[Caro leitor, desculpe a demora - meu computador sofreu um "aneurisma" e logo em seguida tive que ir para a Flórida, onde meu filme "O 100º Trabalho" foi selecionado para um festival. Agora de volta, aqui está parte 2.]
Voltamos esta semana com a segunda e conclusiva parte da cobertura do VII Cine Fest Petrobras Brasil e desta vez temos os documentários, curta-metragens e o vencedor.
O filme mais procurado, badalado e concorrido no festival foi "Coração Vagabundo", cujo "personagem principal" é Caetano Veloso.
Confesso que sabia pouco sobre o flme, e devido a todo o "fuzuê" criado achei que fosse uma biografia, com Caetano contando tudo sobre sua vida (como Myke Tyson no recente filme de James Toback, "Tyson"). Mas não é nada disso - "Coração Vagabundo" apenas segue Caetano Veloso em tournée de São Paulo a Nova York ao Japão.
Digo "apenas" porque o que o filme faz é exatamente isso - o segue do hotel ao palco, da entrevista ao banheiro, do passeio turístico ao aeroporto. Por outro lado, para quem é fã do cantor, o filme é bem interessante (muito embora possa ser também interessante para muitos simples "curiosos" como eu). Aqui o astro brasileiro é mostrado em toda a sua intimidade (inclusive pelado!?!?!?!?), revelando até mesmo dúvidas em relação ao seu casamento com a então esposa Paula Lavigne (e olha que a separação eventualmente acabou ocorrendo!). O ponto de vista todo particular de Cateano faz com que suas opiniões a respeito de vida, sucesso, comida japonesa e maquiagem sejam igualmente interessantes e/ou divertidas, mesmo sendo assuntos tão díspares em relevância.
O diretor "que filmou Caetano pelado", Fernando Grostein Andrade
Também vemos os cineastas Pedro Almodóvar e Michelangelo Antonioni, ambos os quais utilizaram a música de Cateano em suas obras, falar da importância de nosso conterrâneo, inclusive com grande amostra de emoção por parte do último. Igualmente interessantes são a resposta de Cateano a Hermeto Pascoal (que o criticou por falar bem da música americana) e um monge em um templo budista que ao ver Caetano começa a cantar uma de suas músicas! Desta forma, "Coração Vagabundo" pode não ser o mais completo documentário a respeito de Caetano Veloso, mas com certeza é bem interessante e muito (e isto se deve a Caetano) engraçado.
"Coração Vagabundo" e "Simonal" foram os responsáveis pela maior lotação das salas do festival
[Detalhe engraçado: Durante todo o filme uma dupla de garotas atrás de mim ria histericamente com as observações que Caetano fazia sobre a comida japonesa. No final da sessão, vi que as mesmas eram duas nipo-brasileiras.]
"Fumando Espero" é um filme que me surpreendeu. Por ter sido escrito e dirigido por Adriana L. Dutra, diretora do festival, estava fora de competição. Da mesma maneira que no filme "Supersize Me" Simon Ratigan faz experiências com seu próprio corpo se submetendo a uma dieta de fast food, em "Fumando Espero" seguimos a jornada de Adriana, fumante inveterada, em sua tentativa de parar de fumar. Mas o filme é muito mais que isso; sim, vemos Adriana indo aos médicos, usando patches de nicotina e passando por suas crises de abstinência diárias, mas tudo isto é entremeado por outras coisas interessantíssimas.
Por exemplo, temos o depoimento de vários fumantes e ex-fumantes (com destaque para o hilário Ney Latorraca) contando as suas posições em relação ao assunto e suas experiências e lutas pessoais - e estas diferem bastante. Também conhecemos os mais variados métodos existentes para se largar (ou pelo menos tentar) de fumar.
Ilustrados por animações bem divertidas e de muito bom gosto, acompanhamos a história do tabaco e também uma série de pesquisas que nos contam dados de arrepiar os cabelos, como por exemplo: no mundo há 1,2 bilhões de fumantes, dos quais a grande maioria começaram a fumar entre os 5 e os 19 anos de idade; 70% dos afetados pelas doenças do tabaco são mulheres; o cigarro é a droga mais difícil de se largar (mais que o crack e a heroína!); o lance do cigarro light é apenas uma das várias técnicas de marketing das empresas, uma vez que quando o cigarro traz menos nicotina o fumante automaticamente dá uma tragada mais forte, ou seja, consome o mesmo de tabaco e desta forma como o cigarro acaba mais rápido, vende-se mais deste.

