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VII Cine Fest Petrobras Brasil - Parte 1 (abertura e filmes narrativos)

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Mais uma vez tivemos aqui em Nova York o CineFest Petrobras Brasil, este ano em sua sétima edição.

E como já é tradição, o festival deu o pontapé inicial no Summer Stage do Central Park, uma cerimônia que contou com um "aquecimento musical", um show e um filme.

 
As organizadoras ("garotas-Inffinito"): Viviane Spinelli, Adriana Dutra e Cláudia Dutra

Enquanto as pessoas entravam e se ajeitavam, a DJ Karina Pimenta esquentava a galera, tocando um mix variado de músicas brasileiras. Aliás, ela foi a  responsável pelo som do Lounge Inffinito, ou seja, todos os dias após as 11 horas o pessoal que ia pro bar fazer um social depois de alguma sessão estava "à mercê" das escolhas da DJ, que não decepcionou, tematizando as músicas de acordo com a ocasião (por exemplo, quando uma das personalidades do extinto e lendário Studio 54 apareceu por lá, a DJ mandou discoteca anos 70; quando o pessoal estava saindo do filme "Favela On Blast", ela colocou música de baile funk; e assim por diante).


A DJ Karina Pimenta, uma simpatia

De volta ao Central Park, o show que tomou o palco como um furacão foi o da cantora e performer Sílvia Machete. Além de possuir uma super voz, Machete possui um super carisma e não fez nenhum esforço para conquistar o público que lá estava, mesmo tocando o tipo de música que as pessoas lá presentes não estavam esperando. Não quero dizer com isso que musicalmente o show dela não seja bom, muito pelo contrário, apenas que as pessoas que foram ao Summer Stage aquela tarde com certeza estavam esperando algo mais tipicamente "brasileiro". Mas ouviram coisas como um cover de "Sweet Child O'Mine" do Guns'n'Roses versão cabaré, "Garota de Ipanema" versão Rock e por aí vai (as composições próprias seguem a linha cabaré também, e são ótimas).


A "multi-performer" Sílvia Machete

Ninguém se importou; como disse antes, não faltou competência por parte dos músicos e Machete deu um show à parte: enquanto fazia bambolê, enrolou um baseado e tomou martini, divertiu os presentes com as histórias de quando morou em NY, deu um DVD de presente para quem subisse no palco e chupasse o dedão do pé dela (e não é que foi lá um americano, por sinal com muita cara de nerd?) e fechou o show rebolando 20 bambolês ao mesmo tempo. Esse foi um show diferente que valeu a pena ser visto.


E não é que ele subiu lá e chupou mesmo?
 

O filme de abertura este ano, fora de competição, foi "Se Eu Fosse Você 2", a segunda parte da bem sucedida comédia de Daniel Filho no qual (novamente) Tony Ramos e Glória Pires trocam de identidade (conceito tão largamente utilizado em comédias no cinema, especialmente o americano, que até virou "estilo").

Bem, o estilo do filme é "padrão Globo", o humor é "humor Globo" e por isso mesmo acertou no alvo em termos de sucesso (um dos filmes mais assistidos na história do cinema brasileiro), mas isto não quer dizer que não funcione com quem não vê TV (como eu).

Cenas como a Helena no corpo de Cláudio jogando futebol e o Cláudio no corpo da Helena comprando roupa são bem engraçadas - e quem não quer ter o prazer de ver o Tony Ramos tendo as "costas amazônicas" depiladas, nem que só um pouquinho?

Como comecei falando de um filme narrativo, vou completar esta matéria com os demais narrativos e no post que vem falo dos documentários de dos curta-metragens. E como iniciei falando de uma comédia, vou emendar em duas outras que me surpreenderam bastante.

Baseado na peça homônima (que por sua vez foi baseada no livro homônimo), "Divã" é um daqueles filmes que parece que "é filme pra mulher". Pode até ser, só que eu ri pra burro! Achei o filme uma grata surpresa porque, além de super divertido, é um filme maduro (o que é difícil encontrar em comédias) e com final não-Hollywoodiano (mais raro ainda) e extremamente satisfatório.

O diretor José Alvarenga Jr. (com vários filmes dos Trapalhões no curriculo e ainda o longa de "Os Normais") foi muito esperto em chamar as duas atrizes da peça (Lília Cabral e Alexandra Richter) para reprisarem seus papéis no filme - a química já estava pronta. No filme, acompanhamos Mercedes (Lília Cabral) visitando um psicólogo (o misterioso "Lopes", que nunca vemos) e enquanto conta as aventuras e desventuras de sua vida vemos tudo através de flashbacks. A música de destaque do filme é "Rapte-Me Camaleoa" de Caetano Veloso; isto rendeu a ele uma ponta.

