Dynamite

Entries for month: March 2008

Monstros

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Existem monstros na noite
Na ansiedade
No desejo intenso de mudança
No poder
Raio de trovão
Gritar e acordar
Dizer, sentir
Alguns fantasmas
E sensações
Pairando pelo ar

Na urbanicidade
Ninguém é o silêncio
Ninguém pode responder
Se existem
mesmo
Esses monstros na noite
Vivendo pelas ruas
Espionando os sonhos
E as percepções
De dentro
Da gente

 

Novo The Racounters

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 O The Racounters surpreendeu o mundo da música ao anunciar, na semana passada, o lançamento do seu segundo e aguardado cd. O Trabalho, chamado"Consolers of the Lonely", estará disponível, exatamente ao mesmo tempo - como informa o release da banda - para as lojas, as rádios, a imprensa, no dia 25 de março, terça-feira. O primeiro single e vídeo do novo Raconteurs será "Salute Your Solution". 

Mas os fans já podem achar as faixas do disco no I Tunes. Jack White, o inteligente e talentoso líder do grupo, e como todo mundo sabe é a mente  e a alma do White Stripes, sempre defendeu que, os fans podem devem ficar a vontade para comprar as músicas que quiserem, sem  a obrigação de ter todo o cd. Dizem por ai que foi sem querer que as faixas foram pro I Tunes, mas é improvável. 

A julgar pelo excelente "Broken Boys Soldiers" (2006), o primeiro do Racounters, um  trabalho energético, tenho boas expectativas em relação ao novo.  Um rock de verdade, com a essência das guitarras e da harmonia em primeiro plano. 

Rock Antigo e Rock Novo, e aí?

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Um dos assuntos que mais tenho lido na imprensa musical (nacional e gringa), e ouvido em conversas com músicos e jornalistas especializados, é essa história de rock antigo e rock novo. Qual é o melhor? Existe o ultrapassado? Só vale o hype up to date? Porque as bandas veteranas são, às vezes, contestadas? Pergunto-me se isso existe mesmo ou é mais um disfarce, um subterfúgio, para mascarar o que em minha opinião é claro e fora de qualquer dúvida, e é o que é relevante. Existe música boa e ruim. Ponto. Em se tratando de rock, esse cara maduro de 50 e poucos anos, anda rolando alguma polêmica em relação à qualidade da produção atual em comparação aos chamados dinossauros e lendas do rock. É claro que tudo se encaixa mais ou menos no contexto da sua época, e não poderia ser diferente. Muita gente abomina as bandas veteranas e outros desqualificam as novas. Por outro lado, pode ser "chique" gostar do que quase ninguém conhece e é novo.    

                                                                   

 

Quando os negros criaram as work songs, no fim do século 19, nos Estados Unidos, o rock começou a nascer. Na época o blues - pai e mãe do rock - brotou no Alabama, Mississipi, Louisiana e Geórgia, como um lamento dos escravos nas plantações de algodão para embalar suas intermináveis e sofridas jornadas de trabalho. As raízes africanas do rock são evidentes tanto em seu ritmo, sensual e vigoroso, quanto nas letras que abordam, basicamente, religião, amor, sexo, traição e trabalho. O blues foi uma invenção genial dos escravos que, espertamente, proibidos pelos escravocratas de cantar suas canções tribais, misturaram seus ritmos a músicas folclóricas inglesas e francesas.

                                                            

Na maioria das vezes, durante décadas, desde os poderosos R&Bs e rocks de Little Richard e George Clinton, passando pelo blues rock britânico de John Mayall e Cream, até o engajamento psicodélico de bandas como Jefferson Airplane, Gratefull Dead e outros, e grupos hard e heavy como o Led Zeppelin, AC/DC e Ten Years After, o rock quase sempre esteve ligado a, digamos, um ideal, um conceito, uma estética, um grito. Os negros, que criaram o rock que os brancos se apropriaram, lutavam contra o preconceito. O movimento hippie, em meio ao LSD e a maconha, pela primeira vez usou o rock como expressão social impactante, atirando suas notas como uma metralhadora contra a guerra do Vietnam e em prol da paz - peace and love. Todo esse contexto rolou até os anos 1970. Uma época de grandes bandas e ótimos músicos, quando todo mundo tinha uma história pra contar e uma mensagem pra mandar adiante. Hendrix, a parte, foi gênio, como John Lennon. Um pelo que fez tecnicamente e espiritualmente, e o outro pela sua luta pela paz e por um mundo melhor.

