Dynamite

Bill Graham, o cara que inventou o mercado rock

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                                                   jethro tull no fillmore

Todos os instantes são como amêndoas chipadas. Eu te ouço, música. Sua expressão, sua textura plena, nos deixa livres e completos. Lançado - no Brasil - no final do ano passado, o livro "Bill Graham - Minha Vida Dentro e Fora do Rock" (Bill Graham e Robert Greenfield - Editora Barracuda) é recomendado, vitalmente, para pessoas que cresceram ouvindo e vivendo o rock and roll. Fiquei com esse livro na fila por quase seis meses. Lembrou-me, de cara, quando a gente ouvia falar que o Jefferson Airplane, o The Doors e o Frank Zappa and The Mothers tocavam no Fillmore West. Soava como um mito. Era um mito. As páginas dos jornais e os encartes e capas dos vinis, que traziam notícias, fotos e referências à legendária casa noturna/teatro, faziam o imaginário planar pelos caminhos mais revolucionários da sociedade, através da música. Isso não significa que os iniciantes, e os indies, não devam ler um dos melhores documentos sobre a história do rock nos anos 1960/70 já publicado. Aliás, seria bom. Com o prefácio de Pete Townshend, guitarrista do The Who, a obra relata com depoimentos de artistas como Grace Slick, Eric Clapton, Jerry Garcia, Santana e Keith Richards, entre outros, a trajetória de um cara obstinado. O que mais impressiona no livro é a constatação de que, depois de uma infância difícil na Europa fugindo do nazismo, de crescer nas ruas cruas do Bronx (NY), perambular como um raio por restaurantes e grupos de teatro, Bill Graham foi o responsável por lançar ícones como Cream, The Gratefull Dead, Janis Joplin, Byrds, além de apresentar ao público branco da Califórnia os talentosos Otis Reading, Chuck Berry e outras lendas da black music. A única coisa ruim do livro é que tem poucas fotos.

                                                                    

Complexo e intenso, Bill foi esperto e perspicaz em sacar o que estava acontecendo na cidade, no mundo. Guerra do Vietnã, distúrbios raciais e um turbilhão de energia e arte em plena simbiose. E mais, um exército de jovens cansados do modo de vida americano e querendo mudanças. Hoje, isso pode ser antigo. Filosoficamente até pode ser, mas historicamente foi o que fez o hoje ser o que é. Ele fundou o Fillmore West um pouco antes do Verão do Amor (de 1965 até 1967), e disse NÃO àquela sociedade careta e repetitiva. OPAA! Alguma semelhança com a sociedade contemporânea? Bem, voltando, como diz Richards em um depoimento, "Naquela época era uma coisa diferente e corajoso misturar soul com música extrema branca. Bill foi o primeiro a fazer isso com extrema regularidade, e ainda mais em um lugar como o Fillmore, onde praticamente o pessoal vivia. Bill de fato criou uma oportunidade que mudou muita coisa".  O cara que era uma borboleta com asas quebradas traçou o caminho até Woodstock e trouxe à America bandas inglesas como Jethro Tull, Ten Years After, The Who, Black Sabbath e Traffic. As muitas histórias de experiências e festas com tonéis de LSD, e como Bill desprezava o uso do ácido de forma descontrolada, são relatadas no livro de forma tipo assim: E o Doutor Estranho (ou seria Dr. Fantástico Gisnberg), já chegou?  A arte de Wes Wilson, o cara que fazia os pôsteres com borboletas, espadas, e globos tântricos, pequenos pedaços azuis, o psicodelismo onde as pessoas concordavam e sublimavam.

                            

