Dynamite

A Influência dos Aspargos no Asfalto da Zâmbia

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                                                    cyberpunk                                     

Existem 25 cidades perdidas dentro do mundo. São 25 momentos recheados com wodca e canções negras. E R&B e punk rock misturam-se com idéias marxistas e ecológicas, juntam-se artístas de grafite a mentores do conservadorismo intelectual elitista. Vivemos pelos cantos undergrounds da vida. Multipintando muros solitários pelas noites, vendo les enfants terribles sorrindo para a música e a bomba. Dez mil pedaços de bananas e caramelos, tudo pelo ar com champanhe avec fromage. Existem 25 pirâmides nessa selva. Também existem computadores quânticos que se desdobram pelos mantras da Índia num pranto doce e poético. Olhares dispersos pelas ruas do Marais são como o choro e os sussurros das crianças de Bagdá, que apenas conhecem o universo da destruição da guerra. Existem 25 planetas destruidos. Existem muitos sorrisos destroçados por aqueles mesmos que edificaram as moradias da pequena burguesia decadente. Quero mais 25 quilos de amor e sexo, como um astronauta que vê a sua imagem num espelho partido. Falemos de nós como bombas humanas. Existem vários lugares para se detonar lágrimas de consciência e viajar pelo espaço da liberdade e da poesia. Eletricidade exposta.                                                             

                                          

                                                        taarna

Existem 25 gritos silentes. Momentos e diafragmas da vida. Punks solares de Amsterdã me perguntam todos os dias de você. Tomo mais uma e sinto os solos rápidos e crus do punk rock. E admiro as montanhas olhando-as bem no fundo da alma. Transeuropean Express. A dor é para ser sentida, à distância para ser destruída. A minha imagem mental mistura meus sonhos as cores da praça mais louca da cidade. 25 melodias sagradas partem de uma máquina de coca-cola que fabrica comida em pó para cachorros que leram 1984 e ficaram loucos. Como uma overdose de heroína com o evangelho das escrituras sagradas. Não sei o que a lua faz pelo céu se não abriga seus filhos televisivos e discípulos do 25 e do 69. Falemos da pequena centelha de erva que penetra no sexo da mulher, fecundando a mãe louca de um grupo de cyberpunk rock que canta o fim do mundo. Homem digitalizado, pós humano, sexo sem secreções, pós sexo, conhecimento holográfico instantâneo, onde tudo se transforma em poeira e senhas. Amor e energia. Transformo-me à noite, todas as noites, sob o sol da meia noite. Sinto teus olhos distantes penetrando na minha pele, na minha luz, na minha realidade.                                            

                                                                                                      

                                                   serge gainsboug

Existem muitas estradas que podem nos levar a felicidade. Ouço Rádio Ethiopia, dela mesma, solta no ar, viajo com sons etéreos e com o rock feroz. Deserto da faixa de Gaza. Mais uma história de guerra e missionários que beberam dos cogumelos mágicos. Vejo teus pensamentos. Eles me parecem distantes e disformes. Eles me parecem irreais do instante complexo que passa pelo dia a dia europeu. Quero apertar mais um e recolher as palavras e estrelas com um detector de sentimentos verdadeiros. Assim ando numa história real de vida, numa desenfreada corrida contra o tempo, num gesto que não entendo e discordo. Apenas vejo os planetas caminharem para teus olhos grandes e sem cor. Apenas sinto 25 beijos ininterruptos e inconformados. Doce sensação. Como uma suave brisa das praias do Brasil eu bebo uma cerveja de Munich. Percebo a grandeza e a pequeneza. Micro e macro cosmos. Uma energia muito louca e forte que arrebata e possui. Pelos opostos a tecer a emoção. Existe uma vibração para cada profeta. Existem perigosos caminhos para a humanidade porque, principalmente, precisamos ser algo de futuro que contribua para o desenvolvimento da máquina. Que merda cheirosa!                                                     

                                                            

                                               

