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Premiere Brazil no MOMA 2009 - Parte 1 (Eduardo Coutinho)

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Mais uma vez tivemos aqui no Museu de Arte Moderna de Nova York, o MOMA, o Premiere Brazil, realizado em parceria com o Festival do Rio.

 

Mas este ano teve algo muito diferente: o número de documentários foi bem superior ao de filmes narrativos, isto devido à homenagem feita ao documentarista Eduardo Coutinho.

Sem contar os filmes dele, houve 6 filmes narrativos e 6 documentários, ou seja, foi "teoricamente" equilibrado, mas se somarmos os 8 filmes de Coutinho exibidos, tivemos 14 documentários no Premiere Brazil deste ano.

Como faço sempre, dividirei a matéria em partes, e como já venho falando do Eduardo Coutinho aqui recentemente, este post tratará dos filmes dele exibidos no Premiere Brazil 2009.


Eduardo Coutinho, Ilda Santiago (Diretora do Festival do Rio) e Jytte Jensen (Curadora de Cinema do MOMA)

"Cabra Marcado Para Morrer" já é um clássico do cinema brasileiro. Na verdade, começou como um filme narrativo baseado na história real de João Pedro Teixeira, que foi assassinado por lutar por melhores condições para os camponeses nordestinos. Coutinho utilizou os próprios camponeses da região como atores, inclusive a viúva de Teixeira, Elizabete, e seus filhos interpretavam a si mesmos.

Mas aí vieram os problemas - a equipe foi expulsa da região pelos mesmos poderes políticos que se livraram do herói morto. Quando assentaram em outro local, veio a ditadura e o filme foi cassado. Anos depois, na época da abertura de Figueiredo, Coutinho visitou a comunidade para mostrar aos camponeses o que havia sido filmado. Só que a família de Teixeira havia desaparecido. Coutinho então sai à "caça" deles, espalhados por diferentes regiões do Brasil.

Desta forma, "Cabra Marcado Para Morrer" é um documentário triplo: começa contando a história de João Pedro Teixeira, como um documentário histórico. Depois passa a retratar os problemas que o filme teve e a visita à comunidade, como um " extra de bastidores". Finalmente, o filme se desdobra em um documentário investigativo com Coutinho indo atrás da família do herói camponês que havia se dispersado.

Este filme não apenas foi o primeiro sucesso de Coutinho no campo do documentário, mas também definiu sua personalidade cinematográfica - a falta de um perfil determinado, uma vez que seus documentários seguem a direção do destino mais que a direção de um roteiro.

Um bom exemplo disto é "O Fim e O Princípio". Filmado em São João do Rio do Peixe, no sertão da Paraíba, o filme foi realizado sem qualquer pesquisa prévia, tema ou locação específica. Viajando pelo sertão, Coutinho (e equipe) encontrou uma comunidade rural que julgou interessante e que concordou com as filmagens. Com a ajuda de uma mediadora local, Rosilene Batista (a "Rosa") da Pastoral da Criança, Coutinho entrevistou diferentes moradores da comunidade revelando como vivem e o que pensam da vida.

Com um espírito parecido, muito embora planejados, temos "Babilônia 2000" e "Edifício Master". No primeiro, Coutinho & Cia. visitam o Morro da Babilônia no Rio de Janeiro no último dia de 1999, conversam com os moradores das duas favelas de lá, a Babilônia e a Chapéu Mangueira, sobre a vida e o futuro e os acompanha na virada do milênio. O filme nos dá uma visão bem objetiva dos moradores de favela, muito diferente da que muitas pessoas possuem. Citando um morador: "Se eu tivesse uma casona na praia eu alugava e continuava morando aqui". Bem interessante.

O segundo visita o prédio em Copacabana mencionado no título que já passou por várias fases: lugar bom para morar, lugar ruim para morar e hoje em dia um lugar "mais ou menos". Ouvimos de seus moradores não apenas suas opiniões sobre o prédio e o bairro carioca (que uns amam e outros odeiam) mas também histórias interessantíssimas que nos mostram o quão amplo universo um simples edifício pode ser.

Pouco antes de Lula ser eleito presidente do Brail (2002), Coutinho foi atrás de algumas pessoas que o conheceram na época da ditadura e participaram das lutas sindicais do ABC paulista ao seu lado nos anos de ditadura. Só que as figuras que interessam Coutinho são justamente as que nunca chegaram à fama política e não fazem parte do elenco político brasileiro. São estas personagens anônimas, mas não menos importantes, que conhecemos em "Peões".