O livro deixa claro que o Fillmore não foi mera poeira. Lá, Bill conta, "pela primeira vez percebi como a música podia unir pessoas diferentes, torná-las iguais em um momento mágico, deixar essas pessoas e os músicos felizes e ainda ganhar dinheiro com isso". Como produtor independente de shows, Bill Graham produziu turnês de gente como os Rolling Stones, Bob Dylan, Led Zeppelin, Crosby, Stills, Nash & Young e George Harrison. O livro vale a pena por ser parte importante da história do rock´n roll e também para que o público possa conhecer o personagem Bill Graham. Ao mesmo tempo, profissionalíssimo e passional, careta e ousado nas suas concepções artísticas, apaixonado pela música e dotado de uma visão pragmática de negociante. Uma contradição ambulante, enfim. Um personagem tão apaixonante e tão contraditório quanto o rock´n roll que ele ajudou a transformar, de uma expressão da rebeldia juvenil numa mina de riquezas e vaidades. O Led Zeppelin e o Rolling Stones são as únicas bandas que têm um capitulo exclusivo em "Minha Vida Fora e Dentro do Rock". Porém, ao olhar de Bill, o Led, apesar de faz ero melhor rock já visto, era um desastre fora dos palcos. A truculência de Peter Green, o manager, e a violência dos seguranças do grupo, que chegavam ao cúmulo de espancar fãs mais "obstinados", e recrutar garotas para festas pós shows, isso normalíssimo no rock world, foram duramente criticados por Bill.

                                                                       

                                                           com jefferson airplane

Um dos méritos do livro é exemplificado em um depoimento de Bill Thompson: "Quando aconteceu o verão do amor, foi uma coisa. Tudo começou no verão de 1965 e durou até o verão de 1967. Basicamente foi um movimento incrível de pessoas, energia e idéias, com duração de dois anos. Mas sabe de uma coisa? Ainda há muita gente com que eu falo que foi tão influenciada pelo Verão do Amor que isso se reflete na vida delas até hoje, e acho isso muito legal".  A obra documenta esse período com detalhes, os testes do ácido, os festivais, as bandas, o ambiente, a magia da atração, o envolvimento espontâneo e a cavalgada das almas. O flower power e a contra cultura O local tinha uma lendária atmosfera, performances com luzes projetadas e estroboscópicas, psicodelismo latente.  No final da noite, Bill Graham às vezes ficava ao lado de um enorme balaio na saída entregando maçãs aos hippies. O impacto cultural do Fillmore West foi muito grande. Foi referência para Hunter Thompson, autor do livro "Medo e Delírio em Las Vegas" e ponto crucial de toda raiz do rock and roll. Em 1968 Bill abriu o Fillmore East, em Nova Iorque, mas, mesmo sendo reconhecido como a casa do rock, não obteve a aura do original. O Fillmore West foi fechado em 4 junho de 1971 e foi reaberto diversas vezes, funcionando até hoje. Começou recentemente uma campanha para expandir a Fillmore "marca", alterando os nomes de um número de clubes nos EUA. Business, mas para o bem do rock. O livro é um panorama de tudo o que rolou de importante no berço rock. Naquela época o rock era atitude, não pose. A união, a integridade de algo elétrico e forte. Algo que nos alimentava e que nos mostrava o enigmático, o não previsível. Hoje, apesar dos hypes do mês, o silêncio do deserto ainda existe e não destruíram o olhar da meditação. O que ainda importa é a música que liga.  Bill Graham morreu em 1991 em um acidente de helicóptero. O visionário teve participação em tudo: Trips Festival, Fillmore West, Woodstock, Live Aid, a turnê Conspiracy of Hope da Anistia Internacional, e muito mais. Indispensável.

                                        

 

                     

 

                                                                                                      

                                    grace slick

Iggy Pop, o Iguana, volta com existencialismo e classe

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                                                    nice to be dead

Arte - Elaine Gomes

A fusão de arte e vida, tão bem realizada pelo rock and roll, leva a arte ou a canção para o campo da atitude individual, que, na verdade, é um reflexo das experiências e do momento humano. Iggy Pop - James Newell Ostemberg - uma das lendas vivas do rock mundial, e que já transmutou as metáforas e aromas da vida, acaba de lançar um Cd - Préliminaires - inspirado no livro do francês Michel Houellebecq, "A Possibilidade de Uma Ilha", no qual mergulha com profundidade em temas como morte, sexo e imagens. O trabalho flutua como uma posição de Lótus que nos aproxima e nos afasta, sem perder o eixo. O caos edificado pela fuga, é veementemente rechaçado pelo artista: "Toda a intriga do romance é uma preliminar da morte. E, na minha idade, cada ato é uma preliminar da morte: compor ou não, trabalhar ou se divertir, tentar ganhar dinheiro ou liberdade", explica Iggy.  Apesar da grande possibilidade dos fãs do cantor - acostumados com sua pegada visceral, e um rock que soa como faca esperta malvada e boa - acharem "Preliminaires" um trabalho estranho, o disco prova, mais uma vez, que o cantor, de 62 anos, é suave quando rola a tentação, e incontrolável e quente enquanto o tempo continua avançando ferozmente. A princípio, foi chamado para escrever apenas algumas músicas para um documentário sobre a filmagem de um longa baseado no livro, dirigido pelo próprio escritor. O projeto logo se tornou maior, devido à admiração do roqueiro americano pelo romance, no qual clones e seitas aparecem como atores de uma visão pessimista da condição humana. Por isso, o disco tem a mesma atmosfera de melancolia dos romances de Houellebecq, que pode ser sentida como um big bang espiritual, e a certeza de que a segurança é efêmera. 