                                                            caos

Vejo teus olhos no cair da noite, escrevo poesias, conflitos com les flics. Somos squaters de coração e fé. E deve existir algo mais importante que nossa vida de animais pós-adolescentes. 25 posições diferentes. Magia e incógnitas dos druidas e alquimistas. Gemidos nos nossos olhares sobre os muros proibidos. Existe o momento inevitável quando nos encontramos e produzimos o amor entre nossas mentes e corpos físicos e espirituais. Somos selvagens a procura de amor e de verdades interiores. Somos heróis por muitos dias porque despertamos, cultivamos e preservamos os nossos sentimentos.
Você cria formas que andam e percorrem os lugares dos loucos. Na parede da memória de uma certa estação do metro parisiense. Momentos de tesão total. Você cria formas afrodisíacas, você possui segredos que percorrem a constelação de Órion. Você criou a imagem de Abraxas a grande deusa do universo. Abraxas, a feminina, voltou imersa em fluídos mágicos. Abraxas voltou em sua nave envolta numa enorme bola de fogo. E recriou a importância dos aspargos no asfalto da Zâmbia. Todas as relações voam sobre os campos, atravessando montanhas e o oceano. Sabemos que tudo existe, que tudo é muito evidente. Abraxas é a mulher artes e amor. É o princípio, o meio, o fim, a idéia, a luta e a persistência. O principal elo entre a iniciação e o espaço cósmico. As mudanças, a construção das novas realidades e conceitos de todas as ordens. Arts/rats/póseresia.

                                                                     

                                              

                                                   spor cyberpunk

 

 

 

Sonic Youth volta com classe e barulho

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                                           sacred trickster -  santiago do chile 

 

Sempre preferi o Sonic Youth ao vivo pela pegada do seu noise rock com filosofia punk, como pude comprovar no Claro Que é Rock, em 2005, que os discos. De todos os seus trabalhos, "Daydream Nation", 1988, "Goon", 1990, e "Dirty", 1992, talvez sejam os que mais sintetizem a força das experiências sonoras que a banda faz ao misturar pós punk off mainstream com linhas melódicas bastante criativas e peculiares. Formado em Nova York, em 1981, foi um ícone da cultura alternativa americana por um bom tempo. Apesar de ter alcançado certo sucesso de público, seu som sujo, de guitarras distorcidas e arranjos nada deglutíveis para a maioria, sempre o colocou no topo das grandes bandas do rock americano. Da formação original restam Thurston Moore, guitarra e vocal, a sensacional, baixista, guitarrista, compositora e vocalista Kim Gordon e Lee Ranaldo, guitarra e vocal. Steve Shirley é o atual baterista. "The Eternal", Cd de 2009 que já caiu na rede e, de acordo com o site da banda - http://sonicyouth.com/mustang/lp/index.html - estará nas lojas em junho, termina com um hiato de três anos após "Rather Ripped", de 2006, e resgata os melhores dias dos barulhentos novaiorquinos, que bem que poderiam tocar aqui ainda esse ano. Enquanto Santiago do Chile teve seu show, em março último, nós ficamos a mercê de produtoras que preferem apostar em bandas decadentes como o Depeche Mode, que ressuscitou da tumba com seu mais recente álbum, "The Sounds of Universe", um synth pop démodé e datado.

                                                                 

