Às vezes penso como existíamos na época anterior aos computadores; nosso micro quebra e a gente não consegue fazer mais nada... Mas é bom pensarmos nisso de vez em quando porque assim (como no meu caso aqui) a gente cria vergonha na cara e "se vira" (sim, o meu ainda está no conserto!).
MARTYRD
Os primeiros a tocar foram o Martyrd (não confundir com “Martyr” nem com “Martyred” - sim, a criatividade está em falta há muito tempo no Metal...), uma banda recente, o que fica aparente pela pouca idade de seus membros. O som deles tenta reviver o Thrash Metal clássico, só que o mais puxado para as bandas mais técnicas como Testament e Megadeth. Ou seja, nada de novo, mas pelo menos foge do lixo atual. Como os estilos mais “barulhentos” de Metal tendem a soar embolados ao vivo ao menos que as bandas sejam muito boas e eles ainda estão começando, não me surpreendi que as músicas são muito mais legais quando escutadas gravadas em estúdio. Mas a prática leva à perfeição... Cheque o som deles no myspace.

No que diz respeito à performance, parecia que eles estavam na garagem de casa ensaiando, entretanto se por um lado o show não foi aquela coisa profissional, por outro não foi ruim, porque eles conseguiram levar este espírito de naturalidade ao palco e quando sentimos que a banda está se divertindo acabamos nos divertindo também. Músicas como “Blue & Black”, “Harvest” e “Pressure”, do CD “Maniac” deixaram a pequena galera que estava agrupada na frente feliz e isto é o que importa. Kevin, o vocalista de origem indiana, tem uma voz que não agradará a todos (como eu), mas compensa sendo um sujeito muito carismático e fala com o público como se fossem velhos amigos. Antes da música “Casualties” ele disse: "Esta eu dedico às mulheres aqui presentes. Sim, vocês quatro!". Depois, mudou: "Ok, para todos os caras gordos e suados também". Aí corrigiu: "Não, agora ficou mal, pras garotas também". Uma figura.

Parece que estão sendo notados, uma vez que já abriram para Sonata Arctica, The Misfits, Testament, Overkill e Yngwie Malmsteen!
ARCTIC FLAME
A segunda banda, Arctic Flame, foi exatamente o oposto da primeira. Os caras entraram com pinta de profissionais, tinham até um "monstrinho de fundo" à la Eddie do Iron Maiden no início de carreira, que soltava fumaça e tudo (o tal monstrinho é o mascote e também habita as capas e artes da banda). Só que na tentativa de serem muito profissionais, acabaram sendo amadores.

Em primeiro lugar, cada um tem um visual totalmente diferente, parecendo serem pessoas de bandas diferentes. Os únicos que combinavam com o som e entre si (tirando o baterista, Mike Paradine, que estava escondido atrás da bateria) eram o vocalista Dave Lowe e o guitarrista John Blicharz (Annunaki, Bloodfeast) emprestado porque o original, Rod Mariani, está ausente por problemas familiares. O outro guitarrista, Sebastian Garcia, tinha uma aparência tão poser que parecia que estava gravando o comercial do perfume francês Chanel #5. E o baixista, Jon Norberg, era tão jovenzinho que de tão cheio de energia descia do palco o tempo todo pra tocar no “gargarejo” e dava cervejas pro público o tempo todo (muito provavelmente porque não tinha idade suficiente para bebê-las! rs). Esta disparidade visual, somada ao fato de serem duros no palco e saírem do tempo algumas vezes fizeram com que um som e uma musicalidade superiores (comparados aos da primeira banda) não fossem tão aproveitados.

O som deles é "Metal Melódico" (um bom "aquecimento" para o Primal Fear) puxando forte nas influências da NWOBHM (só que deixando bastante a desejar, na minha opinião, o que não é muito difícil) e dividiram bem o set entre músicas do primeiro CD (“Primeval Aggressor”) como “Kingdom of Illusion”, “Steel Angels”, “Battle of Heaven and Hell” e do segundo e mais recente (“Declaration”) como “Desert Moon”, “Hammer Down”, a música-título “Declaration” (esta muito Iron Maiden!). Cheque o som deles aqui.