                                                                        

                                                      by -Elaine Gomes                                                              

Ao ouvir o Cd pela primeira vez, me senti numa cidade metabolizada no desespero e na confusão. O disco me entorpeceu, me conquistou. É genial ao mostrar o quanto Iggy, o sagrado e cultuado avó do punk rock, um cara que sabe que a poesia é uma linha tênue, que a luz pode tocar tanto os desesperados como os lúcidos, e que em 2005 dava moshs no Festival Claro Que é Rock, incitando a platéia a subir ao palco, pode também soar como um mix de Serge Gainsbourg e Tom Waitts. Sem perder sua energia uníssona e vital, ele continua cumprindo sua melhor missão, manipular o caos de forma densa e real, com consciência plena e um controle quase mágico. Mas, vamos à bolachinha.  A faixa de abertura, "Les Feuilles Morts", foi escrita pelo poeta Jacques Prévert, musicada por Joseph Kosma e lançada em 1945, fez sucesso na voz de Yves Montand. Tanto pela narrativa como musicalmente, recompõe virtudes apoiadas num jazzístico solo de trompete. "I Want Go to the Beach" mostra como Iggy, com seu vozeirão soturno, pode amedrontar, ou seria puro enigma, tipo, agora esqueça sua ilusão e envolva as manhãs de forma mais suave? É uma canção delicada e até depressiva. De forma geral, "Préliminaires" é um choque, quase um túnel desconhecido de curvas assimétricas, para quem se acostumou a ouvir, e ver, o Iggy Pop punk brilhando como um relâmpago inquieto. Já "King of the Dogs" é cinematográfica, serviria bem como trilha de filme francês. "Ja Sais Qui Tu Sais", onde uma bateria marcada ampara um teclado competente e cirúrgico, lembra uma linda fusão de Jane Birkin e Tom Waits, mas com os sussurros de Lucie Aimé, co-autora da faixa. Guitarras também voam com certa parcimônia. É um quase mantra.                                                                                                                                                              

 "Préliminaires" é um disco francófilo que mantém uma consistência correta dentro da sua proposta. Mas, "Spanish Coast" tem, segundo o Iguana, lembranças e impressões das cenas favoritas de quando morou na Espanha. O lado rock do disco é "Nice to be Dead", que possui todo o repertório de descargas de elétrons musicais que o caracteriza. Aquele vocal incisivo, quase irônico, e guitarras noise. A canção é um grito, ele eletrocuta a doçura entre seus lábios. Em meio a esse trabalho tão "diferente", Iggy faz uma versão surpreendente de Insensatez, "How Insensitive", de Tom Jobim, uma coisa até um pouco bizarra. "Party Time" tem um viés eletrônico em sua base, catártica, quase dark. Com uma breve levada e groove que me lembrou a Grace Jones. Eu diria que, se existe a eficiência na intuição, e se a consciência dos amantes é linda e cruel, "Préliminaires" não chega a ser um álbum de jazz, mas também não é um disco de rock. É um trabalho que atesta a qualidade e talento de Iggy Pop, que sabe ser diversificado e flexível. Se Bob Dylan tivesse escrito e cantado "He´s Dead She´s Alive" em algum disco seu, ecoaria como um rastro de Woodie Gurthie. Contudo, esse blues bem dedilhado no violão por IP, cai como la donation du plaisir total.  Um vozeirão abre "A Machine for Loving", um mergulho nos desejos, um suspiro e sentimentos extremos sobre a vida, a morte e a ficção científica. O amor. Uma linda guitarra abraça com afago a bela canção, que em profusão mostra sua força.  E, finalizando o ótimo disco, "She`s A Business" mantem o clima, envolvente, alimentada por uma guitarra generosa, mas discreta, e uma cama de teclados macia. Para fazer a capa do disco Iggy convidou à iraniana Marjane Satrapi, autora da cultuada HQ (e filme) "Persépolis".  Isso é que é classe. 