Vamos ao noise. "The Eternal" passa, de cara, uma mensagem às bandas novas que se perdem no segundo ou terceiro trabalho, emparedados por guitarras pasteurizadas e sem alma, e pensando mais em ser o hype do momento, do que criar uma carreira consistente: Envelhecer com classe produzindo uma música de qualidade e sincera. O disco é com certeza um dos mais elaborados trabalhos do SY, segundo a própria banda. As melodias dividem espaço com os experimentalismos característicos do grupo, como os vocais compartilhados entre Kim Gordon, Lee Ranaldo e Thurston Moore, acompanhados de perto por Steve Shelley na bateria e marca também a "estréia" de Mark Ibold - ex-Pavement - como segundo baixista oficial da banda. Tem um pouco de tudo, heavy, colagens de sons que remetem a um patchwork de informações sonoras, mensagens cheias de ruídos com sentido. E guitarras, muitas guitarras. "Sacred Trickster", a faixa de boas vindas, é bem punk rock e ganha um motivo a mais com a voz de Kim - What's it like to be a girl in a band?/I don't quite understand/That's so quaint to hear/I feel so faint my dear/ Doing nothing, sitting around/Sacred trickster in another tight sound - demonstrando que as letras tem um peso bacana na música dos Youths. Já "Anti-Orgasm" tem guitarras bastante orgânicas, uma muralha que segura os picos de bateria e uma organização perfeita de um pseudo barulho. Parece uma coluna de tanques indo à batalha e despejando fogo. A terceira canção é mais calma. "Leaky Lifeboat (for Gregory)" lembra Iggy Pop do Stooges, aquele jeito de cantar, backings bem colocados e nada de exageros, menos noise, mas bem elaborada, quase um King Crimson aos 2:56 min. São influências sinceras, das boas, que o Sonic faz brotar em sua arte.

                                                                   
Bem tranquila, quase como uma brisa de outono, começa "Antenna", bem simples, na forma exata de uma balada fora do comum, gostosa, com personalidade, linguagem própria. Ranaldo canta, uma guitarra rasga o ar e se expande num solo denso, um completo sentimento mágico como a letra diz. Que raiva dos incompetentes que não trazem a banda pra cá!!! "What You Know" é uma viagem, tem psicodelismo cru e uma base que se moldou no noise hard de guitarras descabeladas, muito. Talvez a melhor do álbum. Um baixo bem marcado, a guitarra cresce e se acomoda na cozinha com primazia. De novo o baixo compassado abre a porta para as guitarras cruzadas em "Calming The Snake", perfeita para a voz da já veterana Kim Gordon, que não perdeu a gana pelo rock and roll. O Sonic Youth é uma grande banda porque, essencialmente, é um grupo que privilegia a criatividade e as guitarras, itens indispensáveis ao rock e hoje tão esquecidos pelos indies. Daí em diante vem "Poison Arrow", bastante iggypopiana, mas sem perder o calor e as pedaleiras características das Stratos e Gibsons a todo vapor. Linhas de guitarras bem diferentes e próprias do SY. "Malibu Gas Station" destoa um pouco do trabalho, é um pouco longa e repete partes inteiras na evidente mixagem. As três últimas são a cereja do bolo. "Thunderclap (For Bobby Pin)" tem uma letra bem humorada e talvez o melhor solo, o mais longo, do Cd. Desgaste total nas cordas, noise com consciência, rock puro. "No Way" e "Walking Blue" levanta qualquer cansado da vida. A primeira até pode cair bem no dance floor, a segunda é uma experiência quase elemental, bem sedimentada nos melhores sentidos climáticos das baladas barulhentas do Sonic Youth, um grupo místico. Anyway, "The Eternal" é um discasso que não faz concessões para as bobagens hypadas e mostra quem manda na área do rock alternativo.

                                                                            

                                                                     


Neil Young, de novo salvando o rock

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                                               hit the road

                                                         

Neil Young, talvez o músico que melhor expresse a alma e a vitalidade do rock, está de volta com o Cd "Fork In The Road", provando sua incansável capacidade de produção. Young, de forma magnífica e furiosa, reitera sua importância para o mundo da arte com um trabalho que supera quase todos os lançamentos do ano, até agora. Do alto dos seus 64 anos, sempre fez da música um veículo de luta contra as guerras e outras formas de violência. Foi assim nos anos 1960/70 contra a guerra do Vietnã, nos anos 1990 e até hoje gritando contra as invasões no Iraque e Afeganistão, e agora, quando saca sua guitarra contra a crise mundial. Se antes criticava Bush, como em "Living With War" (que recebeu três indicações ao Grammy), de 2006, em "Fork In The Road" fez um Cd onde fala de ecologia, relações humanas e da crise econômica: "A ajuda está chegando, mas não é para você", canta na faixa título, um blues sujo que fala sobre pacote econômico do governo dos EUA de auxílio aos bancos e empresas. Com muita inspiração, o canadense lança um discasso, parecido com seus melhores, os dos anos 70.                                                                   