Será que Adriana finalmente conseguiu para de fumar?
E o filme também nos mostra a absurda e trágica realidade dos fumicultores brasileiros (somos o maior exportador do mundo), explorados de forma draconiana e escravagista pelos produtores de cigarro (que por sinal se negaram a dar depoimento para o documentário). Gostei muito do filme e recomendo a todo mundo assistir.
"Hotxuá" é a estréia de Letícia Sabatella (com parceria de Gringo Cardia) na direção de um documentário. O assunto é bem interessante: os índios Krahô do Tocantins que são conhecidos como "os índios do riso", uma vez que são um povo tão alegre que possuem até mesmo um "xamã do riso", o Hotxuá do título. Desta forma, vemos que o homem que ocupa a posição de Hotxuá é um "entretenedor 24 horas", realizando palhaçadas para as crianças, agitando o dia-a-dia dos adultos e fazendo todos se sentirem melhor (uma grande sacada do filme foi colocar no final um mímico no meio da tribo e ver como ele e o Hotxuá se relacionavam). A posição vem com alguns "bônus", como escolher qualquer garota da tribo para casar, mas também vemos que o Hotxuá é pai, caçador, ou seja, desempenha funções similares aos outros membros da tribo.
O filme também nos mostra outros costumes dos Krahô, como uma corrida que eles realizam sete dias da semana, duas vezes por dia, com o objetivo de manter o equilíbrio da natureza (ou seja, todos os dias eles organizam duas corridas na tribo!). Também vemos como a soja é considerada "veneno" pelos índios, não no sentido alimentício, mas uma vez que as plantações de soja não apenas tomam cada vez mais das suas terras como também alteram o meio-ambiente onde vivem - para pior. Tendo dito tudo isto, devo também dizer que o filme, mesmo com todas estas coisas interessantes, se torna moroso por vários momentos devido à falta de um arco narrativo - os assuntos não são trocados de maneira consistente e o filme é finalizado sem ser melhor amarrado... Uma pena, pois tínhamos aqui um documentário munido de vasto potencial.
"Favela On Blast" dividiu opiniões. Após as duas sessões do filme as pessoas saíam dizendo: "Que vergonha!" ou "Que divertido!", "Queimou o filme do Brasil!" ou então "Mostrou a real"... Isto porque o filme documenta o mundo do baile funk carioca (se bem que a Gaiola das Popozudas de São Paulo também é entrevistada), portanto ambos estão certos: tem muita coisa que dá vergonha (algumas letras são tão apelativas que deixaram os gringos de cabelo em pé), e muita que não (como os "funkeiros" mais sérios indo em defesa de sua expressãso artística, destacando que sofrem a mesma discriminação que os sambistas sofriam no passado).
O mérito do filme, devo dizer, está na causa destas reações tão diversas - ele não se restringe ao mostrar as diferentes faces do meio, falando com os principais DJs e MCs dos diferentes morros, sendo eles sérios ou gozadores, indecentes ou respeitosos. Destaque para o DJ Colibri, que toda vez pôs o cinema todo pra rir, não importando a nacionalidade.
A dupla de documentários que seguem são na verdade verdadeiros documentos da história cultural brasileira.
"Simonal - Ninguém Sabe o Duro Que Eu Dei" faz justiça a uma das maiores figuras de nossa música - Wilson Simonal. Para quem não o conhece, esse cara foi símbolo sexual, tinha programa de TV, vendia toneladas de discos, tinha hits nas rádios (muitos sobrevivem até hoje) e comandava dezenas de milhares de pessoas em shows. E de repente foi totalmente esquecido (na verdade, evitado). O que aconteceu? Veja o filme!
Para quem conhece a incrível figura, o documentário finalmente vai atrás das respostas para as perguntas que há muito flutuam na memória artística do Brasil - Qual o envolvimento (se algum) de Simonal com o governo militar? O que realmente rolou na briga entre ele e seu contador?
O filme foi co-dirigido por Cláudio Manoel (sim, o mesmo do Casseta & Planeta), Micael Langer e Calvito Leal e conta com depoimentos de figuras como Pelé, Boni e Chico Anysio, entre outros, incluindo os filhos de Simonal, Max de Castro e Wilson Simoninha.
Claudio Manoel e Calvito Leal estão muito bem acompanhados por uma convidada muito especial: Maria Paula
Além de muito informativo, este documentário consegue ser musical, comédia, suspense, drama e por isso é imperdível. Destaque para o dueto espetacular de Simonal com Sarah Vaughn.
Esperei muito tempo alguém fazer um documentário sobre Os Mutantes. Acabei levando mais que esperava - em "Loki - Arnaldo Baptista", o diretor Paulo Henrique Fontenelle não apenas nos conta toda a história da banda (desde a época em que uma banda masculina, com os irmãos Baptista e uma feminina, com Rita Lee, decidiram se unir e o resto é história...) como também "vaza" para a história de Arnaldo. E isto era óbvio, pois o baixista-tecladista era a alma criativa da banda e mesmo depois que a mesma não existia mais ainda lançava clássicos do Rock e da música brasileiros (seu primeiro disco solo, "Loki", considerado um clássico, dá o nome ao filme).
Um filme completo, "Loki..." nos dá vários muito esperados "porquês" (o forte envolvimento de Arnaldo com as drogas, a separação de Rita Lee, a saída dela da banda) e "comos" (a tentativa de suicídio, a literal ressurreição de Arnaldo nas mãos de sua "fã transformada em esposa" Lucinha) , muito embora infelizmente não conte com o depoimento de uma personagem deveras importante - Rita Lee se recusou a participar do filme, da mesma forma que se recusou a participar da volta dos Mutantes (cedendo seu lugar a Zélia Duncan).
O produtor André Saddy, o diretor Paulo Henrique Fontenelle e a produtora Isabel Monteiro
Claro, não podem faltar muitas curiosidades (o único filho de Arnaldo foi com seu relacionamento mais curto, Arnaldo passa seus dias pintando quadros em uma fazenda em Minas Gerais), uma vez que a vida de Arnaldo é interessantíssima.
Mas o maior mérito deste filme foi escrever, provar e sublinhar a grande importância que a música de Arnaldo (com e sem Os Mutantes) teve na história da música brasileira e sua influência tanto nacional (sim, foram Os Mutantes quem "deram a corda" na Tropicália) quanto internacional (ouvimos do próprio Kurt Cobain a adoração do líder do Nirvana pelos Mutantes).
Também questiona-se como certas coisas mudam com as circunstâncias - uma pessoa criativa é chamada de genial ao fazer algo diferente e ousado; mas após passar por um hospício a mesma pessoa, ao ter idéias diferentes e ousadas (como antes), passa a ser chamada de louca.
Uma vitória muitíssimo merecida
Bom, não é à toa que "Loki - Arnaldo Baptista" foi o vencedor do festival deste ano, ganhando como prêmio não apenas o lindo troféu "Lente de Cristal" como também um contrato de distribuição nos Estados Unidos com a Maia Entertainment.