                                                                       

                                                                                         


  Depois vieram os sintetizadores, o jazz rock, o new wave, o punk, rap, o gótico e tantas outras vertentes. As gravadoras deitaram e rolaram todo esse tempo, ganharam muito e hoje definham chafurdadas no MP3, no Youtube e no MySpace. Sempre existiram muitas bandas em todos os cantos do planeta, mas apenas uma pequena parte delas atingia visibilidade. As realmente boas, àquelas que tinham um bom time, como Deep Purple, The Clash, The Stooges, eteceteras, se deram bem em meio a tantas. A própria estrutura da mídia e dos meios de comunicação, era precária em comparação a hoje. Uma recente declaração do baixista do Purple, Roger Glover, em sua passagem pelo Brasil em março, dá uma noção da cena do rock hoje: "o Purple ajudou, nos anos 1960 e 1970, um período mágico, revolucionário, da música. Na época, havia uma grande profissionalização. Os grupos eram formados por músicos, as gravadoras tinham músicos em suas equipes. Hoje o mundo é outro. As gravadoras estão falidas, estão desaparecendo. Isso rola em grande parte porque as empresas foram comandadas por advogados e contadores. Além disso, a tecnologia se difundiu no mundo, fazendo com que proliferassem novas bandas, e que se tornasse fácil divulgar novas músicas. O que acontece é que o Purple sobreviveu a isso tudo, já estava na mente de todas as pessoas, um clássico, que se mantém atual. É algo que acontece também com o Zeppelin. Essas bandas fizeram algo mágico no passado e continuam queridas em todo o mundo, o que novos grupos não conseguem

 

 

  
 arctic monkeys

                                                            

 Ou seja, tem muita gente hoje fazendo porque é fácil, mas não sabe fazer direito. A questão não é se o Radiohead, o The Killers, o Interpol, o Arctic Monkeys, ou outras novas bandas são melhores dos que as veteranas. Isso é meio irrelevante quando se trata do que se ouviu na vida, nas referências que se tem, e o que se ouve. A partir de que ponto a pessoa começou a ouvir música? Porque, fora alguns virtuosos, mas repetitivos guitarristas como Satriani e Steve Vai (não tão novos assim) onde foram parar os bons músicos? O que eu tenho ouvido, e olha que é muita coisa nova, são grupos repetitivos que parecem estar num labirinto escuro e sem saída, a maioria. White Stripes e Arctic Monkeys fazem shows arrebatadores, mas o primeiro funciona muito melhor que o segundo em disco. Os dois são exceções. The Racounters, com um som nitidamente setentista, é muito legal e prepara seu segundo disco.  Muita gente, como o Luiz Calanca e o Jacques, do Kaledoscópio, apesar de acharem o Myspace genial - e é mesmo porque democratizou a produção e divulgação de bandas e artistas - diz que essas ferramentas são uma faca de dois gumes, entenda-se

 

 


                                                               

                                                                  

Ouvi o Radiohead In Raiwbons a exaustão e, apesar do disco ser bacana, não acho que se justifica tanto oba oba, a não ser pela criativa forma como foi lançado. Muitos músicos brasileiros, e gringos, com quem tenho conversado, afirmam que falta tesão e alma ao novo rock, coisa que tenho dúvidas, mas concordo em parte. É só ouvir o Vanguart pra perceber feeling lá. O mais importante, deixando a qualidade de lado, é saber que cada banda, ou músico, se adequa a sua época. Se o mundo hoje é feito sob uma plataforma de aparências e futilidades, sem muito aprofundamento e com valores que são mensurados por parâmetros duvidosos, porque a música atual seria diferente desse modelo? "Em tempos de mesmice", como diz o maestro Júlio Medaglia, "a música é linear e de fácil digestão". Não acho que isso seja ruim, e que toda música deva ser complexa, mas qualidade é fator básico. Porém, é muito chato ver bandas abusando de compressores e delays para compensar a falta de qualidade. Nesse ponto, os grupos brasileiros mostram mais opções, criatividade e soluções. O que mais me pergunto quando ouço novas bandas é: Onde estão os solos de guitarra que pegam na alma? Alguém fará uma nova Watermelon In Easter Hay? Ou, ao menos, algo com a mesma fúria intensa, doce e sensual? Alguém ai conhece Watermelon In Easter Hay?   