                                      

                                        when the world collide 

 Lenda do rock, o músico de raízes folk sempre transitou muito bem no rock, e até no hard. Clássicos como "Hey Hey, My My", "Helpless", "Rocking in The Free World", "Harvest Moon" e tantas outras, o colocaram constantemente no alto das listas dos melhores e lhe deram escopo para ser considerado um dos mais relevantes de todos os tempos. Sendo solo, ou nos grupos Buffalo Springfield e Crosby Stills, Nash & Young, moldou seu som de forma sólida, pesada e com conteúdo intimamente ligado ao contexto da época. "Fork In The Road" abre com a suja "When Worlds Collide", uma canção espessa, onde a voz anasalada de Young arregaça sua ira contra os esquemas que apenas favorecem aos ricos. No melhor estilo do rock clássico as guitarras interagem todo tempo. Uma bateria pesada abre "Fuel Line", um rock que espelha o espírito do disco: carros, porque durante a crise da indústria automobilística americana, uma das inspirações foi um projeto chamado LincolnVolt, ao qual Neil Young se dedica há algum tempo e tem o objetivo de transformar seu carro, um Lincoln Continental 1959 movido a gasolina, num carro elétrico.                                                                     

                                                 

                                                rockin in the free world

"Just Singing a Song" é sensacional, emocionante e, como uma autêntica balada youngiana, tem uma guitarra poderosa, que pega no estômago amparada pela letra - "canto as canções para mudar o mundo" - que talvez ele consiga fazer mesmo em doses reduzidas, mas com o coração. A variedade do rock de Neil Young, a forma como ele estrutura suas músicas, é exemplo para uma geração de músicos que parece atualmente perdida. Como bem questionou Humberto Finatti na zap `n`roll, o rock não morreu, mas carece de talentos que pulsem acima da pose e da fama, e se entreguem com amor pela música usando a criatividade. Em "Johnny Magic" a velocidade sobe e o rock come solto com simplicidade e voracidade. Um solo distorcido, uma das características marcantes de Young, arremata a revolta da gana das instituições financeiras e as joga na sarjeta. "Cough Up The Bucks" atesta toda a flexibilidade da grande gama de surpresas que vivem na mente do genial músico. Sincopada e escorada, sempre, em guitarras personificadas, prepara o caminho para "Get Behind The Wheel", um blues matador no melhor estilo Buddy Guy, com aquele andamento gostoso e licks próprios do gênero.

                                                                

                                              

                                                            fuel line                

 Eu, como um fã de décadas de Neil Young, um artista que faz parte da minha vida, prazerosamente ratifico que o cara é foda.  Lembro do show - o único - que fez aqui na década de 1990, e não entendo porque os promotores de shows não o trazem de novo. A sétima faixa, "Off Road", é uma balada delicada que me leva a paisagens estradeiras dos desertos norte americanos. Paris-Texas. Área 51. A seguinte, "Hit The Road", segue na mesma linha. Uma torrente de classe, bom gosto e qualidade. O melhor em Neil Young é sua versatilidade, desde as freeways até as vicinais, por onde seu rock de verdade voa e metralha sem dó os políticos, banqueiros e aproveitadores.  "Fork In The Road" é um disco bem equilibrado, conceitual, todo tempo. A penúltima faixa - das dez - "Light a Candle", começa com um lindo dedilhar em cordas de um violão acústico, lembra à clássica "Helpless". Young leva seu som até o mais alto degrau do rock com esse refinado blues canção. E, para terminar o Cd de forma a não deixar dúvidas do grande trabalho, a canção título é um roller blues visceral, bem Freddie King, que comprova como o canadense é diferente em tudo de, por exemplo, Alex Kapranos, que já em seu terceiro trabalho a frente do Franz Ferdinand, perdeu o rumo da coisa.  Até agora Neil Young investiu cerca de US$ 120 mil para transformar seu Lincoln Continental em um carro elétrico. Ele acredita que até o final do ano possa dirigir seu automóvel ecologicamente compatível e incentivar seus admiradores a fazer o mesmo.