Com o auxílio dos documentários "Linha de Montagem" (de Renato Tapajós), "ABC da Greve" (de Leon Hirszman) e "Greve" (de João Batista de Andrade), onde acompanhamos estas pessoas na época, Coutinho localiza, conversa e nos mostra o que aconteceu com estas figuras (muitas das quais perderam o emprego como resultado de seu envolvimento no movimento sindical) e o que fazem hoje. Mesmo possuindo destinos diferentes, todos parecem ter duas coisas em comum além do passado: continuaram engajados da forma como podem e fé incondicional no companheiro que se tornou presidente do Brasil (pelo menos até o momento do filme).

Em "Santo Forte", Coutinho nos mostra o quão interessante é o mundo religioso brasileiro. Aproveitando a última visita do Papa João Paulo II ao Brasil, ele entrevista várias pessoas no Rio de Janeiro que se dizem católicas. Mas indo mais a fundo, vemos que todas elas também praticam a religião do candomblé. Nos mostrando que em momento algum estas pessoas mentiram - elas realmente se consideram católicas - "Santo Forte" mergulha de cabeça no sincretismo religioso brasileiro.

Os dois filmes restantes já possuem um foco mais artístico e teatral.

Em "Moscou", Coutinho lança um desafio para o ator e diretor Enrique Diaz: montar a peça de Anton Chekov "As Três Irmãs" com o grupo Galpão em apenas 3 semanas (na verdade, ele deve tomar a peça como ponto de partida e realizar o máximo que puder, mesmo que sejam apenas fragmentos, dentro do prazo estabelecido).

Para quem não sabe, a história fala da família Prozorov: três irmãs (Olga, Masha e Irina) e um irmão (Andrey) que moram numa cidadezinha russa do interior e sonham em voltar para Moscou, onde passaram a infância quando os pais eram vivos. Desta forma, acompanhamos os atores realizando exercícios, decorando o texto, ensaiando e "encontrando" as cenas.

O interessante é que, enquanto fazem isso, estas partes se misturam (por exemplo, a parte com o Coronel militar e Masha engana direitinho - achamos que são os atores conversando de verdade, mas eles estão na verdade decorando o texto). Também vemos mais de um ator interpretando o mesmo personagem, só que ao mesmo tempo! Além disso, são acresentados elementos modernos (como fotos, raios x, menções a personagens mais recentes, etc.) à época em que se passa a história.

Me lembrei de "As Cinco Obstruções", onde Lars Von Trier desafia seu mentor Jorgen Leth a recriar seu primeiro filme, o curta "O Humano Perfeito", em condições cada vez mais difíceis. Também me lembrei de "Ricardo III", onde Al Pacino costura em um filme a peça que estava dirigindo com os ensaios da mesma. Mas, claro, "Moscou" consegue ter sua identidade própria.

Na minha opinião, este filme é mais voltado para quem gosta do teatro e do processo teatral.

Já "Jogo de Cena", apesar de também suportar a mesma definição, pode ser bem interessante também às pessoas "comuns". Coutinho colocou um anúnico no jornal chamando pessoas que teriam uma história real de suas vidas que fosse extremamente interessante para contar na frente de uma câmera. As pessoas foram filmadas e as selecionadas tiveram atores profissionais (como Marília Pêra, Andréa Beltrão, Fernanda Torres, entre outras) re-interpretando seus depoimentos depois, ou seja, vemos as histórias contadas por seus reais protagonistas e também por profissionais de interpretação.

Os resultados são inesperados; tem até caso de ator que chora na história (de tão comovente) enquanto que a pessoa que a vivenciou não o faz (uma vez que já se acostumou com a mesma com o passar dos anos)!



Coutinho foi homenageado por se firmar cada vez mais como um dos maiores documentaristas brasileiros hoje. Isto fica claro no conjunto de sua obra e qualidade e diversidade da mesma.

O único senão é que, por ficarmos apegados aos filmes e seus personagens, uma certa "frustração" é gerada: queremos ver a família de João Pedro Teixeira se reunindo; queremos acompanhar o encontro que Coutinho teve com o povoado de São João do Rio do Peixe um ano depois; queremos saber se o novo milênio está sendo bom ou mal pro pessoal do morro Babilônia; queremos apurar o que os trabalhadores de "Peões" estão achando de Lula no governo... Talvez por isso Coutinho diga que documentário é "um troço imperfeito e incompleto". Desta forma, não podemos pedir mais...

Semana que vem tem mais Premiere Brazil 2009.

 
[Fotos: Simone Mihich Bueno, divulgação]

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