                                                       

                                                    

                                                 i want to go to the beach

                                                           

                                                           
                     

                                                                               by Elaine Gomes          

 

A Influência dos Aspargos no Asfalto da Zâmbia

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                                                    cyberpunk                                     

Existem 25 cidades perdidas dentro do mundo. São 25 momentos recheados com wodca e canções negras. E R&B e punk rock misturam-se com idéias marxistas e ecológicas, juntam-se artístas de grafite a mentores do conservadorismo intelectual elitista. Vivemos pelos cantos undergrounds da vida. Multipintando muros solitários pelas noites, vendo les enfants terribles sorrindo para a música e a bomba. Dez mil pedaços de bananas e caramelos, tudo pelo ar com champanhe avec fromage. Existem 25 pirâmides nessa selva. Também existem computadores quânticos que se desdobram pelos mantras da Índia num pranto doce e poético. Olhares dispersos pelas ruas do Marais são como o choro e os sussurros das crianças de Bagdá, que apenas conhecem o universo da destruição da guerra. Existem 25 planetas destruidos. Existem muitos sorrisos destroçados por aqueles mesmos que edificaram as moradias da pequena burguesia decadente. Quero mais 25 quilos de amor e sexo, como um astronauta que vê a sua imagem num espelho partido. Falemos de nós como bombas humanas. Existem vários lugares para se detonar lágrimas de consciência e viajar pelo espaço da liberdade e da poesia. Eletricidade exposta.                                                             

                                          

                                                        taarna

Existem 25 gritos silentes. Momentos e diafragmas da vida. Punks solares de Amsterdã me perguntam todos os dias de você. Tomo mais uma e sinto os solos rápidos e crus do punk rock. E admiro as montanhas olhando-as bem no fundo da alma. Transeuropean Express. A dor é para ser sentida, à distância para ser destruída. A minha imagem mental mistura meus sonhos as cores da praça mais louca da cidade. 25 melodias sagradas partem de uma máquina de coca-cola que fabrica comida em pó para cachorros que leram 1984 e ficaram loucos. Como uma overdose de heroína com o evangelho das escrituras sagradas. Não sei o que a lua faz pelo céu se não abriga seus filhos televisivos e discípulos do 25 e do 69. Falemos da pequena centelha de erva que penetra no sexo da mulher, fecundando a mãe louca de um grupo de cyberpunk rock que canta o fim do mundo. Homem digitalizado, pós humano, sexo sem secreções, pós sexo, conhecimento holográfico instantâneo, onde tudo se transforma em poeira e senhas. Amor e energia. Transformo-me à noite, todas as noites, sob o sol da meia noite. Sinto teus olhos distantes penetrando na minha pele, na minha luz, na minha realidade.                                            

                                                                                                      

                                                   serge gainsboug

Existem muitas estradas que podem nos levar a felicidade. Ouço Rádio Ethiopia, dela mesma, solta no ar, viajo com sons etéreos e com o rock feroz. Deserto da faixa de Gaza. Mais uma história de guerra e missionários que beberam dos cogumelos mágicos. Vejo teus pensamentos. Eles me parecem distantes e disformes. Eles me parecem irreais do instante complexo que passa pelo dia a dia europeu. Quero apertar mais um e recolher as palavras e estrelas com um detector de sentimentos verdadeiros. Assim ando numa história real de vida, numa desenfreada corrida contra o tempo, num gesto que não entendo e discordo. Apenas vejo os planetas caminharem para teus olhos grandes e sem cor. Apenas sinto 25 beijos ininterruptos e inconformados. Doce sensação. Como uma suave brisa das praias do Brasil eu bebo uma cerveja de Munich. Percebo a grandeza e a pequeneza. Micro e macro cosmos. Uma energia muito louca e forte que arrebata e possui. Pelos opostos a tecer a emoção. Existe uma vibração para cada profeta. Existem perigosos caminhos para a humanidade porque, principalmente, precisamos ser algo de futuro que contribua para o desenvolvimento da máquina. Que merda cheirosa!                                                     