                                      ouça o disco -     http://www.myspace.com/neilyoung

 

 

 

 

 

Woodstock comemora 40 anos com um novo festival

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                                                  hendrix - purple haze

O período entre 1967 e 1970 foi mágico e essencial para a cultura pop. Foram três anos nos quais os hippies- a juventude - no meio do furacão flower power abraçados pelos verões do amor, entre a descoberta do LSD e da meditação, flutuaram pelas revoltas políticas e comportamentais. Foi sob uma irrevogável mudança de conceitos e uma forte contestação do modo de vida ocidental bem comportado que surgiram os grandes festivais de rock. Inspirados no Newport Jazz Festival, criado em 1954, o Monterey Pop, 1967, Altamont, 1969 e Woodstock, 1969, mais do que reunirem bandas e músicos para concertos de rock, uniram milhares de jovens em movimentações pacifistas e antifascistas, que na época se guiavam contra a intervenção americana no Vietnã.  Em 2009 comemora-se 40 anos da Nação Woodstock, o mais importante e emblemático festival de todos os tempos. Aquele que espalhou pelo mundo paz, amor e rock and roll e a noção dos grandes eventos de música. Michael Lang, promotor do Woodstock, o cara que sacou que a contracultura, que terminava uma década com grandes conquistas, precisava de um desfecho insuperável. Naquele tempo um festival não se limitava em unir vários nomes estelares do rock. Havia todo o clima de liberdade, ideologia, atitude, experiências místicas e esperança num planeta melhor e sem guerras. A lembrança que tenho desse tempo é a descoberta do rock, através dos meus primos mais velhos. 

                                                     

                                                       the who - my generation

Além de nomes como Jimi Hendrix, Joan Baez, Ravi Shankar, Santana, Country Joe McDonald, Mountain, Janis Joplin, Grateful Dead, Creedence Clearwater Revival, Sly and Family Stone, The Who, Jefferson Airplane, Joe Cocker, Ten Years After, The Band, Johnny Winter e outros mitos da música, Woodstock tinha ingredientes que fizeram dele "O" Festival. Ar livre, longe da cidade, um público de 600 mil pessoas com a intenção e disposição em formar algo mais que uma simples platéia de rock. Todos estavam ali para algo que transcendeu a música, uma celebração tribal, um ritual de união do clã. Bem diferente dos festivais de hoje onde as pessoas mais desfilam "tipos" do que sentem o astral (especialmente no Brasil). Jamais tinha se visto tantas pessoas reunidas num só lugar numa mistura exoticamente heterogênea, com os cabelos desalinhados e roupas multicoloridas que seriam reconhecidos, vividos, e imitados poucos anos depois, e até hoje. "No domingo pela manhã, estávamos atordoados, imundos e famintos. Meu irmão achou que era hora de irmos embora e nos arrastamos até a saída, passando entre milhares de companheiros animados. Assim, minha lembrança de Woodstock é de boa música, cordialidade, alguma indignidade e muita gente, todos trazendo em os impulsos contraditórios da contracultura", lembra Jon Parole.

                                                       

                                                 janis joplin - piece of my heart

"Hendrix joga na cara da platéia branca toda sua aversão ao modo de vida americano recriando o hino americano, "Star Spangled Banner", de forma jamais vista. Deixando todas as letras das canções e poemas de protesto da época quase inócuas, Hendrix transformou o hino numa paisagem sonora de insuportável crueldade: numa performance invejável (e insuperável) incorporou à melodia original, ruídos e roncos assustadores, terríveis, desesperados e estridentes das explosões das bombas de Napalm e dos caças supersônicos com que os EUA incendiava o Vietnã, enquanto a juventude gritava por paz e amor. Reunindo política e sons de uma nova era (que queria sem fanatismos ou guerras de exploração) ele aponta em Woodstock para a necessidade da atual terra devastada. Por isso aparece muito distante, inatingível pelo público, tocando já para outras galáxias e seres interplanetários. Não mais para a Terra. Para o cosmos", Echison Tito.