 

            

 

 

Charles Bukowski

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                                 "Eu odeio pessoas, você não? Não. Só quando elas estão perto de mim"

 

Aproveitando a recente polêmica, quase boba, que rolou na coluna da querida Maíra Hirose em relação ao escritor Charles Bukowski, seguro o gancho para reproduzir uma recente matéria que publiquei no número especial impresso - comemorativo de dez anos - da Revista Dr. Chico, do amigo de anos Antônio Parlato, músico e ex-batera do Inocentes, em sua fase áurea. Quando li "Cartas na Rua", em 1984, dica de uma amiga, na medida em que mergulhava na impactante descrição da vida feita pelo Buck, sem piedade, frescuras e hipocrisia, de vez em quando fechava o livro e pensava, "esse cara é dos meus". A literatura de Charles Bukowski, autobiográfica, amplamente lúcida e, sob um ponto de vista, até asquerosa, é genial. Como Kerouak, Baudelaire, Breton, Rimbaud, Artaud, Leary e Hemingway - ídolos em seus tempos - tornou-se um ícone da arte marginal. Bukowski, um dos escritores contemporâneos mais influentes, imitados e conhecido por sua linguagem ácida, cheia de palavrões e situações bizarras, nasceu na Alemanha em nove de agosto de 1920 (pai americano e mãe alemã) e mudou-se para os EUA aos três anos. Em sua agitada e etílica existência, coexistiu com as gerações beatnik (a literatura de Buck às vezes é confundida com a beat, mas não tem nada a ver e ele abominava qualquer comparação nesse sentido), hippie e punk, com sua volúpia de beber cerveja, escrevendo a mais pura literatura das ruas, dos bares e do vômito lúcido que exalava de sua máquina de escrever. Anarquista, cínico, marginal, antiacadêmico, anti-grupos literários, lírico, alcoólatra (ele não se achava), machista (no fim da vida mudou um pouco), politicamente incorreto, escatológico, e um sensacional escritor, falava de pessoas comuns, que bebem, que não tem futuro, que correm atrás da grana para pagar as contas e andam na contra mão do "vencedor", aquele modelo babaca do norte-americano perfeito. Bullshit!!

O Velho Safado, como é conhecido, viveu e morreu (em 1994 aos 74 anos) na Califórnia, em Los Angeles. Tinha um ódio mortal do seu pai psicopata, que constantemente o espancara na infância e adolescência, sem motivos aparentes, aos olhos de sua mãe, omissa. Apelidado de Hank, foi um jovem estranho. Sentia-se como um alien na efervescente Los Angeles do "boom" hollywoodiano, o que era ainda mais acentuado por sua aparência bizarra. Seu rosto era coberto pôr espinhas monstruosas que jorravam pûs. Nos anos 1940 perambulou pelos Estados Unidos, fazendo trabalhos braçais e levando uma vida errante entre brigas e bebedeiras. Sempre adorou as corridas de cavalos e, como um guerreiro que espreita, olha e vê, conquistou seu espaço na  literatura a duras penas. Teve textos recusados por revistas e jornais, muitas vezes. Começou a ficar famoso nos anos 1960 e passou a freqüentar festas e eventos de poetas beats, como Allen Ginsberg - quando quase sempre era irônico e manipulador - roubando a cena com seu sarcasmo e sinceridade impiedosa. William Burroughs o esnobava, mas Jean Paul Sartre era seu fã (alguns dizem que ele mesmo inventou isso). Como legado deixa, mais do que os cerca de 50 livros publicados, entre romances, prosas e poesias, a lição de que a vida é feita para ser percorrida com intensidade, em liberdade e sem limites. Uma opção bem complicada para a quase totalidade das pessoas que moram no planeta dinheiro/aparências/poder. Mas lá no íntimo da sua alma, qual seria o real sentimento vivido pelo escritor que escolheu um modo de vida alternativo e desponjado? Para um cara que se achava durão, teve suas pirações, seus medos e inseguranças. E, ao contrário do que muitos pensam, não morreu por causa do álcool, mas sim devido a uma leucemia. E drogas, apesar de ter usado em algumas ocasiões, achava coisa de caretas!

