jethro tull no fillmore
Todos os instantes são como amêndoas chipadas. Eu te ouço, música. Sua expressão, sua textura plena, nos deixa livres e completos. Lançado - no Brasil - no final do ano passado, o livro "Bill Graham - Minha Vida Dentro e Fora do Rock" (Bill Graham e Robert Greenfield - Editora Barracuda) é recomendado, vitalmente, para pessoas que cresceram ouvindo e vivendo o rock and roll. Fiquei com esse livro na fila por quase seis meses. Lembrou-me, de cara, quando a gente ouvia falar que o Jefferson Airplane, o The Doors e o Frank Zappa and The Mothers tocavam no Fillmore West. Soava como um mito. Era um mito. As páginas dos jornais e os encartes e capas dos vinis, que traziam notícias, fotos e referências à legendária casa noturna/teatro, faziam o imaginário planar pelos caminhos mais revolucionários da sociedade, através da música. Isso não significa que os iniciantes, e os indies, não devam ler um dos melhores documentos sobre a história do rock nos anos 1960/70 já publicado. Aliás, seria bom. Com o prefácio de Pete Townshend, guitarrista do The Who, a obra relata com depoimentos de artistas como Grace Slick, Eric Clapton, Jerry Garcia, Santana e Keith Richards, entre outros, a trajetória de um cara obstinado. O que mais impressiona no livro é a constatação de que, depois de uma infância difícil na Europa fugindo do nazismo, de crescer nas ruas cruas do Bronx (NY), perambular como um raio por restaurantes e grupos de teatro, Bill Graham foi o responsável por lançar ícones como Cream, The Gratefull Dead, Janis Joplin, Byrds, além de apresentar ao público branco da Califórnia os talentosos Otis Reading, Chuck Berry e outras lendas da black music. A única coisa ruim do livro é que tem poucas fotos.
Complexo e intenso, Bill foi esperto e perspicaz em sacar o que estava acontecendo na cidade, no mundo. Guerra do Vietnã, distúrbios raciais e um turbilhão de energia e arte em plena simbiose. E mais, um exército de jovens cansados do modo de vida americano e querendo mudanças. Hoje, isso pode ser antigo. Filosoficamente até pode ser, mas historicamente foi o que fez o hoje ser o que é. Ele fundou o Fillmore West um pouco antes do Verão do Amor (de 1965 até 1967), e disse NÃO àquela sociedade careta e repetitiva. OPAA! Alguma semelhança com a sociedade contemporânea? Bem, voltando, como diz Richards em um depoimento, "Naquela época era uma coisa diferente e corajoso misturar soul com música extrema branca. Bill foi o primeiro a fazer isso com extrema regularidade, e ainda mais em um lugar como o Fillmore, onde praticamente o pessoal vivia. Bill de fato criou uma oportunidade que mudou muita coisa". O cara que era uma borboleta com asas quebradas traçou o caminho até Woodstock e trouxe à America bandas inglesas como Jethro Tull, Ten Years After, The Who, Black Sabbath e Traffic. As muitas histórias de experiências e festas com tonéis de LSD, e como Bill desprezava o uso do ácido de forma descontrolada, são relatadas no livro de forma tipo assim: E o Doutor Estranho (ou seria Dr. Fantástico Gisnberg), já chegou? A arte de Wes Wilson, o cara que fazia os pôsteres com borboletas, espadas, e globos tântricos, pequenos pedaços azuis, o psicodelismo onde as pessoas concordavam e sublimavam.

O livro deixa claro que o Fillmore não foi mera poeira. Lá, Bill conta, "pela primeira vez percebi como a música podia unir pessoas diferentes, torná-las iguais em um momento mágico, deixar essas pessoas e os músicos felizes e ainda ganhar dinheiro com isso". Como produtor independente de shows, Bill Graham produziu turnês de gente como os Rolling Stones, Bob Dylan, Led Zeppelin, Crosby, Stills, Nash & Young e George Harrison. O livro vale a pena por ser parte importante da história do rock´n roll e também para que o público possa conhecer o personagem Bill Graham. Ao mesmo tempo, profissionalíssimo e passional, careta e ousado nas suas concepções artísticas, apaixonado pela música e dotado de uma visão pragmática de negociante. Uma contradição ambulante, enfim. Um personagem tão apaixonante e tão contraditório quanto o rock´n roll que ele ajudou a transformar, de uma expressão da rebeldia juvenil numa mina de riquezas e vaidades. O Led Zeppelin e o Rolling Stones são as únicas bandas que têm um capitulo exclusivo em "Minha Vida Fora e Dentro do Rock". Porém, ao olhar de Bill, o Led, apesar de faz ero melhor rock já visto, era um desastre fora dos palcos. A truculência de Peter Green, o manager, e a violência dos seguranças do grupo, que chegavam ao cúmulo de espancar fãs mais "obstinados", e recrutar garotas para festas pós shows, isso normalíssimo no rock world, foram duramente criticados por Bill.

com jefferson airplane
Um dos méritos do livro é exemplificado em um depoimento de Bill Thompson: "Quando aconteceu o verão do amor, foi uma coisa. Tudo começou no verão de 1965 e durou até o verão de 1967. Basicamente foi um movimento incrível de pessoas, energia e idéias, com duração de dois anos. Mas sabe de uma coisa? Ainda há muita gente com que eu falo que foi tão influenciada pelo Verão do Amor que isso se reflete na vida delas até hoje, e acho isso muito legal". A obra documenta esse período com detalhes, os testes do ácido, os festivais, as bandas, o ambiente, a magia da atração, o envolvimento espontâneo e a cavalgada das almas. O flower power e a contra cultura O local tinha uma lendária atmosfera, performances com luzes projetadas e estroboscópicas, psicodelismo latente. No final da noite, Bill Graham às vezes ficava ao lado de um enorme balaio na saída entregando maçãs aos hippies. O impacto cultural do Fillmore West foi muito grande. Foi referência para Hunter Thompson, autor do livro "Medo e Delírio em Las Vegas" e ponto crucial de toda raiz do rock and roll. Em 1968 Bill abriu o Fillmore East, em Nova Iorque, mas, mesmo sendo reconhecido como a casa do rock, não obteve a aura do original. O Fillmore West foi fechado em 4 junho de 1971 e foi reaberto diversas vezes, funcionando até hoje. Começou recentemente uma campanha para expandir a Fillmore "marca", alterando os nomes de um número de clubes nos EUA. Business, mas para o bem do rock. O livro é um panorama de tudo o que rolou de importante no berço rock. Naquela época o rock era atitude, não pose. A união, a integridade de algo elétrico e forte. Algo que nos alimentava e que nos mostrava o enigmático, o não previsível. Hoje, apesar dos hypes do mês, o silêncio do deserto ainda existe e não destruíram o olhar da meditação. O que ainda importa é a música que liga. Bill Graham morreu em 1991 em um acidente de helicóptero. O visionário teve participação em tudo: Trips Festival, Fillmore West, Woodstock, Live Aid, a turnê Conspiracy of Hope da Anistia Internacional, e muito mais. Indispensável.



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