E aqui fechamos a cobertura do Premiere Brazil 2009 no MOMA em Nova York com a terceira e última parte - os documentários e shows de música.
O documentário que mais me deixava curioso em assistir era "Contratempo". Co-escrito e co-dirigido por Malu Mader (a outra metade da laranja é Mini Kerti, assistente de direção em "Traição" e "A Ostra e O Vento"), me via pensando que tipo de assunto interessaria à atriz - e como ela se sairia como diretora de documentário.
Se saiu bem. O filme acompanha um grupo de jovens que, apesar de sua origem muito pobre, explora sua inclinação musical estudando no Villa-Lobinhos (instituto que promove educação musical para jovens instrumentistas de famílias de comunidades carentes no Rio de Janeiro).

Malu Mader foi em pessoa apresentar seu filme de estréia na direção
O título é perfeito; em seu uso coloquial contratempo significa um incidente que muda a direção de um evento; em seu uso musical, contratempo é um deslocamento no acento de um compasso, que acontece no tempo fraco ao invés de no tempo forte.
Malu foi muito simples e deu atenção a todo mundo que vinha falar com ela
Ou seja, contratempo significa mudança inesperada e é isto que estes jovens vivenciam ao longo do filme - às vezes para melhor, outras vezes para pior. De qualquer forma, ficamos orgulhosos de ver nossas crianças fazendo bonito tanto no Brasil quanto no exterior (acompanhamos parte dos meninos se apresentando aqui em NY) e somos lembrados que talento pode ser encontrado em toda parte. É só darmos a chance dele florescer. Malu Mader e o instituto Villa-Lobinhos fizeram a sua parte.
"Palavra (En)Cantada" de Helena Solberg foi o filme mais intelectual do grupo. Isto não quer dizer que tenha seja um filme "difícil" ou "acadêmico", nada disto, uso o adjetivo para descrever um trabalho inteligente e interessante.
O filme explora a positiva relação simbiótica entre a música e a literatura, traçando em tempos históricos de nossa música popular como as letras eram "pobres" e como enriqueceram quando passamos a ter letristas e compositores que também eram "leitores e escritores". Também vemos que esta influência acabou virando recíproca.
Arnaldo Antunes, Adriana Calcanhoto, Maria Bethânia, Tom Zé e tantos outros depõem suas opiniões e experiências a respeito do assunto, mas se o documentário tem um personagem principal este seria Chico Buarque de Hollanda; também pudera, uma vez que o homem é compositor, poeta e escritor - todos da primeira categoria.
Destaque para Lenine brincando - primeiro verbalmente e depois musicalmente - com as particularidades de certos vocábulos da língua portuguesa. Demais!

Helena Solberg foi a diretora de outro ótimo documentário de música brasileira - "Carmen Miranda: Bananas Is My Business"
O terceiro (e último) documentário a possuir a música brasileira como tema principal, "Beyond Ipanema: Ondas Brasileiras Na Música Global" foi o filme que mais mexeu com o público do Premiere Brazil.
O diretor Guto Barra e o produtor Béco Dranoff foram a fundo na pesquisa da história, participação e influência da música brasileira no mundo. O lance é tão detalhado que começa com Carmen Miranda em Hollywood e termina "aqui pertinho", com CSS (Cansei de Ser Sexy) e Garotas Suecas, duas bandas brasileiras ganhando espaço cada vez maior no exterior. Claro, temos depoimentos dos "nossos" (como Gil, Caetano, Bebel Gilberto, etc.), mas mais impressionantes ainda são os depoimentos dos "gringos" (David Byrne, Davendra Banhart, entre outros); um produtor americano chega às lágrimas dizendo que nunca mais haverá outro compositor como Tom Jobim.
Os muito aplaudidos Guto Barra e Béco Dranoff
A jornada a que somos levados é extremamente prazeirosa, especialmente porque além da diversão inerente ao tema somos injetados de uma quantidade quase "overdósica" de orgulho patriótico.
No final da apresentação, uma surpresa: a banda americana de samba Harlem Samba, formada por garotos americanos da escola Frederick Douglass Academy liderados pelo professor de música Dana Monteiro (também não brasileiro), um verdadeiro fanático por samba (ele não apenas colocou samba como parte do programa musical da escola como também promove excursões ao Brasil com os estudantes) e que também aparecem no filme. E eles fizeram bonito...

