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Um bate-papo (de segunda-mão) com Eduardo Coutinho

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Um dos maiores documentaristas brasileiros, Eduardo Coutiho esteve recentemente em Nova York para um par de importantes eventos comemorativos de sua longa e importante carreira.

Um deles foi a exibição de 8 de seus filmes no MOMA (Museu de Arte Moderna de Nova York) - coisa rara, uma vez que o Premiere Brazil (mostra realizada em conjunto com o Rio de Janeiro International Film Festival/Festival do Rio) normalmente vai pela variedade dos cineastas. [A cobertura completa do Premiere Brazil 2009 será postada aqui daqui a duas semanas.]


Até Osmar Chohfi, nosso Cônsul (de barba, à frente), esteve presente na Americas Society - e se divertiu com a verve de Coutinho

Outro evento foi o Tropichat - promovido pelo Cinema Tropical e pela Americas Society (ambas as entidades promovem e divulgam a cultura latina nos Estados Unidos), o Tropichat é um programa que sempre reúne cineastas, intelectuais e especialistas latinos em interessantes debates e palestras. Coutinho foi interpelado por outro ícone do cinema brasileiro, Bruno Barreto, na sede da Americas Society, na Park Avenue. O mais recente filme de Barreto, "'Última Parada 174", fechou a noite de abertura do Premiere Brazil deste ano.

Falando rápido, quase que descontroladamente, Coutinho revela sua visão (muitas vezes única) a respeito do cinema, diz o que gosta (mesmo quando achamos difícil entender o que ele realmente quer dizer algumas tantas vezes), e mais ainda reclama do que não gosta (chegando a apontar os defeitos do cinema americano bem no coração cultural estadunidense), sem papas na língua. Realmente foi um evento vê-lo e ouvi-lo.


Barreto fala - e Coutinho pensa...

"O Eduardo Coutinho é um dos nossos mestres documentaristas, mas ele faz mais que documentário, ele faz algo mais", diz Bruno Barreto definindo e introduzindo o colega, que ironicamente conheceu no mundo dos filmes de ficção. "Coutinho era roteirista de filmes comerciais quando o conheci", diz Barreto. E ele sabe disso muito bem, porque seu filme mais bem-sucedido até o momento, "Dona Flor e Seus Dois Maridos", teve Coutinho como co-roteirista.

"Percebi que era um mau cineasta de ficção", diz Coutinho, "Então decidi fazer documentários". A este comentário, Barreto espertamente indagou: "Então você quer dizer que virou documentarista por falta de auto-estima?". "Totalmente!", retrucou o documentarista com bom humor.

Ironicamente, o primeiro grande sucesso de Coutinho surgiu de um filme de ficção que fracassou. Mas não no sentido artístico. Leia mais sobre "Cabra Marcado Para Morrer" aqui em duas semanas.



Uma das características dos filmes de Eduardo Coutinho é não ter características, ou seja, são documentários que muitas vezes fogem do padrão. "Documentário não é gênero", diz Coutnho, "Gênero é pornô, western, thriller... Documentário é um sistema, um formato diferente, não um gênero".

Talvez por pensar assim muitos de seus filmes sejam tão diferentes dos documentários tradicionais, e mais diferentes ainda dos flmes de ficção. "A grande diferença é que o documentário possui problemas éticos maiores", diz Coutinho, "Você não pode inflingir coisas negativas aos personagens de documentário, mas em ficção você pode matar todo mundo, por exemplo, mas no final tudo bem porque não ocorreu de verdade". E ele completa: "Você pode provar que o documentarista foi ao Edifício Master e filmou lá por aquele período de tempo e que aquelas pessoas existem" ("Edifício Master" é um dos filmes mais famosos de Coutinho; nele, o cineasta entrevistou os interessantes moradores do tradicional prédio em Copacabana).

Uma das características dos filmes de Eduardo Coutinho é que ele e/ou a sua voz sempre está presente. "Você sempre está lá", diz Bruno Barreto, "E desta forma você mostra que há um ponto-de-vista também". Coutinho, mostrando que o motivo não é o "de aparecer", observa: "Por outro lado, estou lá para me esconder. Apareço, mas estou escondido atrás das câmeras, atrás das cenas".



Certamente a presença de Coutinho se faz notável devido à necessidade de seu envolvimento cênico com seus personagens. Ele diz: "Olho para a pessoa, não para o monitor; a coisa vai pela emoção. O diretor de fotografia se preocupa com o quadro, eu com os personagens". Mas isso não quer dizer que ele se ausente da decisão do posicionamento da câmera: "O quadro nós decidimos no começo, antes da cena ser filmada. E quando a cena começa a câmera não mexe, então...". Ou seja, ele não precisa se preocupar com o quadro.

E no quesito de conseguir a naturalidade das pessoas, ele diz que não é ele não: "Depois de 30 minutos filmando, as pessoas perdem a resistência".