Para o tipo de música que tocam a banda deve ter um bom vocalista e Lowe se sai bem nos graves, mas mais ou menos nos agudos; sua performance geral é às vezes boa, às vezes ruinzinha, mas sendo sincero creio que ele está no caminho de ser um bom vocalista ao vivo, se se dedicar a isto com afinco.
PRIMAL FEAR

Quando entrou o Primal Fear esqueci de imediato tudo o que havia ouvido antes. Claro, a banda principal tem direito a uma melhor qualidade de som, mas a qualidade das músicas, dos músicos, da técnica, das performances estava anos-luz de distância do que havia passado antes naquele mesmo palco. O Primal Fear detonou os pobres coitados e mostrou porque é uma das melhores bandas do Metal mundial.

A intro é tocada no P.A.s enquanto a banda entra no palco. Por ela sabemos que a primeira musica do show é “Under The Radar”, do excelente último CD “16.6 (Before The Devil Knows You’re Dead)”. Ralf Scheepers é o último a entrar – e seu som também, uma vez que os vocais estão muito baixos e ele não consegue escutar o retorno (isto fica óbvio quando depois de um tempo ele os arranca das orelhas e joga para o backstage). Tudo é arrumado a tempo e uma gloriosa noite de Heavy Metal se inicia.

“Battalions of Fate” e “Killbound” abrem espaço para a velocidade da clássica “Nuclear Fire”. Neste ponto o público já está delirando e canta furiosamente o refrão de “Six Times Dead (16.6)”. “Angel In Black” entra rasgando e precede um interessante duelo de guitarras entre Henny Wolter e Magnus Karlsson que termina com os dois detonando em uníssono.

A banda volta completa ao palco e “Sign of Fear” mostra o lado mais “Rob Halfordiano” de Ralf. Logo ele é acompanhado por Pamela Moore (sim, a mesma que canta como “Sister Mary” em “Operation Mindcrime” 1 e 2 do Queensrÿche) para cantarem juntos a balada “Fighting The Darkness”, considerada a musica mais comercial da banda, mas não menos bela por isso.

De qualquer forma, "Riding the Eagle" entra com tudo e não deixa pedra sobre pedra. Após a breve introdução “fantasmagórica”, “Final Embrace” continua o massacre que é completado por um dos maiores hinos contemporâneos do Heavy Metal: "Metal is Forever", dedicada pela banda a todos os fãs de Metal.

O biz foi interessante, uma vez que a banda nem deixou o palco – eles se despediram e como viram o pessoal pedindo mais simplesmente voltaram a tocar. Pegaram cadeiras e tocaram a semi-acústica "Hands of Time", com os membros da banda se revezando nos vocais. É interessante que a voz de Scheepers é tão poderosa que os outros soam "ruins" (na verdade, não deixando a desejar em relação aos vocalistas das bandas de abertura! rs). A introdução com teclado trouxe “Seven Seals”, uma vez que já estávamos em “território mais calmo”. Só a coisa não ficou assim não: a noite foi fechada com “Chainbreaker”, a primeiríssima música que a banda compôs lá atrás em 1997, e não surpreendentemente bem no estilo do Judas Priest.

As únicas coisas lamentáveis deste show foi o set list curto (tocaram menos músicas que no Brasil), devido ao pouco público. Claro, o local não estava vazio, mas estava com metade da sua capacidade; só que para um local daquele tamanho (não muito grande) o Primal Fear merecia casa lotada. Tudo bem, perdeu quem não foi!
P.S.: Se você ainda não leu, cheque minha entrevista com Ralf Scheepers aqui.
[Fotos: Simone Mihich Bueno]

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