria. Depois vem a avalanche do peso metal que se alterna com intensas levadas de hardcore, especialmente na rapidez da bateria. A canção vai se elevando com consistência sobre um baixo muito bem groveado. E um solo perfeito para o contexto de um metal sem erros. A segunda, "The End of Line", tem a introdução característica do punk. Batera forte e marcada, veloz. Ai vem um poderoso riff de guitarra e muitas variações de ritmos e andamentos. James canta como tem que fazer, bem posto, nas letras acima da média do mundo metal. A batera é fodaça, de verdade, bumbos duplos em profusão. Nada de frescuras ou poses, mas sim a atitude explicitamente rock and roll. Uma faixa sensacional que faz a gente ter até dó de grupos fifis. Em "Broken Beat and Scarred" a demolição continua. Início, bumbos duplos e variações de guitarras muito criativas, solos rápidos, quase voadores.

                                                                      

                                      enter sandman

"Death Magnetic" é violento. Mas uma violência do bem, da música real, vital, aquela que existe sem terninhos modernos ou bases eletrônicas sem rumo. É como se a ferocidade de "Battery", ou de "The Frayed Ends of Sanity", dos anos 1980, ganhassem uma roupagem mais contemporânea, mais atual. A quase balada "The Day That Never Comes" é a mais branda do disco. Triste, ela desnuda as guerras com um critica sutil. Empurre para o outro lado/Apenas permaneça agachado desta vez/Escondido dentro de si/Rastejando dentro de si/Sua hora chegará/Deus, eu os farei pagar/Uma revanche um dia/Eu terminarei este dia/Eu derramarei cor neste cinza. Nela, uma base de guitarra ancora uma intensa gama de alternâncias e viradas de bateria. A segunda parte da música flerta com um hard rock mais pesado, é a versatilidade do Metallica né! Ai entram as duas guitarras em escalada, que lembram Thin Lizzy e Iron. Realmente Rick Rubin e os músicos estavam a fim de causar e buscar algo novo no metal, o que parecia ser difícil de rolar. A grande variedade de sons e nuances, detalhes e arranjos é impactante e fatal.

                                                                   

A quinta faixa, "All Nightmare Long", na verdade, é um pesadelo para os amantes de guitarras chatas e texturizadas. Cai mais para o metal punk no começo e desembarca num quase crossover demolidor. As duas guitarras, entremeadas em solos rápidos, a bateria desconstruida, e o baixo pulsante, alinham-se todos em solo único, em um instante X da canção. É difícil dizer isso num álbum tão surpreendente, mas "All Nightmare Long" pode ser a melhor música de uma obra de primeira. Um piano inicia "The Unforgiven III", a canção que mais se aproxima de balada. Junto com a bateria, que caminha por cima do piano, chegam o peso do baixo e as guitarras. Analisar todas as músicas de "Death Magnetic" pode acabar sendo redundante. Na verdade, a banda tem um grande mérito ao produzir um disco consistente do começo ao fim. Sem espaços ou buracos. Uma parede sonora de grande poder, um bomber arrasa quarteirão. "Cyanede", "The Judas Kiss", "Suicide and Redemption" e "My Apocalipse" mantêm o punch do disco. O Metallica voltou. Direto para o passado, criando um metal, mais uma vez diferente, criativo e voltado ao futuro.        

                                                    

                                                            

 

                                   master of puppets                                   

 

                                                                          

Morre Ricky Wright, tecladista do Pink Floyd

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Outra personalidade fundamental na história do rock se foi. Morreu dia 15 de setembro, de câncer, aos 65 anos, o tecladista Richard Wright, membro fundador do grupo britânico Pink Floyd. Wright, para quem não sabe, foi um dos principais compositores da banda e chegou a abandonar o grupo durante a gravação de "The Wall" - 1979 - por suas diferenças fatais com Roger Waters, que começou a pirar em sua megalomania e egocentrismo. Quando Waters saiu, ele voltou, e até sua morte fez parte da banda. Da mesma forma que George Harrison, nos Beatles, ele era o terceiro compositor (e eventual vocalista) do Pink Floyd. Mais quieto, de personalidade  introspectiva, mas de inegável talento, foi essencial na sonoridade do grupo em que foi o tecladista por quase 40 anos. Participou na composição e arranjos de algumas músicas de álbuns como os excelentes "Meddle" - 1971 - (três), "The Dark Side of the Moon" -1973- (seis - o disco manteve-se no Top 100 Billboard de vendas durante mais de uma década e continua a ser um dos álbuns mais vendidos de todos os tempos), "Wish You Were Here" - 1975 - (duas) e "Ummagumma" - 1969 (duas). Com suas tramas de teclados, foi um dos mentores da marca registrada do Pink Floyd nos discos mais relevantes, que foram produzidos nos anos 1960/70. Através de suas mãos, e sua criatividade intensa e visual, fluiu a torrente de ambiências de ficção cientifica e psicodelismo que marcaram o Pink Floyd na sua fase áurea, seguindo a mente inquieta e insana de Syd Barret. Nas obras primas "The Piper At The Gates of Dawn" e "A Saucerfull of Secrets", de 1967 e 68, estruturou toda base para as viagens e incursões do genial e louco Barret. Lançou dois discos solos, "Wet Dream" - 1978 - e "Broken China" - 1996.                                                            