 

                                                                                                                                    

Arte da Transformação

"Mulheres", uma das suas obras mais conhecidas, relata as bebedeiras de Henry Chinaski - um dos seus alter egos -  e seus conturbados relacionamentos com várias mulheres: Lilly, Lydia, Valerie, April, Dee Dee, Nicole, Mindy, Tammy, ...etecetaras. As personagens foram baseadas em suas namoradas e casos e, algumas delas, identicando-se, ficaram chocadas com a descrição "sem dó" que o escritor fez. É quase uma viagem lisérgica pelo mundo do sexo, das corridas de cavalo e da ressaca. Tudo bem amarrado, explorando a riqueza dos relacionamentos, retratados cirurgicamente através de um texto direto e avassalador, que disseca a alma e as fraquezas das pessoas, expondo-as ao limite da piração. No clássico "Hino da Tormenta" ele relata a morte de Jane Cooney Baker, uma das suas mulheres mais preferidas e admiradas, e que literalmente bebeu até morrer. Foi uma das fases mais tristes da sua vida. Depois do enterro, bebeu sem parar por semanas e ficou deprimido por meses. Falido e doente, passada a tormenta e a vontade de suicídio, começou a produzir muito, e brilhantemente. Enfim, chamou  atenção de editores e críticos como algo novo na literatura. Para ele, a imagem do sonho do "american way of life", é uma lata de lixo onde ele cospe sangue sujo. E isso era novo, real e interessante. Em alguns poemas de "Hino da Tormenta" fica nítido que, camuflada na aparência decadente de seus personagens, se esconde uma  poesia estruturada e ambiciosa, como é o caso do "A Chupada do Gargalo da Garrafa", onde a rotina de um bar é interrompida por uma mulher desdentada, que não hesita em tirar a roupa em troca de um gole de whiskie, ou o poema:

 
            me levou 15 anos para humanizar a poesia
            mas será preciso mais do que eu
            para humanizar a humanidade

 

                                                                       

 

 Admirado por gente como Norman Mailer e Henri Miller, foi transformado em quadrinhos por Robert Crumb e viu filmes serem produzidos a partir dos seus livros. Mickey Rourke e Sean Pean (de quem se tornou amigo - acabaram estremecidos porque Buck achava Madonna decadente) disputaram o papel de Bukowski no cinema. Burfly (1987), com Rourke e Faye Dunaway, é uma ótima trilha visual para sua obra, uma mescla de passagens de vários livros transformado em roteiro por Hank, que acompanhou as filmagens de perto. O grande diferencial do seu trabalho foi descrever a sua própria vida da maneira mais nua possível. Visceral, falou de seus amigos, das amantes (Linda Lee foi a sua esposa preferida), dos companheiros de copo e de trabalho. "Cartas na Rua" é um soco no estômago que descreve os doze anos em que trabalhou no correio,  em Los Angeles, nas décadas de 1950 e 1960. Entre a organização de correspondências e pacotes, a entrega de cartas, fodas, idas as corridas, garrafas de vinho barato e vômito no assoalho do seu velho quarto, entre as "coisas nojentas" da sua literatura, Bukowski tem a competência de produzir um texto requintado em relação à condição humana tão "over" em que vivia. O que ele diz não é nítido e claro, porém flui de forma discreta como pequenos goles de Jack Daniels, caubói. A arte de transformar o thrash em emoção. Porém, ao contrário da imagem definitiva que muitos têm, o escritor passou a viver com um certo conforto a partir do início dos anos 1970.

                                                                  

 

Beber é Uma Necessidade

O jornalista inglês Howard Sounes (também biografo de Bob Dylan), ao escrever "Charles Bukowski Vida e Loucuras de um Velho Safado" (Editora Conrad), fez um livro bem legal. E foi fundo. Conversou com quase todos os amigos, amantes, companheiros de copo e familiares do escritor. Teve acesso a correspondência íntima de Bukowski e aos seus trabalhos inéditos. No prefácio ele descreve o genial escritor. "Bukowski tinha uma aparência estranha e um modo peculiar de falar. Era um homem alto, de um metro e oitenta, encorpado, com uma barriga de cerveja, mas sua cabeça parecia grande demais para o corpo, e o rosto era assustador como uma máscara de Frankenstein: queixo comprido, lábios finos, olhos tristes, apertados e encovados". Uma descrição questionável. Mas, o grande rosto marcado pelas espinhas, o nariz de beberrão e uma barba desigual, isso sim o caracterizava fisicamente. Não gostava de badalações, dar entrevistas e de falar em público, mas dar palestras não era incomum. Um outro trecho do prefácio sintetiza sua atitude anárquica em lidar com a fama: "Certa vez, em São Francisco, levantou-se da cadeira e pegou uma cerveja na geladeira, atrás dele, no palco. A platéia aplaudiu enquanto ele bebia, emborcando a garrafa até tomar a última gota dourada. "Isto não é uma muleta", disse ele, falando lentamente, com uma cadência na voz, como W. C. Fields. "É uma necesssssidade".