Em agosto desse ano, em Berlin ou Nova Iorque, está programado Woodstock 40 anos, também produzido por Michael Lang. A celebração, óbvio, estará longe dos princípios e da energia que permearam o original. O mundo é outro, a música mudou e a indústria cultural saturou o planeta de um pseudo rock sem quase nenhuma atitude, salvo raras excessões. A boa notícia, além do próprio evento em si, é que os promotores deste Woodstock 2009 vão apostar no regresso ao estilo musical da primeira edição. Estão falando em nomes como The Who, Santana, Crosby, Stills. Nash and Young, Joe Cocker e outros que estiveram em 1969, mesclados ao que de mais rock existe nas bandas atuais, como Racounters, Ministry, Metallica, Red Hot Chilli Peppers, Radiohead e Oasis, por exemplo. Lang disse ao "The Times" que precisa encontrar um patrocinador que disponibilize os cerca de 10 milhões de dólares necessários para financiar o festival. Além disso, para a comemoração o diretor de cinema Ang Lee prepara "Takina Woodstocky", uma nova montagem de "Woodstock: 3 Days of Peace and Music", um filme de 1970 que ganhou o Oscar de melhor documentário. Uma caixa com seis CDs do must festival e um livro intitulado "The Road to Woodstock", do próprio Michael Lang, também estão em pauta. Sob o lema "Por um Mundo Verde", Lang disse que pretende estimular e fomentar a consciência ecológica e chamar todas os músicos ainda vivos do Woodstock original, realizado em uma fazenda próxima a Nova York, com o slogan original "Três Dias de Música, Paz e Amor".                                                            

                                            

                                          ten years after - coming home

Alvin Lee chegou a Woodstock de helicóptero: "Dava para sentir o cheiro de maconha lá de cima. Nosso show atrasou e eu resolvi dar uma volta entre o público. Estava todo mundo tão chapado que ninguém me reconheceu e as pessoas me deram ácido, maconha e bebida. Foi legal!". O Ten Years After arrasou o quarteirão, aliciando logo de início o público com a virtuosa e vibrante exibição do seu guitarrista. Alvin Lee, agitando a cabeleira loira e velozmente solando na visceral "Coming Home", manteve a selvageria do primitivo rock`n'roll conduzindo todos à viagem sonora. Durante a chuva calcula-se que 200 mil pessoas dançaram nuas sobre a relva verde de White Lake, para depois irem nadar nas águas de um rio próximo. Max Yasgur, proprietário do local onde se realizou o festival, disse: "Woodstock provou ao mundo que meio milhão de garotos podem ficar juntos para curtir alegria e música, e só alegria e música. Deus os abençoe por isso". Ou, como escreveu Joni Mitchell, a grande musa de Crosby, Stills, Nash & Young na canção-hino Woodstock: Nós somos poeira de estrelas / nós somos ouro /somos carbono de um bilhão de anos /e precisamos retornar ao Jardim.

                                              

                                              joni mitchel - woodstock

                                                                                                                    

 

Heroína e Rock`n`Roll, um diário devastador

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                                                    heroin diaries                        