"Romance", a uma primeira análise, pode até parecer não interessante; um filme que discute o romance na vida e nas artes através do relacionamento de dois atores e baseado no clássico "Tristão e Isolda" ("Cyrano de Bergerac" também é referenciado). Só que quem dirigiu este filme foi Guel Arraes, o mesmo de "O Auto da Compadecida" e "Lisbela e o Prisioneiro", e mais uma vez ele acerta em cheio. O filme começa meio devagar, mas logo desembesta em uma montanha-russa de encontros e desencontros que geram boas risadas. Wagner Moura e Letícia Sabatella (ela também com sua estréia na direção neste festival; veja próximo post) fazem o casal principal, os atores "sofrendo de paixão" e que vêem o fim do relacionamento quando ela troca o teatro pela TV; temos a agente atrapalhada (Andréa Beltrão), que ajuda o ator-diretor a se reencontrar com a amada arumando emprego na TV pra ele; só que o chefe é o produtor ganancioso (José Wilker), e eles têm que lidar com mais uma dupla de atores em diferentes espectros da profissão - o astro que sofre de estrelismo (Marco Nanini) e o iniciante que está disposto a tudo para chegar lá (Vladimir Brichta). Acredite: estes caras misturados dá uma confusão que vale a pena ser vista.

Falando em Andréa Beltrão, neste festival deu para ver como ela é boa atriz. Após vê-la aprontando mil trapalhadas em "Romance", ela consegue nos fazer esquecer completamente da "Andréa comediante" e nos mostra o lado "Andréa heroína de ação". Em "Verônica", ela faz um típico protagonista "hitchcockiano" (a pessoa inocente que é pega de surpresa em uma trama com a qual ela não tem a mínima ligação e é forçada a se virar para sobreviver): uma professora que tenta ajudar um aluno cujos pais não vão buscar na escola. Só que ela não sabe que estes foram mortos por traficantes. E estes, por sua vez, estão agora atrás do garoto. Aí já viu: muita perseguição, tiros e surpresas pelo caminho que fizeram com que a performance de Andréa arrancasse aplausos do público. Maurício Farias também surpreendeu, uma vez que é mais conhecido por ser o diretor de "A Grande Família" (47 episódios, mais o longa), uma comédia e um lance bem "sossegado" se comparado a um filme de ação policial como esse. A trilha sonora é de Branco Mello (Titãs) e Emerson Villani.

Crime de tráfico também tem presença em "Praça Saens Peña", um filme mais "tranqüilo", dirigido por Vinícius Reis ("A Cobra Fumou"). Chico Diaz é Paulo, um professor que manja pra caramba da história do Rio de Janeiro e por isso recebe a encomenda de um livro sobre a Barra da Tijuca. Mas ao conhecer um sujeito cujo filho foi morto por traficantes (o jornalista Guti Fraga, co-fundador do grupo cultural "Nós do Morro"), ele fica obcecado e muda o foco do livro. Mas isto é apenas o que ocorre com ele; também há muito acontecendo com a sua família (Maria Padilha, Isabela Merieles) e com o mundo (é 2003; Lula começa o mandato e o Iraque é invadido pelos EUA)...  


Mesmo sendo aniversário do filho, Vinicius Reis foi apresentar o seu filme

Dirigido por um dos maiores diretores de fotografia brasileiros (se não o maior), Walter Carvalho, "Budapeste" é baseado no livro homônimo de Chico Buarque de Hollanda (que ganhou uma ponta no filme) e conta a história de Costa (Leonardo Medeiros), um ghost-writer (aquele que escreve e vende a autoria para outrem) que, ao ir para Budapeste (capital da Hungria) devido a uma viagem de negócios, vê sua vida completamente mudada por uma série de fatores que se desencadearão. O filme discute identidade, linguagem e nacionalidade de uma maneira muito interessante e consegue ser um filme denso sem ser impenetrável, complexo sem ser complicado. A fotografia ficou a cargo do filho de Walter, Lula Carvalho, que já se mostra "herdeiro".


