Se há um fio condutor na errática carreira de Beck, é seu amor pelas coisas que já passaram. Soul, folk, rock and roll...chamem de retrô, mas o respeito com que ele trata instituições desse grande universo que é a música pop é de doer. Foi assim desde “Mellow Gold”, seu primeiro e grande álbum, em 94; e é assim neste “Modern Guilt”, recém-lançado, e no qual o cantor dá prosseguimento a uma carreira que, desde o mediano “Midnight Vultures”, não conhece nada além de pontos altos.
Dentro da dinâmica dialética pela qual a música popular evolui, Beck consegue unir sístole e diástole: dar o passo para trás e, ao mesmo tempo, os dois para frente. Sendo assim, ninguém melhor para emoldurar a “culpa moderna” do título do que Danger Mouse, freak que, atuando no Gnarls Barkley ou produzindo álbuns de nomes como o Black Keys, tem o dom de repaginar e extrair caldo daquilo que todos julgavam seco.
Em quase 15 anos de carreira, o artista californiano divide seus trabalhos em dois grupos quase homogêneos. Em um deles, opta por reler temas específicos, como o soul ou o folk, casos, respectivamente, de “Midnight Vultures” e “Sea Changes”; no outro, os une todos dentro das próprias canções, pra lá de híbridas, como é o caso do clássico “Odelay”, e deste novo álbum, que em muito remete à produção do próprio cantor nos anos 90.
O mais curioso na história toda talvez seja o fato de que, em meio a esse verdadeiro liquidificador de referências, Beck conseguiu forjar uma indubitável identidade; uma colcha de retalhos que, de alguma forma, ganha vida própria. Sendo assim, é ouvir os primeiros beats e o violão carregado de efeitos de “Orphans” para rapidamente se entender o terreno no qual se está adentrando. Certos pontos, logo se percebe, permanecem iguais, como a voz dobrada e a entonação propositalmente sem expressão do cantor. “Gamma Ray”, segunda na ordem e primeiro single, é um pop lisérgico de batida marcada e backing vocals em (muitas) camadas, que poderia ter saído das sessões de “Odd Couple”, do Gnarls. Da mesma forma na faixa-título, na qual a mão de Danger Mouse se faz sentir com peso, mas na medida.
Talvez esse seja o grande segredo da coisa: ao mesmo tempo em que bota para pensar, consegue soar “friendly user”. Vejam o exemplo de “Chemtrails”: de baixo seco e percussivo na entrada, é uma faixa de melodia complicada, quebrada, cheia de nuances e fades. Senha para chatice, ou no mínimo, pretensão excessiva. Na prática, no entanto, a coisa rola prazerosa, à maneira como o pop deve ser. No headphone ou na pista (“Youthless” lembra algumas coisas de Moby, outro talento da mesma estirpe), Beck consegue burilar seus trabalhos de forma a possibilitar vários ângulos de visão sobre um mesmo tema, e nisso esse “Modern Guilt” consegue sem dúvida evoluir ainda mais em seu já alto patamar.
Dessa forma, mais maduro e longe do hype (do qual um dia, é vero, já se aproveitou e muito), Beck fez um trabalho para se descobrir aos poucos, faixa após faixa. Estou nele há um mês (algo raro, nesses tempos de banda larga e inspiração curta), e o prazo de validade ainda parece longe de expirar. Desde já, um dos melhores discos deste 2008. Fácil.

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