Isto leva à pergunta do porquê uma pessoa se torna personagem em um filme dele. "Esse é o ponto", ele responde, "Carisma, mais que fatos que a pessoa realizou". Mas a coisa não é sempre assim: "Às vezes, leva anos de pesquisa, como em 'Cabra Marcado Para Morrer', mas às vezes em 5 minutos se acha um personagem interessante". É verdade; em "Jogo de Cena", por exemplo, onde pessoas reais foram contar histórias marcantes de suas vidas, que depois seriam interpretadas por atores, Coutinho pôde verificar na hora quais as histórias - e os contadores - mais marcantes.


Isto faz muito sentido quando se considera o quê Coutinho busca nas pessoas que filma: "Sou interessado em como as pessoas extraem sentido de suas vidas". Mas a busca é um pouco mais profunda: "O que elas fazem de interessante entre a vida e a morte. Não há razão para falar da primeira sem a segunda". Isto fica claro no filme "O Fim e o Princípio" onde, sem qualquer roetiro pré-estabelecido, Coutinho sai entrevistando os habitantes de uma pequena cidade paraibana. As perguntas onipresentes são: "O que você faz da vida?", "Você pensa na morte? Tem medo de morrer?".

Coutinho diz que a culpa das pessoas não gostarem de documentários são os próprios documentaristas: "As pessoas não gostam de documentários porque informação elas conseguem de graça na TV". Isto aponta para o fato de que documentários devem ser mais que simples "informação" na opinião do cineasta: "Se eu quisesse verdade eu faria jornalismo televisivo, o que por sua vez é respeitável, mas não é documentário, é informação. E entre a ficção e a informação há o documentário, mais perto da informação, mas uma linha deve ser traçada entre jornalismo e documentário".

Como ele mencionou a palavra "verdade", se tornou questionável qual a importância da mesma em um documentário. E Coutinho também joga as suas perguntas: "O que é verdade ou mentira, falso ou verdadeiro? Às vezes a verdade tem que ser arranjada; um exemplo é uma vez em que eu estava filmando num lixão do Rio de Janeiro e esta mendiga estava vestindo uma camiseta universitária escrito "Estudos Arqueológicos" em árabico. Apesar de real, isto não parece real -  aquela pessoa não estudou arqueologia naquela faculdade - e deve ser eliminado para parecer verdadeiro". Ele continua: "Outra coisa, sentimentos não são verificáveis. Uma pessoa pode dizer a você o que sente por algo ou alguém num documentário, mas como saber que ela está dizendo a verdade?".


A solução, para Coutinho, é "Fazer filmes sem narcisismo".

Este conceito pode parecer vago, mas fica claro o que ele quer dizer quando se refere ao documentário americano. "Os Estados Unidos vão pelo típico, eu vou pelo diferente. Eu não sou um assistente social, não estou atrás do 'positivo' ou do 'fortalecimento da minoria tal' ou do 'bem'. Estou atrás de uma história. Ideologias não importam, apenas a verdade que você encontra na vida".

Ele continua: "Você perde totalmente a liberdade se você tem que reportar minorias, por exemplo. Só lésbicas podem filmar lésbicas, só anões podem filmar anões, etc. Senão é 'errado' ou pode parecer racista. Por quê? Isto é terrível". E ele diz mais: "Filmes de 'cunho positivo' também são terríveis. E os americanos amam isso. É mais fácil o filme de ficção que ganhou o Oscar ser bom que o documentário que ganhou o Oscar ser bom".

Coutinho também não gosta de algumas coisas que ocorrem em documentários "sem necessidade", ou se concentram apenas nas coisas que importam menos. "Uma imagem com uma bela composição porque 'você é um artista'. Se você quer ser artista, encontre outra mídia". Outra é: "Um 'two-shot' da mesma pessoa falando  e aí é inserido um quadro da sala no meio. Também desnecessário. Qual o problema de ficar mostrando a pessoa o tempo todo?". E finalmente: "Quando o personagem diz: 'Trabalho no banco e tenho um filho', isso - a foto do banco e a foto do filho - não precisam ser mostradas como evidência para provar que é verdadeiro. Não é necessário! Em "Santiago", de João Salles, há apenas um quadro negro na tela e ouvimos uma mulher cantando. Perfeito. Você precisa mesmo de imagem?".

FRASES

"O que define o sucesso de um filme não são os críticos, mas as locadoras - que por sinal estão morrendo".

"Só há esperança real para quem chegou ao fundo do poço".

"Meu ponto de partida são os meus limites, os limites da arte... Apenas quando você reconhece a inutilidade do que você faz você pode fazer algo útil".

"Já que ninguém vai ver o seu filme, porque documentário é marginal por essência, então faça um o menos inútil o possível".

"Os piores conceitos são os de pureza e perfeição, porque não existem. E as pessoas os buscam. Por isso não escrevo mais, mas faço documentário, que é um troço imperfeito e incompleto".

 
[Crédito das fotos: Simone Mihich Bueno]

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