Este ano a literatura brasileira conquista um importante e há muito devido marco.
É lançado nos Estados Unidos o livro "Life As It Is - Selected Stories" ("A Vida Como Ela É - Histórias Selecionadas"), como o subtítulo sugere uma seleção de 58 das melhores crônicas que Nelson Rodrigues fez para o jornal "A Última Hora" em sua coluna de mesmo nome ("A Vida Como Ela É") que durou uma década.
A capa do livro americano
P.S.: Apesar de ter se feito no Rio de Janeiro e suas histórias serem baseadas lá, muitos pensam que Nelson era carioca. Não era, nasceu no Recife/PE. Mudou para o Rio quando criança.
Será que os americanos estão prontos para o Nelson Rodrigues?
Se selecionar as histórias que entrariam no livro não é tarefa fácil (Nelson escreveu simplesmente centenas de crônicas sociais), traduzi-las também não é moleza - Nelson Rodrigues trouxe para o seu texto a mesma ginga que o brasileiro tem na sua dança e drible, ainda por cima inventando gírias que se tornaram populares no idioma.
Quem selecionou as histórias e as traduziu foi o escritor Alex Ladd, que já havia adaptado para a língua inglesa e dirigido em palcos americanos peças de Nelson.

Domício Coutinho (escritor e presidente da Brazilian Endowment For the Arts) e Alex Ladd "falam Nelson"
Mas a tarefa mais difícil de Ladd foi convencer os editores gringos que o leitor americano está pronto para o autor brasileiro. É comum nos Estados Unidos pessoas desmaiarem no cinema, protestarem publicamente contra obras de arte e censurarem a sexualidade em detrimento da violência em filmes. Além do mais, o anglo-saxão é muito mais "frio", não se identificando tanto com a "enxurrada de emoções" dos latinos. Ladd conseguiu convencer os editores e o livro foi publicado.
Talvez pela globalização maciça proporcionada pela internet, talvez pelo americano mais culto ter tido sua curiosidade e relação ao que lhe é "alienígena" despertada nos últimos anos, talvez pela população latina ter aumentado tanto naquele país, "Nelson tem sido bem recebido" e o livro tem tido boas críticas e boa aceitação.

Alex como narrador e seu grupo de atores como os personagens das histórias
Ladd saiu em tour pelas livrarias americanas para divulgar o lançamento e quando pôde se valeu de uma idéia maravilhosa: levou parte de sua trupe de atores para leituras-interpretativas ao vivo, antes e depois da coletiva. E pela reação do público presente na que fui deu para perceber que o americano está sim pronto para Nelson Rodrigues. Mas ainda há um longo caminho a seguir.
O Mito
Nelson Rodrigues é conhecido como escritor, mas este título não lhe define por completo. Como dramaturgo, inovou a linguagem teatral, como cronista social popularizou a crônica (e escandalizou o status quo brasileiro com a mesma) e como cronista esportivo ajudou a popularizar ainda mais o esporte ao criar um jornalismo criativo que misturava realidade com a fantasia e "puxava" o leitor para um papel de "cúmplice".
P.S.: Nelson também escreveu crítica de ópera, e fez parte da primeira mesa-redonda de futebol da TV brasileira (a "Grande Resenha Esportiva Facit" na Globo).

A melhor adaptação de Nelson para a TV: a coleção "A Vida Como Ela É", que passava aos domingos no Fantástico
No Papel
Nelson Rodrigues escreveu 9 romances, 5 contos e inúmeras crônicas. Sobre as últimas, há 9 coleções publicadas, mas contando todas as que escreveu, em todos os jornais para os quais trabalhou, somando as de histórias e as esportivas, conta-se mais de 2.000!
Nelson era um escritor astuto - ao se deparar com uma "bifurcação criativa", ou seja, uma dúvida sobre qual caminho seguir numa história, ele simplesmente tomava ambos e saía com duas histórias - daí algumas de suas histórias começarem do mesmo jeito e terminarem completamente diferentes.
P.S.: Nelson se valeu diversas vezes de pseudônimos para escrever folhetins e crônicas esportivas; seus alter-egos iam do cômico (como "Gravatinha") ao absurdo (como "Sobrenatural de Almeida"), passando até por mulher (como "Susana Flag").
Criatividade à parte, Nelson possuía um olhar unicamente freudiano para comentar de modo bastante crítico e irônico o que acontecia na sociedade (principalmente a classe média) da época - isto, somado ao fato de ter começado sua carreira de escritor no jornalismo policial, cobrindo crimes aos 13 anos de idade. Ou seja, como todo trangressor, Nelson foi muito criticado. Só que ele não transgredia por transgredir, apenas servia de espelho da sociedade que, ao se ver, nem sempre gostava do que via...
Daí o título de sua coluna de crônicas, "A Vida Como Ela É", e o seu apelido: "Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico."