 Surgido na efervescência do cenário psicodélico londrino dos anos 60, o Pink Floyd é um dos principais grupos da história do rock, conhecido por qualquer garoto de 15 anos, mesmo que superficialmente. Formado em 1966, por Roger Waters, Rick Wright e Nick Mason, na época alunos da Faculdade de Arquitetura de Cambridge, e com a posterior e definitiva entrada de Syd Barret (que foi logo substituido pelo guitarrista David Gilmour), o Floyd trouxe ao rock o conceito de art rock, música inteligente e feita com pesquisa, criatividade, muita variação sonora, timbres, experimentos, ressonâncias e competência. O que foi chamado de rock progressivo. Suas apresentações, no club UFO, em Londres, eram verdadeiros happenings. No início, era cult ver o Floyd com seus shows carregados de atmosferas espaciais e climas de mistério. Apesar de participar ativamente do processo criativo, suas primeiras contribuições ainda não trariam essa assinatura sonora. Canções como "Julia Dream" e "Paintbox", singles lançados apenas em coletâneas, ou "Remember a Day", do segundo álbum, traziam seus teclados como instrumentos mais proeminentes, porém em fraseados simples e sem a textura perceptível nas criações coletivas da época, como "Careful With what Axe, Eugene" ou "Interstellar Ooverdrive".

                                                          

 

Com o passar do tempo, a banda tomou de assalto as grandes arenas e produziu shows com forte impacto visual. A única vez que a formação clássica da banda se reuniu, no século 21, foi em 2005 no Live 8, em Londres. Em 2007, os integrantes do Pink Floyd se apresentaram em Londres em um show de tributo ao fundador do grupo, Syd Barrett, morto em 2006, mas o baixista Roger Waters escolheu fazer uma apresentação à parte.  Richard Wright deixou como legado uma escola, uma forma de tocar, que influenciou, e continua permeando, vários músicos. Ele, junto com seus companheiros de banda, realizou inovações no rock que até hoje soam como um conceito diferente e explorador, como no Álbum "Ummagumma", ou no "Atom Heart Mother" - 1970. Foi capaz, até seus últimos dias, de lotar estádios e produzir shows magníficos. Quem gosta, vai sempre lembrar daquela figura, no palco, sob as luzes, imprimindo climas e densidades quase que materiais na música, sempre sensível, ás vezes ácido e inquieto. Porém, sempre da melhor qualidade.  

 

                                                                 

     

 

 

 

O novo Bloc Party é o espelho do novo rock

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A maioria das bandas nascidas após o Grunge (fim dos 80 e começo dos 90) - que produziu bons grupos como Mudhoney, Nirvana, Soudgarden, Pearl Jam, Green River, Hole, L7, Dinosaur Jr., entre outros - mergulharam no conceito do indie. Ser indie, hoje, não significa apenas ser alternativo, mas virou um estilo musical. E, esse indie, é, nada mais nada menos, o pós punk que se perpetua engessado há 30 anos, se repetindo numa mesmice sem fim. Formar um grupo de rock, tocar e lançar discos, ficou mais fácil e acessível. A banda inglesa Bloc Party, surgida em 2002, em Essex, Inglaterra, é um exemplo nítido disso. Seu primeiro trabalho, "Silent Alarm", 2005, foi influenciado pelo rock pretensamente grandioso do U2, e por boas bandas como o Sonic Youth, The Cure e Joy Division. O disco, com canções atmosféricas como "Banquet", "Blue Light", "Este Modern Love", já mostrava a vocação do BP para a tensão e a tristeza. Uma característica que colocou o grupo como um dos principais de uma vertente conhecida como "novo rock". O vocalista, compositor e guitarrista Kele Okereke, Russell Lissack, guitarrista, Matt Tong, baterista e Gordon Moakes, baixista, dois anos depois da estréia, colocaram no mercado "A Weekend In The City", que seguiu o rumo do primeiro. Sombrio e com temas obscuros. Um espelho do mundo real, mas, para mim, sempre faltou o principal. Música de qualidade, novidade, inventividade.

