Continuando a cobertura iniciada semana passada, neste post veremos os filmes narrativos e os curta-metragens que fizeram parte do "elenco cinematográfico" do Premiere Brazil 2009.
Os filmes narrativos
A melhor e a pior coisa que o diretor Matheus Souza disse antes de "Apenas o Fim" começar foi que é fanático por Woody Allen.
Melhor porque já preparou o público para o que vinha: um filme sobre um casal colocando suas neuroses para fora enquanto discutem o relacionamento que estão terminando; pior porque ao assistir o filme você fica pensando: "Olha, isso é bem Woody Allen, aquilo é super Woody Allen...". Mas tudo bem.
O filme é super legal e mesmo podendo ser um pouco longo para pessoas mais maduras (que se perdem nas discussões de videogames e afins e talvez venham a achar que as elocubrações do jovem casal sobre o que sentem pudessem ser mais enxutas), há coisas de sobra para que estas pessoas saiam do cinema satisfeitas; e por outro lado, o filme é perfeito para os jovens da mesma faixa etária dos protagonistas.
A atriz Erika Mader e a co-produtora Julia Ramil dividem o palco com Matheus Souza
Fica óbvio que o diretor-escritor colocou no papel - e na tela - suas próprias dúvidas, medos, anseios e experiências (assim como Woody Allen), o que lhe serve muito bem, uma vez que isto empresta autenticidade ao filme e isto é o que o faz funcionar tão bem.
Sem brincadeira, ao assistir "Apenas o Fim" me lembrei do filme de Domingos de Oliveira, "Juventude", que eu havia assistido ano passado no VI Cinefest Petrobras Brasil, e não é que este filme também fez parte do festival? No mesmo, três amigos se reencontram para celebrar 50 anos de amizade e conversam sobre presente, passado e futuro (tal qual o casal de "Apenas o Fim", só que "ajustado" para a faixa etária à qual pertencem). A economia de locações (o filme se passa inteiro em uma fazenda) é inversamente proporcional à de emoções - aqui você se emociona, se surpeende e chora de rir, não importa a sua idade.
Bruno Barreto estava presente para apresentar "Última Parada 174", que na minha opinião foi o melhor filme do festival. E olha que eu não estava esperando por isso (não que eu achasse que o filme não fosse ser bom, mas eu não esperava que fosse ser tão bom)!
Barreto conta a história paralela de dois garotos pobres do Rio de Janeiro, um de índole boa, outro de índole ruim, ambos envolvidos no mundo do crime por circunstâncias sociais precárias. O de boa índole, Sandro, é baseado no personagem real que protagonizou o infeliz incidente brilhantemente retratado no documentário "Ônibus 174" (se você ainda não viu, corra para a locadora e alugue!). O outro, Alessandro, é baseado em diversos moleques-de-rua que cruzaram o caminho de Sandro e, tendo perdido a esperança, com ela também perderam o valor pela vida humana.
Bruno Barreto não deixou de comparecer ao evento
Os caminhos destes rapazes inevitavelmente se cruza e o resultado é um filme contundente. O roteirista deste filme é Bráulio Mantovani, que também escreveu "Tropa de Elite" (e "Cidade de Deus", pelo qual foi indicado ao Oscar), por sua vez dirigido por José Padilha, o diretor do documentário que deu origem a esta longa. Esta "irmandade cinematográfica" é amarrada através de uma "ponta": no filme, André Ramiro reprisa seu papel de "Tropa de Elite" como André Matias, aqui cumprindo o papel de negociador da polícia.
Ganhador do Júri do Festival Internacional do Rio 2008, "Se Nada Mais Der Certo" me surpreendeu, mas não no bom sentido - o filme demora muito tempo para decolar, e quando finalmente o faz, o resultado não faz juz à espera (especialmente o filme tendo sido o vencedor de um festival).
Utiizando muita "handheld" (a câmera na mão, imagem chacoalhando) e uma edição que faz jus ao estilo, fica claro que esta decisão estlística foi feita pelo diretor José Eduardo Belmonte para reforçar a vida decadente dos personagens; até aí tudo bem, mas quando a história também é contada de maneira desconexa, aí o público fica confuso - e tende a exigir compensação por tanto tempo se perguntando: "Bom, onde isso vai dar?".