 Nunca gostei de bandas como Mötley Crüe, ou grupos de gênero metal farofa, Poison, Wasp, essas coisas. Porém, lendo "Heroína e Rock'n'Roll: o diário de um ano devastador na vida de uma estrela do rock" lançado pela editora Larousse, com a contribuição do jornalista Ian Gittins, no fim de 2008, fiquei impressionado com a trajetória de Nikki Sixx, baixista do MC e autor do livro.  Angustiante e visceral - a obra que serve de exemplo para profissionais especializados em reabilitação e até junkies - é um relato cru e chocante do ano de 1987 na vida do músico. Só, sem amigos, Nikki Sixx perambulava nu com uma agulha enfiada no braço, debaixo da árvore de Natal em sua mansão em Van Nuys, distrito de Los Angeles. Assim começa a história de um ano com muito sexo, drogas, rock and roll, confusões e excessos. Mas, sobretudo, de uma profunda reflexão e um mergulho nas lembranças da infância e na família desestruturada. Os relatos do diário vêm acompanhados de comentários feitos por gente que fazia parte do círculo de amizade do próprio, durante a época hard do vicío, e após ter se recuperado da cocaína e heroína e organizava o livro.                                                       

                                    

                                          life is beautiful        

O texto se desenrola entre afirmações de adoração às drogas, momentos de profunda paranóia e relacionamentos conturbados, como com Vanity, uma ex-dançarina de Prince que se envolveu com o baixista numa relação tumultuada e hoje virou crente. A alternância entre os momentos de êxtase, ao se aplicar a droga, e os momentos de consciência de suas responsabilidades com a banda, dá um contraponto de como um ser humano pode agüentar a pressão profissional, humana, estando sempre muito louco. No meio dos prazeres e depressões potencializados pela droga, Nikki deixa claro seu amor pela música. Ele explica seu processo criativo, as brigas e relações entre os integrantes do Mötley Crüe, os bastidores da gravação de "Girls, Girls, Girls" e da turnê do disco. Todas as bebedeiras, orgias e badernas em hotéis, comportamento normal em grandes bandas de rock da época, são retratadas com detalhes e arrependimentos. Gastar cinco mil dólares semanais em cocaína era tão natural para ele como ficar uma semana sem tomar banho com a mesma roupa.                                                                 

                                 

                                         pray for me

Fica claro que as anotações dos bastidores da criação do álbum são detalhe em seu mundo envolto na cocaína e heroína. Com a primeira, ficava hiperativo e paranoico, e com a outra, sedado e indiferente. Completamente alucinado, Nikki ficava a maior parte do tempo no closet de sua mansão em Los Angeles, trancado, rodeado de seringas e agulhas, e com uma espingarda calibre 12 na mão a espera de invasores imaginários. As idas e vindas as clínicas de recuperação, as overdoses, a turnê e a convivência com os parceiros de loucura, com quem Sixx consome drogas em clubes de striptease, quartos de hotel e até em uma entrevista ao vivo para uma emissora de rádio canadense. Tommy Lee, seu companheiro de banda e o guitarrista Slash, do Guns n Roses, eram parceiros constantes nas festas regadas a drogas e prostitutas. Nos últimos capítulos ele conta o vício intercalado com períodos de relativa harmonia. Enfim, sobrevivido a um modo de vida em que o limite é o inferno, conseguiu constituir família e produzir mais discos de sucesso.  Em 2008 o Mötley Crüe lançou um disco de músicas inéditas, "Saints of Los Angeles". E, aproveitando o impacto do livro, Nikki, quase tão astuto quanto Gene Simmons na arte de ganhar dinheiro, do Kiss, lançou um Cd - "The Heroin Diaries: A Year in the Life of a Shattered Rock Star" - baseado nas narrativas do livro. Ao contrário do vocalista Anthony Kiedis - Red Hot Chili Peppers - que também narrou em livro sua dependência com drogas e se recuperou definitivamente, ninguém pode dizer se Sixx está longe das drogas.                                                   

                            

                                  tomorrow

 "Não sinto minha alma. Essa escuridão tem sido minha única amiga. Minha nova mania é tomar litros de água antes de injetar coca e, então, vomitar tudo na bacia até minha cabeça explodir. Por quê? Por que não? Estou no ritmo de uma dança da morte nessa casa..."

Heroína e Rock'n' Roll: O diário de um ano devastador na vida de um astro do rock
Nikki Sixx e Ian Gittins
Tradução: Denise S. Rocha da Costa
Larousse
1a. edição, 2008
445 páginas

  

                                                         


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