Walter Carvalho (que agradeceu os eletricistas e maquinistas - bem cinematografista!) e Lula Carvalho (ao fundo)

Por sinal, Carvalho (o pai) foi diretor de fotografia em "A Erva do Rato", dirigido pelo polêmico Júlio Bressane. Quem conhece a obra de Bressane sabe que em seus filmes ele simplesmente não possui a menor preocupação com o comum. Isto acontece novamente aqui, se bem que de todos os filmes de Bressane que vi até hoje (e confesso que não vi todos) este é o meu favorito até o momento.

Baseado em duas histórias de Machado de Assis, "O Esqueleto" e "A Causa Secreta", o filme tem em Alessandra Negrini a moça que é resgatada por um rapaz, interpretado por Selton Mello, ao desmaiar no enterro de seu pai. Passam a morar juntos e os hábitos que desenvolvem passam a ser no mínimo curiosos. Não é um filme fácil (antes da sessão, o produtor Marcello Ludwig Maia clamou para o público: "Por favor, tenham paciência com o filme"). Demora, se arrasta, diversas vezes se repete, mas isto para mim de certa forma colaborou para as surpresas quando as coisas estranhas começaram a acontecer. De qualquer forma, confesso que se fosse mais rápido e econômico funcionaria melhor, na minha opinião. Isto não impede que você fique maravilhado com a fotografia primorosa (de Walter Carvalho), e o clima do filme é deliciosamente sombrio (a trilha sonora de Guilherme Vaz com sons de animais e da natureza colocados em outros contextos colabora ainda mais para isto). O melhor jeito de comentar o filme é exemplificando. De um lado, temos um americano que saiu no meio da sessão gritando: "Nunca mais venho a este festival só para não correr o risco de ver outro filme assim!"; de outro, temos os cinemas franceses que ficaram com o filme em cartaz por várias semanas... Creio que o motivo é o mesmo - o contexto sexual sem barreiras.


O produtor Marcello Ludwig Maia e o cinematografista Walter Carvalho foram representar o polêmico "A Erva do Rato"

"Fronteira", de Rafael Conde, foi uma espécie de "irmão" da "Erva do Rato". Também foi considerado  "difícil", também possui a sua dose cavalar de lentidão. Também é passado em um local e momento afastados do mundo moderno, também baseado em literatura (Cornélio Penna, cuja obra infelizmente está apenas sendo descoberta póstumamente). Também possui uma fotografia invejável (de Luis Abramo), das cores às composições das imagens. Devo dizer que as metáforas visuais são demais (a garota considerada milagreira, quando sentada na rede, esta se assemelha a asas saindo de suas costas; a indumentária que a tia cruel usa possui pontas que lembram chifres... Não preciso dizer que a primeira se veste de branco e a segunda de negro). A câmera que observa por entre frestas também dá um clima sombrio à história da menina de interior considerada milagreira que, após a chegada de um viajante (por quem se apaixona) e de sua tia (que vem com intenções puramente "religiosas"), vê sua vida mudar para sempre. Lamento que a história deste filme não seja sido mais amarrada, deixado tão aberta.


Rafael Conde também trouxe um filme "de arte" ao evento

"Orquestra dos Meninos" é um filme que precisa ser visto, não apenas por ser uma delícia de filme, mas também porque é uma história que todos devem conhecer. Baseado em fatos reais (que ocorreram nos anos 90 em Pernambuco, muito embora o filme tenha sido rodado em Sergipe), segue a trajetória de um brasileiro muito especial, o maestro Mozart Vieira (interpretado aqui pelo ator Murilo Rosa, ótimo no papel), um homem muito humano que decidiu usar seu talento e amor para ensinar as crianças e jovens da sua cidade a tocar música e para este propósito forma uma orquestra com eles.


A atriz Priscila Fantin, o diretor Paulo Thiago e o ator Murilo Rosa

A coisa dá muito certo e logo logo vêm os políticos locais com a previsível mentalidade: "Deixe-nos usá-lo ou veja-nos destruí-lo". Em um caso que chegou a escandalizar todo o Brasil, é a história da luta por um ideal e um sonho, e uma fonte de inspiração para todos os brasileiros. Certamente por isso o diretor Paulo Thiago, que tem preferência em adaptar para o cinema obras literárias ("Sagarana - O Duelo", "Policarpo Quaresma - O Herói do Brasil", "O Vestido"), tenha optado por esta contundente história.


E o pessoal não perdeu tempo caçando autógrafos e socializando com os atores!

Semana que vem: os documentários, os curtas e o vencedor do festival.


[Créditos das fotos: Simone Mihich Bueno, divulgação]

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