No início dos anos 1990 ganhou de sua filha, Marina, um Macintosh. Fascinado pela utilidade do "brinquedo", ficou revigorado e voltou a produzir com entusiasmo. Em 1992 escreveu "The Last Night of the Earth Poems", seu primeiro trabalho com um computador. Uma das coisas mais legais, e que deixou Hank envaidecido nos seus derradeiros anos, foi quando foram a um show do U2, em LA. Bono Vox dedicou o show ao casal Bukowski e um grande urro foi ouvido no estádio (O U2 gravou uma música em sua homenagem, ´Dirt World`). O Velho Safado morreu em nove de março de 1994 deixando a maior parte de sua obra inédita. Bukowski foi, é isso. Um escritor diferente, uma alma em constante ebulição, com uma visão crítica profunda e afiada de uma sociedade repleta de contradições e paradoxos. Sua escolha pelos bares "hard", pelas putas, pelas quaisquers, pela "escória" dos desamparados, pelos amigos simples e beberrões, pela estética do anti-tudo, pela literatura tosca, crua, mas artisticamente competente, o tornou imortal. Como fã de carteirinha do velho Buck finalizo com um diálogo genial do mestre: "Eu odeio pessoas, você não?  Não. Só quando elas estão perto de mim" .                                                       

 

A seguir uma colaboração do sempre amigo e companheiro, o jornalista, tradutor e editor, Luiz Chagas, comentando um dos mais recentes lançamentos inéditos do velho safado no Brasil.

 

O Capitão Saiu Para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio
Charles Bukowski
(L&PM Editores, 142 páginas)

Por Luiz Chagas

Entre 1991 e 1993 o escritor californiano Charles Bukowski (1920-1994) escreveu um diário que, de certa forma, serviria como seu testamento sócio-literário. O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio (L&PM Editores, 142 páginas) lançado em 1999 traz trechos desses textos em que o "velho safado", como era chamado, faz um acerto de contas consigo mesmo. A tônica pode ser exemplificada pelo final soberbo do livreto onde Bukowski resolve responder a um leitor que há muitos anos havia escrito a ele condenando-o por declarar que não gostava de Shakespeare, dando "mau exemplo" para a juventude. Depois de todo esse tempo a resposta foi "vai se (*), colega. E eu também não gosto de Tolstoi!". Puro Bukowski.
 
Nascido em Andemach, Alemanha, filho de um soldado americano de origem polonesa e uma alemã legítima, Bukowski passou a maior parte de sua vida em Los Angeles, onde chegou aos 3 anos. Embora começasse a escrever nos anos 1940, só decidiu viver de literatura na virada dos anos 1970. Nesse meio tempo trabalhou para os Correios e perambulou pelos Estados Unidos - a vida "na estrada" deve ter colaborado para que o autor seja confundido com os escritores beat, com os quais não teve qualquer contato.
O capitão reafirma sua paixão por Dostoievski, Descartes, Kierkegaard, Gorki e Céline. De moderno, apenas Hemingway e Miller. Enfim, um clássico que se atribuía a redescoberta de John Fante (1909-1983), de quem herdou o ambiente (Los Angeles), a narração através de um alter-ego (Bukowski - Chinaski, Fante - Bandini) e a estadia neste vale de lágrimas (74 anos). No livro o artista outrora considerado o terror das feministas descreve as delícias de se escrever em um computador Macintosh, viver um casamento estável com uma condição financeira confortável, ouvir a música de Mahler, observar os cavalinhos e os freqüentadores do jóquei e, à exemplo de Vinicius de Moraes, ver a vida de dentro de uma banheira - com hidromassagem. A edição é valorizada pelas ilustrações igualmente "clássicas" de Robert Crumb - que já havia ilustrado Bring me your love (1983) There`s no business (1984). O grosseirão se despediu com classe.


Luiz Chagas traduziu "Mixto Quente", de Bukowski, e obras de escritores beats.

 

 

 
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