                                                            

                                               

                                                            caos

Vejo teus olhos no cair da noite, escrevo poesias, conflitos com les flics. Somos squaters de coração e fé. E deve existir algo mais importante que nossa vida de animais pós-adolescentes. 25 posições diferentes. Magia e incógnitas dos druidas e alquimistas. Gemidos nos nossos olhares sobre os muros proibidos. Existe o momento inevitável quando nos encontramos e produzimos o amor entre nossas mentes e corpos físicos e espirituais. Somos selvagens a procura de amor e de verdades interiores. Somos heróis por muitos dias porque despertamos, cultivamos e preservamos os nossos sentimentos.
Você cria formas que andam e percorrem os lugares dos loucos. Na parede da memória de uma certa estação do metro parisiense. Momentos de tesão total. Você cria formas afrodisíacas, você possui segredos que percorrem a constelação de Órion. Você criou a imagem de Abraxas a grande deusa do universo. Abraxas, a feminina, voltou imersa em fluídos mágicos. Abraxas voltou em sua nave envolta numa enorme bola de fogo. E recriou a importância dos aspargos no asfalto da Zâmbia. Todas as relações voam sobre os campos, atravessando montanhas e o oceano. Sabemos que tudo existe, que tudo é muito evidente. Abraxas é a mulher artes e amor. É o princípio, o meio, o fim, a idéia, a luta e a persistência. O principal elo entre a iniciação e o espaço cósmico. As mudanças, a construção das novas realidades e conceitos de todas as ordens. Arts/rats/póseresia.

                                                                     

                                              

                                                   spor cyberpunk

 

 

 

Sonic Youth volta com classe e barulho

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                                           sacred trickster -  santiago do chile 

 

Sempre preferi o Sonic Youth ao vivo pela pegada do seu noise rock com filosofia punk, como pude comprovar no Claro Que é Rock, em 2005, que os discos. De todos os seus trabalhos, "Daydream Nation", 1988, "Goon", 1990, e "Dirty", 1992, talvez sejam os que mais sintetizem a força das experiências sonoras que a banda faz ao misturar pós punk off mainstream com linhas melódicas bastante criativas e peculiares. Formado em Nova York, em 1981, foi um ícone da cultura alternativa americana por um bom tempo. Apesar de ter alcançado certo sucesso de público, seu som sujo, de guitarras distorcidas e arranjos nada deglutíveis para a maioria, sempre o colocou no topo das grandes bandas do rock americano. Da formação original restam Thurston Moore, guitarra e vocal, a sensacional, baixista, guitarrista, compositora e vocalista Kim Gordon e Lee Ranaldo, guitarra e vocal. Steve Shirley é o atual baterista. "The Eternal", Cd de 2009 que já caiu na rede e, de acordo com o site da banda - http://sonicyouth.com/mustang/lp/index.html - estará nas lojas em junho, termina com um hiato de três anos após "Rather Ripped", de 2006, e resgata os melhores dias dos barulhentos novaiorquinos, que bem que poderiam tocar aqui ainda esse ano. Enquanto Santiago do Chile teve seu show, em março último, nós ficamos a mercê de produtoras que preferem apostar em bandas decadentes como o Depeche Mode, que ressuscitou da tumba com seu mais recente álbum, "The Sounds of Universe", um synth pop démodé e datado.

                                                                 