No Palco
Nelson escreveu 17 peças de teatro. O mais importante aqui é que, além do "sabor" das crônicas, estas peças tinham uma linguagem toda própria e inédita até então, tendo sido um marco no teatro.
P.S.: Nelson Rodrigues não queria fazer teatro. Decidiu escrever peças como um "ganho extra" para se livrar de problemas financeiros.

As obras de Nelson Rodrigues tiveram (até o momento) 21 filmes e 7 novelas e programas de TV baseadas nas mesmas.
Só para se ter uma idéia: o famoso tetrólogo polonês Zbigniew Ziembinski deixou seu país para ir a Nova York explorar novos horizontes. No caminho, passou pelo Brasil e ao ler "Vestido de Noiva", disse: "Não conheço nada no teatro mundial que se pareça com isso". Desistiu imediatamente de ir aos Estados Unidos e decidiu ficar no Brasil. Ziembinski não apenas estreou "Vestido de Noiva", como também foi o diretor-estreante de outras 3 peças de Nelson.
A Vida Como Ela Foi
Apesar de ter um grande apelo popular, Nelson Rodrigues tinha muitos críticos. Estes o acusavam de ser profano, mórbido e de mau gosto.
Afinal de contas, como é que alguém pode ter uma visão tão nua e crua do mundo? O leitor pode responder:
Rodrigues se tornou conhecido e bem-sucedido, mas sua vida de jornalista não foi sempre um mar de rosas. Trabalhou para os jornais do pai, mas o primeiro foi perdido para o sócio e o segundo teve fim com uma verdadeira tragédia.
Nelson e mais 3 irmãos (era o 5º de 14) - Mílton, Mário Filho e Roberto trabalharam juntos no segundo jornal do pai, "Crítica". No dia seguinte ao natal de 1929, a capa do jornal trazia a reportagem do divórcio de duas figuras sociais da época. Ofendida por ter sido "exposta" pelo jornal (a imagem de desquitada na época era mau-vista), a mulher compra uma arma, vai à redação e atira em Roberto, na frente de Nelson. Dias depois o irmão vem a falecer em decorrência do tiro, também causando a morte do pai depois de meses de depressão profunda. O fim do jornal, que até então ia muito bem, também chega, assim como a estabilidade financeira da família.
Após anos de dificuldades (chegou até a passar fome), foi contratado por "O Globo", mas teve que trabalhar de graça por muito tempo até finalmente conquistar seu espaço.
P.S.: Em contrapatida, foi o jornalista Roberto Marinho (dono do "O Globo") quem pagou pelo caro tratamento de tuberculose de Nelson em Campos do Jordão tempos depois.
Seu nome era Nelson Falcão Rodrigues
Mesmo censurado, Nelson apoiava a ditadura e o governo militar, vendo este como um mantenedor da ordem no país. Aprendeu a verdade do modo mais sofrido: ao visitar seu filho (Nelson Rodrigues Filho), que havia se tornado guerrilheiro, na prisão. Até então não sabia o que realmente se passava nos corredores do poder. Nelson teve que usar de toda a manipulação possível para salvar o filho - e depois fez o mesmo por amigos.
Esta época de crises viu o fim do seu segundo casamento, no qual teve uma filha com problemas mentais. Depois fora casar com sua secretária, mas também não deu certo. Foi preciso toda uma vida para perceber que seu verdadeiro amor era a sua primeira esposa, Elza Bretanha, antiga colega de redação e com quem ficou a maior parte da vida - e até o fim da mesma.
Para fechar: após sua morte, Nelson foi enterrado na manhã seguinte. À tarde, fez 13 pontos na loteria esportiva! Ironia? Mais do que isso. Após tantos anos sendo retratada por sua arte, a vida presta a mais nobre homenagem a Nelson Rodrigues retratando a sua arte em si mesma e provando que a vida é, afinal de contas, rodriguiana.
[Fotos: Simone Mihich Bueno, divulgação (Nelson Rodrigues); Imagens: divulgação]

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1 Nov, 2009 às 1:49 PM Reconheço que tinha prometido pra mim mesmo nunca mais ver nenhuma peça que tivesse Nelson Rodrigues como autor por achar que o teatro brasileiro exagera nas adaptações dele. Mas assisti recentemente a trilogia "Estórias Ordinárias", baseada em crônicas de Nelson e sem preconceitos, pude entender melhor e viajar "na vida como ela é"...
1 Nov, 2009 às 5:47 PM Veja este DVD duplo com 40 histórias que a Globo lançou (passava no Fantástico há tempos atrás), "A Vida Como Ela É" (coloquei a capa na matéria). É simplesmente MARAVILHOSO! Você vai gostar!
[]s,
Micki
7 Nov, 2009 às 3:49 PM Gostaria de convidar para uma visita no blog da banda CIRCULO VICIOSO.Baixe o promo-demo e dê sua opinião!
Abçs Rock n Roll !!
9 Nov, 2009 às 6:24 PM Visitarei o blog sim, mas crítica de demo é com a redação em outra seção da Dynamite.
Já foi encaminhado.
[]s,
Micki