O vencedor é decidido pelos votos do público
Os Curtas
Bom, quatro dos cinco curta-metragens exibidos este ano no festival fizeram parte do programa cultural Revelando os Brasis.
"A Dois Passos do Paraíso" (de Alan Russel e Waine Gontijo) faz algo bem interessante: sabe a música de mesmo nome da banda Blitz? Pois é, ela foi baseada em uma história real. O curta conta esta história. Muito legal, ainda mais que conta com a própria música na trilha sonora.
"Paraíso 1975" (de Rafael Assumpção) é uma espécie de "caso verdade", uma vez que retrata um casal de colonos que é obrigado a abandonar o cafezal onde trabalham após a "geada negra" do Paraná em 1975. Uma pena que o filme é exatamente isso: um casal de colonos decidindo abandonar o cafezal onde trabalham após a geada.
"Cachorro-Quente Vodu" (de Elano Ribeiro Baptista) faz piada com a relação entre superstição e torcida ao mostrar um torcedor que acaba ligando a má performance do seu time com uma garotinha comendo cachorro-quente. Mas por sua linguagem e humor é um filme cujo público-alvo é realmente crianças.
"O Circo Chegou" (de Thiago de Souza Santos) foi o único documentário, e valeu a pena. Nos mostra a terceira e quarta gerações da família Bartolo em ação (eles trabalham no circo desde o começo do século), como é a vida circense, como pensam seus membros ("Fazemos por arte e não por dinheiro"), aprendemos que "o inimigo do circo não é a televisão como dizem, mas o progresso". O diretor Thiago de Souza Santos ainda arrumou tempo para colocar um videoclipe no fim com os créditos.
O quinto curta-metragem do festival foi o vencedor do Focus-Brazil Video Fest, o filme "Lavagem do Bonfim - da Bahia a New York", programado para receber o prêmio no evento.
Ivy Goulart e sua entrada triunfal no cinema (acho que a fitinha do Bonfim dá certo mesmo!)
Dirigido por Ivy Goulart (que por sinal teve um filme seu selecionado no primeiro ano de Revelando os Brasis neste mesmo festival com o curta "Edilamar"), em apenas cinco minutos nos dá um histórico da Lavagem do Bonfim - iniciada em Salvador/BA em 1804, e nos leva até a Nova York dos dias de hoje, onde a cerimônia é realizada no "Brazilian Day" na 46th Street. Indo além do tom jornalístico-informativo, o filme nos mostra de maneira muito divertida como a "Lavagem", assim como tudo o que é brasileiro, é contagiante.
Com muito bom humor, o diretor aceitou o prêmio entregue pela divertida Maria Paula
E como já é tradição, a foto com "os astros" do evento deste ano:
Todos os artistas participantes que estiveram presentes no VII Cine Fest Petrobras Brasil
Não posso deixar de mencionar que várias celebridades estiveram presentes no festival, entre elas:

Tenho que dizer que Sandy foi um show de simpatia...

... e foi com o marido Lucas Lima no evento

Max Fercondini também foi...
... bem como Ann Dexter-Jones

E ai? Quem virá no próximo ano?
Desta forma encerramos a cobertura de mais um Cine Fest Petrobras Brasil - um evento que traz para os Estados Unidos (e várias outras partes do mundo) o nosso cinema e a nossa cultura - e por isso mesmo eu faço questão de cobrir.
[Fotos: Simone Mihich Bueno, divulgação]

RSS
3-9-2009
27-8-2009
22-8-2009
14-8-2009
10-8-2009