Vamos ao noise. "The Eternal" passa, de cara, uma mensagem às bandas novas que se perdem no segundo ou terceiro trabalho, emparedados por guitarras pasteurizadas e sem alma, e pensando mais em ser o hype do momento, do que criar uma carreira consistente: Envelhecer com classe produzindo uma música de qualidade e sincera. O disco é com certeza um dos mais elaborados trabalhos do SY, segundo a própria banda. As melodias dividem espaço com os experimentalismos característicos do grupo, como os vocais compartilhados entre Kim Gordon, Lee Ranaldo e Thurston Moore, acompanhados de perto por Steve Shelley na bateria e marca também a "estréia" de Mark Ibold - ex-Pavement - como segundo baixista oficial da banda. Tem um pouco de tudo, heavy, colagens de sons que remetem a um patchwork de informações sonoras, mensagens cheias de ruídos com sentido. E guitarras, muitas guitarras. "Sacred Trickster", a faixa de boas vindas, é bem punk rock e ganha um motivo a mais com a voz de Kim - What's it like to be a girl in a band?/I don't quite understand/That's so quaint to hear/I feel so faint my dear/ Doing nothing, sitting around/Sacred trickster in another tight sound - demonstrando que as letras tem um peso bacana na música dos Youths. Já "Anti-Orgasm" tem guitarras bastante orgânicas, uma muralha que segura os picos de bateria e uma organização perfeita de um pseudo barulho. Parece uma coluna de tanques indo à batalha e despejando fogo. A terceira canção é mais calma. "Leaky Lifeboat (for Gregory)" lembra Iggy Pop do Stooges, aquele jeito de cantar, backings bem colocados e nada de exageros, menos noise, mas bem elaborada, quase um King Crimson aos 2:56 min. São influências sinceras, das boas, que o Sonic faz brotar em sua arte.

                                                                   
Bem tranquila, quase como uma brisa de outono, começa "Antenna", bem simples, na forma exata de uma balada fora do comum, gostosa, com personalidade, linguagem própria. Ranaldo canta, uma guitarra rasga o ar e se expande num solo denso, um completo sentimento mágico como a letra diz. Que raiva dos incompetentes que não trazem a banda pra cá!!! "What You Know" é uma viagem, tem psicodelismo cru e uma base que se moldou no noise hard de guitarras descabeladas, muito. Talvez a melhor do álbum. Um baixo bem marcado, a guitarra cresce e se acomoda na cozinha com primazia. De novo o baixo compassado abre a porta para as guitarras cruzadas em "Calming The Snake", perfeita para a voz da já veterana Kim Gordon, que não perdeu a gana pelo rock and roll. O Sonic Youth é uma grande banda porque, essencialmente, é um grupo que privilegia a criatividade e as guitarras, itens indispensáveis ao rock e hoje tão esquecidos pelos indies. Daí em diante vem "Poison Arrow", bastante iggypopiana, mas sem perder o calor e as pedaleiras características das Stratos e Gibsons a todo vapor. Linhas de guitarras bem diferentes e próprias do SY. "Malibu Gas Station" destoa um pouco do trabalho, é um pouco longa e repete partes inteiras na evidente mixagem. As três últimas são a cereja do bolo. "Thunderclap (For Bobby Pin)" tem uma letra bem humorada e talvez o melhor solo, o mais longo, do Cd. Desgaste total nas cordas, noise com consciência, rock puro. "No Way" e "Walking Blue" levanta qualquer cansado da vida. A primeira até pode cair bem no dance floor, a segunda é uma experiência quase elemental, bem sedimentada nos melhores sentidos climáticos das baladas barulhentas do Sonic Youth, um grupo místico. Anyway, "The Eternal" é um discasso que não faz concessões para as bobagens hypadas e mostra quem manda na área do rock alternativo.

                                                                            

                                                                     


Neil Young, de novo salvando o rock

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                                               hit the road

                                                         

Neil Young, talvez o músico que melhor expresse a alma e a vitalidade do rock, está de volta com o Cd "Fork In The Road", provando sua incansável capacidade de produção. Young, de forma magnífica e furiosa, reitera sua importância para o mundo da arte com um trabalho que supera quase todos os lançamentos do ano, até agora. Do alto dos seus 64 anos, sempre fez da música um veículo de luta contra as guerras e outras formas de violência. Foi assim nos anos 1960/70 contra a guerra do Vietnã, nos anos 1990 e até hoje gritando contra as invasões no Iraque e Afeganistão, e agora, quando saca sua guitarra contra a crise mundial. Se antes criticava Bush, como em "Living With War" (que recebeu três indicações ao Grammy), de 2006, em "Fork In The Road" fez um Cd onde fala de ecologia, relações humanas e da crise econômica: "A ajuda está chegando, mas não é para você", canta na faixa título, um blues sujo que fala sobre pacote econômico do governo dos EUA de auxílio aos bancos e empresas. Com muita inspiração, o canadense lança um discasso, parecido com seus melhores, os dos anos 70.                                                                   