Cauã Reymond e Luíza Mariani estiveram presentes para apresentar "Se Nada Mais Der Certo"
Infelizmente, no final das contas o público não é compensado e a mensagem do filme não é das mais positivas (não vou discuti-la aqui para não estragar para quem quiser ver por si mesmo/a).
"Feliz Natal" é um outro filme que usa muita câmera "handheld", mas neste caso funciona. A estréia de Selton Mello na direção (que era para estar presente, mas acabou surpreendendo ao não aparecer na última hora), este é um filme do famoso gênero "família problemática que abre a caixa de Pandora em data festiva", adorado pelos festivais independentes na década de 90.
No gênero, sempre há uma família reunida celebrando uma data comemorativa (neste caso, o Natal), dois personagens que se dão mal abertamente (aqui, o pai e a mãe, já separados) e um personagem pródigo, que volta ao seio familiar e traz com ele memórias e sentimentos amargos (neste caso, Caio, interpretado por Leonardo Medeiros). E ao longo da reunião familiar/filme, segredos são revelados, tanto ao espectador quanto aos demais personagens.
Parece que a ausência de Selton Mello foi tão inesperada que Ilda e Jytte, que sempre introduzem todos os filmes nem chegaram a apresentar "Feliz Natal"
Mas Mello consegue fugir do esquema "tirando a câmera da festa" - na verdade, Caio, mostrando o que ele vai fazer quando sai da mesma; ele também utiliza esta parte do filme para revelar coisas (nem toda a exposição se dá durante a festa) e ainda nos joga um final surpreendente. O filme é bom, mas o tempo todo você sente a preocupação (entendível) do diretor, como que dizendo: "Olha, sou ator cômico, mas como diretor sou sério, hein?", uma vez que os movimentos de câmera, a composição das tomadas, o clima do filme são cuidadosamente mais direcionados para o cinema de arte que para o de entretenimento.
"O Descobrimento do Brasil", de Humberto Mauro ("A Voz do Carnaval", "Ganga Bruta"), foi exibido por seu valor histórico, tendo representado o Brasil no Festival de Veneza de 1938. O próprio Mauro é um ícone brasileiro, tendo filmado no legendário estúdio Cinédia e no INCE (Instituto Nacional do Cinema Educativo), e por sinal já era cineasta bem-sucedido antes mesmo disto. Com a estupenda trilha sonora de Heitor Vila-Lobos, "O Descobrimento do Brasil" pode ser um pouco difícil para as audiências atuais, acostumadas com a tecnologia de filmagem e o pique de edição modernos, mas mesmo assim é um espetáculo interessante de se ver.
| |
A pintura de Victor Meirelles - e a cena de Humberto Mauro
Se valendo da carta de Pero Vaz de Caminha como guião, Mauro "inova" se valendo de todas as ferramentas da época: diálogos, "cartões" e legendas informativas e até mesmo animações, e consegue extrair cenas épicas, tanto no mar quanto na terra. O filme segue a frota de Pedro Álvares Cabral desde a saída do Tejo até a chegada em Vera Cruz, passando detalhadamente por cada ancouradouro, e termina com a realização da primeira missa ministrada pelo Frei Henrique de Coimbra, esta última seqüência tentando reproduzir com a maior fidelidade possível o famoso quadro de Victor Meirelles.
Os curta-metragens
Precedendo "Antes do Fim", "Café Com Leite", de Daniel Ribeiro, literalmente abriu a mostra e é um filme narrativo que conta a história de um casal homossexual às voltas com um "presente inesperado": o irmão mais novo de um deles que adentra a vida do irmão de maneira abrupta. Lidando com emoções, perdas, culpas e medos, os personagens constróem um drama eficiente que, se no início parecia ser um filme "de nicho", acaba se revelando ao longo do trajeto uma história com a qual todos podem se identificar.

Daniel Ribeiro foi apresentar seu curta "Café Com Leite", que deu o pontapé inicial ao evento, sendo o primeiro filme exibido
"69 - Praça da Luz" é um documentário pra lá de revelador que "bate um papo" franco e honesto com 5 prostitutas pra lá de "maduras" que há décadas fazem ponto no endereço do título em São Paulo. O filme é dirigido por duas mulheres, Carolina Markowicz e Joana Galvão, e talvez por isso tenha conseguido extrair tanta sinceridade das entrevistadas que por ora comovem mas na maior parte do tempo divertem (e como!) com suas histórias e experiências. Pelo assunto sério e idade das protagonsitas, este curta precedeu o longa "Juventude".
Ambos os filmes acima podem ser assistidos no site Porta Curtas da Petrobras. É só buscar pelo nome.
Dirigido por André Rangel e Marcos Negrão, "Urubus Têm Asas" pode ser curto de tamanho mas é gigante (no melhor sentido possível) em seu alcance e mensagem. De um lado, vemos os irmãos caranguejeiros Cosme e Sirley C. Raimundo; de outro, o líder comunitário Célio de Oliveira. O que eles possuem em comum? O mangue da Baía de Guanabara, onde os primeiros trabalham e o segundo mora e trabalha.
Criador do Projeto Mangue, Célio educa um grupo de crianças carentes que se não fosse por ele muito provavelmente estariam "mau-encaminhadas" na vida. Ensinando a elas atividades artísticas e lhes dando uma profunda consciência ecológica, Célio é um "paizão" que deveria existir em todo o Brasil. Já os irmãos pescadores também possuem esta consciência, porém adquirida a duras penas, ao observarem a vida do mangue (e nesta temos os caranguejos que eles pescam para sobreviver) se extingüir paulatinamente devido aos detritos que a sociedade e seus infnitos membros ignóbeis jogam no mar. Eles mesmos reciclam o que podem (dobrando o volume de trabalho - coleta de lixo e pescaria), mas são poucos em número para limpar o que é sujado todos os dias em profusão.
Não é por coincidência que este documentário foi exibido antes de "O Descobrimento do Brasil". Podemos ver a pureza do passado, o caos do presente e a incerteza do futuro - por isso mesmo este filme deveria ser exibido periodicamente em todas as escolas do Brasil. Você pode encontrar o filme na internet (na Film Factory do ator Rutger Hauer), mas se tem uma escola, entre em contato com a produtora para adquirir o filme para o seu acervo; eles também promovem o Cinema Educativo nas Escolas, um programa cultural que vale a pena, uma vez que conta com a presença dos protagonistas do filme (após a exibição do curta, os Irmãos Raimundo dão palestras e Célio ensina as crianças no workshop).
No próximo post, os documentários e o MOMA Music.
[Fotos: Simone Mihich Bueno, divulgação]

RSS
3-9-2009
27-8-2009
22-8-2009
14-8-2009
10-8-2009