Dana Monteiro rege o Harlem Samba
"Cinderelas, Lobos e Um Príncipe Encantado" é um documentário dualista - por um lado trata de situações seríssimas; por outro, foi o que arrancou mais risadas do público. O diretor Joel Zito Araújo habilmente "andou no fio da navalha" ao nos contar a história de tantas mulheres (e até algumas que não são mulheres "fisicamente") brasileiras que sonham em se casar com um "gringo rico" e ir morar no exterior.
E ao fazer isso, o documentário é novamente bem-sucedido em não escolher ponto-de-vista. Somos expostos a todo tipo de situação: mulheres que sonham em conseguir realizar seu sonho; mulheres que foram ludibriadas e acabaram virando escravas sexuais; mulheres que conseguiram o que queriam, mas não se adaptaram ao choque da diferença cultural; e mulheres que não apenas conseguiram o que queriam mas parecem ter conseguido viver um verdadeiro conto-de-fadas.
Com a palavra, o diretor Joel Zito Araújo
É justamente nos dois últimos casos que se encontram os casos cômicos (as duas mulheres entrevistadas com seus maridos alemães são de fazer pessimismo rir), mas os casos sérios são igualmente assustadores: o racismo (mulheres negras que preferem brancos e estrangeiros), drogas (que levam garotas de 12 anos de idade a se prostituir), tortura (a que são submetidas as mulheres que são enganadas e acabam levando cafetão ao invés de marido), prostituição (um grande número de mulheres que por sinal revelam que muitos gringos preferem ser "eles mesmos as mulheres"...). Um ótimo tema, e muito bem explorado.
Apesar do título complicado, "Morrinho — Deus Sabe De Tudo Mas Não É X9" é um filme simples e direto: 8 meninos da comunidade Vila Pereira da Silva (o "Pereirão", no bairro de Laranjeiras, zona sul do Rio de Janeiro) decidem um dia fazer uma maquete da própria favela para brincar nela.
O projeto é tão ousado em detalhe e criatividade que eles acabam construindo sem querer uma verdadeira mini-obra arquitetônica. Claro, uma coisa dessas está destinada a chamar a atenção e desta forma o documentário acompanha o trajeto dos meninos - e o talento deles das páginas da revista National Geographic ao Fórum Munidal das Culturas em Barcelona organizado pela ONU, do programa do Faustão à Bienal de Veneza e assim por diante.
O mais interessante é que eles, claro, não levavam a obra a estes lugares, mas utilizavam os materiais locais que lhes eram dados e construíam tudo novamente - vê-los vencendo novos desafios e obstáculos (de tijolos mais duros e difíceis de quebrar a prazos cada vez mais apertados) é simplesmente fascinante.
E o filme mostra muito mais que isto, como a criação da ONG do Morrinho, a TV Morrinho, o show no canal Nickelodeon. Só que como muita coisa no Brasil, o Morrinho virou coqueluche e depois foi esquecido (no final do filme é reportado que a ONG viu seu fim por falta de verbas este ano), mas não pelo menino que teve a idéia, Nelcirlan Souza de Oliveira, até hoje incorporando novas gerações de meninos ao projeto.
Como "Contratempo", o filme da Malu Mader, "Morrinho — Deus Sabe De Tudo Mas Não É X9" mostra que há opção pras crianças das favelas; parte está na índole delas, a outra parte no apoio que elas receberão do governo, de cineastas como Fábio Gavião e Markão de Oliveira, de nós.
Acesse o site deles, conheça mais e veja como participar.
MOMA MUSIC
Este ano houveram três atrações especiais entre as sessões de cinema; na verdade, apenas ocorreram em três dias (talvez estejam testando para fazer todos os dias ano que vem pra frente?). Falo de shows de música que ocorriam no Jardim de Esculturas do MOMA.

Adriana Calcanhotto tocou tudo o que o pessoal queria ouvir
As atrações deste ano foram bem variadas. Na parte mais "intelectual" tivemos Romero Lubambo, o virtuoso violonista brasileiro, que mostrou sua técnica e habilidade tocando música brasileira instrumental fundida com o jazz americano; já o Zé Luiz Quartet, liderado pelo flautista e saxofonista Zé Luiz deu uma verdadeira lição de "jazz brazuca" com quatro instrumentistas. No estilo "popular" houve Davi Vieira com seu estilo próprio de música, batizado de Hip Hop Axé, uma vez que mistura uma base de ritmos brasileiros com a melodia vocal de Hip Hop. Davi também faz parte do grupo Forró In The Dark que se apresentou em um dia diferente e fez todo mundo dançar.
Também tivemos a Adriana Calcanhotto, a atração mais esperada e que lotou o jardim de tal maneira que as pessoas estavam literalmente passando uma por cima da outra! Tocando seus maiores hits, Adriana curiosamente falou 99% do tempo em português (acho que com tantos brasileiros no show ela se esqueceu que estava em NY!), mas com exceção de um problema no violão que atrasou um pouco as coisas o show agradou a todo mundo.

O Jardim de Esculturas ficou lotadaço dunante o MOMA Music
Esta foi uma ótima idéia e iniciativa do MOMA e esperemos que se expanda para os próximos Premiere Brazil. É muito importante mostrarmos as diversas facetas e a riqueza de nossa cultura em outros países.
[Fotos: Simone Mihich Bueno, divulgação]

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