Dynamite

Entrevista com Vampire Weekend: quando o hype fala por si próprio *

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* Matéria feita originalmente para o jornal “O Globo”, e publicada no dia 14 de março

              O que fazer quando a memória é tão curta que as lembranças mais presentes se esvaem tão logo são vividas? Continuar produzindo, alimentando a máquina. Nós somos a máquina. Discos, filmes, logos, nomes, nomes, nomes... Como uma versão pós-moderna do moedor de gente do filme “The Wall”, o sistema clama por informações para continuar operando. Viu o acidente ontem? Está no Youtube. Beth Ditto é tão cool. Quem é Beth Ditto? Entropia. Não é mal, veja bem. São apenas os novos tempos.

              Em meio ao dilúvio informacional da nova era, no qual muito se ouve, pouco se escuta e quase nada se entende, a bola da vez é o Vampire Weekend, grupo que chega de Nova York (de onde mais?) para clamar por um espaço no hall dos hypes com conteúdo, ao lado de outros (poucos) nomes interessantes como Arcade Fire e TV on the Radio. Bandas que dão a impressão de que irão ficar quando o temporal passar.

               “O grupo foi formado por quatro amigos de colégio. Nós já havíamos tocado em outras bandas juntos, e decidimos formar um conjunto com a formação tradicional do rock, mas com o objetivo de não soar como uma banda tradicional de rock”, diz o baixista Chris Baio.

               Por “não tradicional”, entenda-se “fora do padrão Strokes de bandas de garagem nova iorquinas”: a onda do VW, formado ainda por Ezra Koening (voz e guitarra), Rostam Batmanglij (teclado) e Chris Tomson (bateria) trilha por um meio termo entre a new wave intelectualizada do Talking Heads e o punk global do Clash (fase “Sandinista”, claro).Baio, no entanto, vê as coisas de forma mais simples: “Nós fazemos apenas música pop. É difícil ser mais profundo que isso. Nós somos quatro garotos que passaram a vida inteira ouvindo um mundo de músicas. Há muitas influências abstratas, mas muito do que escrevemos é instintivo. É difícil pensar em influências isoladas em nosso som”.

               Diferentes, mas nem tanto: como dez entre dez bandas da nova era, o Vampire Weekend diz odiar a “indústria do hype”, hoje personalizada por blogs, myspaces, Facebook etc.“Eu acho que rótulos como ‘o novo hype’ são produto da imprensa e dos blogs, mais do que das próprias bandas. Seria absurdo se nós nos enxergássemos nesses termos”, diz.

               Querendo ou não, no entanto, a banda é filha legítima do fenômeno que diz odiar. Ainda iniciante no cenário alternativo de NYC, ganhou a simpatia de blogs da cidade em 2006, e de lá partiu para conquistar o mundo à velocidade da luz, chegando a mega festivais como os americanos Coachella e Bonnaroo, para os quais já estão escalados este ano. Sinal dos tempos, o disco oficial, mero detalhe, só veio agora. Mas alguém ainda se importa com isso?

                “Nós definitivamente não planejamos isso, as coisas simplesmente aconteceram desse jeito. Eu ainda estava na escola, os outro tinham seus empregos, nós gravamos as músicas como conseguimos e começamos a vender nos nossos shows em NY. O álbum ‘oficial’ é mais como uma visão definitiva sobre aquelas músicas que já eram trabalhadas”, afirma o baixista.

                Bela visão, por sinal. Amplamente saudado como um dos melhores lançamentos do ano, o debut homônimo do grupo faz uma interessante releitura do rock do novo século, sempre com um pé na world music de Paul Simon e Peter Gabriel (este último, citado na letra de "Cape Cod Kwassa Kwassa"). Temos, desta forma, um amplo compêndio de melodias com inspiração africana e ritmos intrincados, que por vezes se aproximam do reggae/ska (“A-Punk”, “The Kids Don´t Stand a Chance”) e por outras da new wave (“Boston”), sempre tocados com a energia típica daqueles na casa dos vinte e poucos.

                 “Todas as músicas deste álbum foram escritas antes das pessoas prestarem qualquer atenção em nós, então isso definitivamente não teve influência sobre o nosso trabalho. Eu acho que lançar música de forma independente é inspirador, embora as gravadoras ainda importem, em um certo sentido”, diz.

                Globalizado sob medida, o Vampire Weekend é a banda a ser escutada neste minuto. Pelo sim, ou pelo não, ouça logo. Se deixar para amanhã, corre o risco de já ter esquecido.

1 resposta para “Entrevista com Vampire Weekend: quando o hype fala por si próprio *”

  1. Avogadrus Disse:
    Nem todos os vampiros sugam sangue...hahahahahahahahaha

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