                                                                      

                                                    

                             mercury

"Intimacy", o terceiro trabalho do Bloc Party, que já rola na rede e estará disponível fisicamente em outubro, segue o mesmo ritual dos anteriores, mas piorado. Uma reflexão introspectiva sobre a angústia dos tempos atuais, transmitida por uma atmosfera pesada nas músicas. Muito pouco para um grupo que parece ter a ambição de sair da vala comum das inúmeras bandas que surgem hoje, e somem depois de alguns discos iguais e umas poucas canções conhecidas. O que falta, basicamente, além de personalidade e de uma linguagem que os identifique, é sair do lugar comum desse pós punk inanimado. Lá estão o peso e as batidas eletrônicas que os produtores Jacknife Lee (U2, REM) e Paul Epworth colocaram na banda. O disco começa com "Ares", que tem uma guitarra distorcida e uma batera quebrada. Nada de novo. Depois, na mesma canção, vem um vocalzinho mais light, como se fosse um salto do inferno ao céu. Grupos como Leibach, nos 80, faziam melhor, ou mesmo o pesado Ministry. "Mercury" é bem eletrônica, meio desesperado o vocal, mas soa igual a muitas outras bandas. É pretensamente afro, mas para mim é um sampler bem simples, apenas. Na seqüência vem "Halo", um pós punk igualzinho a tantas de tantos grupos, ou não? Contudo, cairia bem em uma pista.

                                                                 

 

E o Bloc Party segue com "Biko" - mais uma homenagem ao líder negro. Legalzinha, é o momento calmo do Cd. Mais samplers e batidas eletrônicas. Um recurso que poderia servir de apoio, porém é um abuso mal utilizado em Intimacy, me passa falta de outras competências e uma linguagem pasteurizada, meio que sem sentido. "Trojan Horse" - uma praga que detona HDs - segue na mesma linha. Batidas repetitivas e guitarras texturizadas na maior parte e que, a mim, incomodam. Mas, nela também existe vida e um verdadeiro solo de guitarra sintetizada, que, mesmo sem criatividade, dá um diferencial a música.  "Signs", com seus sininhos (provavelmente sintetizados), tem um clima legal e calmo, fica bem melhor do que o barulho às vezes non sense da banda. Na letra, romântica e introspectiva - "eu podia dormir para sempre nestes dias / porque nos meus sonhos eu te vejo outra vez" - Kele Okereke mostra a melhor pegada de sua literatura. Ele passa uma quase obsessão esperançosa pelo amor, a seu modo, claro. A música, com um belo teclado na sua terceira parte, tem ecos de prog. Depois, "One Mounth Off" flerta, de leve, com um comedido experimentalismo no ritmo e no coro, e leva um discreto solinho de guitarra.

                                                                             

 

Em "Zepherus" rola a entediante batida eletrônica e um coro pretensamente gregoriano - quem já foi ao mosteiro de São Bento em SP ou viu na Europa sabe que não é bem isso. Na real, é um coral de vozes sacras, mas não dá época gregoriana. E tem "Better Than Heaven" e "Ion Square", ancoradas em bases eletrônicas e com desfechos um pouco grande eloqüentes, mas na medida, sem serem piegas. A primeira tem um boa malha de guitarras, porém, sempre texturizadas por pedais, que parece ser o melhor recurso de Russell Lissack.  A segunda parece U2. E por ai caminha o Bloc Party. O disco em si não é ruim, é mediano, como os que produzem a maioria dos grupos, tipo "Viva La Vida or Death", do Coldplay, que pegou mal tentando imitar o U2, talvez influência do produtor Brian Eno - por sinal excelente, mas que não funcionou dessa vez. Entretanto, o maior problema de "Intimacy", além da limitação dos músicos em pilotar seus instrumentos - apesar da honestidade, boa vontade e tal, é a falta de uma faixa de impacto no disco.  Poderemos ver o grupo no Brasil em outubro no VMB 2008, e no festival Planeta Terra, em São Paulo, no dia 8 de novembro.

                                                                      

 

 

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