                                      

                                        when the world collide 

 Lenda do rock, o músico de raízes folk sempre transitou muito bem no rock, e até no hard. Clássicos como "Hey Hey, My My", "Helpless", "Rocking in The Free World", "Harvest Moon" e tantas outras, o colocaram constantemente no alto das listas dos melhores e lhe deram escopo para ser considerado um dos mais relevantes de todos os tempos. Sendo solo, ou nos grupos Buffalo Springfield e Crosby Stills, Nash & Young, moldou seu som de forma sólida, pesada e com conteúdo intimamente ligado ao contexto da época. "Fork In The Road" abre com a suja "When Worlds Collide", uma canção espessa, onde a voz anasalada de Young arregaça sua ira contra os esquemas que apenas favorecem aos ricos. No melhor estilo do rock clássico as guitarras interagem todo tempo. Uma bateria pesada abre "Fuel Line", um rock que espelha o espírito do disco: carros, porque durante a crise da indústria automobilística americana, uma das inspirações foi um projeto chamado LincolnVolt, ao qual Neil Young se dedica há algum tempo e tem o objetivo de transformar seu carro, um Lincoln Continental 1959 movido a gasolina, num carro elétrico.                                                                     

                                                 

                                                rockin in the free world

"Just Singing a Song" é sensacional, emocionante e, como uma autêntica balada youngiana, tem uma guitarra poderosa, que pega no estômago amparada pela letra - "canto as canções para mudar o mundo" - que talvez ele consiga fazer mesmo em doses reduzidas, mas com o coração. A variedade do rock de Neil Young, a forma como ele estrutura suas músicas, é exemplo para uma geração de músicos que parece atualmente perdida. Como bem questionou Humberto Finatti na zap `n`roll, o rock não morreu, mas carece de talentos que pulsem acima da pose e da fama, e se entreguem com amor pela música usando a criatividade. Em "Johnny Magic" a velocidade sobe e o rock come solto com simplicidade e voracidade. Um solo distorcido, uma das características marcantes de Young, arremata a revolta da gana das instituições financeiras e as joga na sarjeta. "Cough Up The Bucks" atesta toda a flexibilidade da grande gama de surpresas que vivem na mente do genial músico. Sincopada e escorada, sempre, em guitarras personificadas, prepara o caminho para "Get Behind The Wheel", um blues matador no melhor estilo Buddy Guy, com aquele andamento gostoso e licks próprios do gênero.

                                                                

                                              

                                                            fuel line                

 Eu, como um fã de décadas de Neil Young, um artista que faz parte da minha vida, prazerosamente ratifico que o cara é foda.  Lembro do show - o único - que fez aqui na década de 1990, e não entendo porque os promotores de shows não o trazem de novo. A sétima faixa, "Off Road", é uma balada delicada que me leva a paisagens estradeiras dos desertos norte americanos. Paris-Texas. Área 51. A seguinte, "Hit The Road", segue na mesma linha. Uma torrente de classe, bom gosto e qualidade. O melhor em Neil Young é sua versatilidade, desde as freeways até as vicinais, por onde seu rock de verdade voa e metralha sem dó os políticos, banqueiros e aproveitadores.  "Fork In The Road" é um disco bem equilibrado, conceitual, todo tempo. A penúltima faixa - das dez - "Light a Candle", começa com um lindo dedilhar em cordas de um violão acústico, lembra à clássica "Helpless". Young leva seu som até o mais alto degrau do rock com esse refinado blues canção. E, para terminar o Cd de forma a não deixar dúvidas do grande trabalho, a canção título é um roller blues visceral, bem Freddie King, que comprova como o canadense é diferente em tudo de, por exemplo, Alex Kapranos, que já em seu terceiro trabalho a frente do Franz Ferdinand, perdeu o rumo da coisa.  Até agora Neil Young investiu cerca de US$ 120 mil para transformar seu Lincoln Continental em um carro elétrico. Ele acredita que até o final do ano possa dirigir seu automóvel ecologicamente compatível e incentivar seus admiradores a fazer o mesmo.

                                      ouça o disco -     http://www.myspace.com/neilyoung

 

 

 

 

 

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