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O 100º Trabalho representa o Brasil em mais festivais e é semi-finalista (Capítulo 10)

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Eu sei que tinha dito em meu último post sobre o filme que cobriria o ThrillSpy Festival em Washington, mas (felizmente!) outros pintaram no meio...


Pois é, ser selecionado para um festival internacional com seu primeiro filme já é uma façanha, todos me dizem. Por esta mesma razão, nem espero vencer um festival com meu filme, apenas ser aceito pra mim já é muita honra. Só que conseguimos chegar a semi-finalistas no Action/Cut Short Film Competition, um festival que para mim é muito importante porque é realizado por membros da indústria cinematográfica de Los Angeles (ainda mais estando entre os 10 maiores festivais de curtas do mundo). Ou seja, ao invés de ser julgado por críticos, cinéfilos ou entusiastas, neste caso são pessoas que "fazem Hollywood mexer" que vêem e julgam o seu filme.Daí a grande honra de ter chegado tão longe. E a coisa não tem "frescura" - não há festa, nem cerimônia, nem exibição dos filmes em cinema; os sujeitos são tão ocupados que o seu filme é julgado e eles ficam te avisando por e-mail e no website.

O vencedor foi o alemão "Real Time - It's Just a Game", um filme que mistura espionagem com ficção-científica. Outros ganhadores foram o americano "Everything Is Ordinary" (também de ficção) e o australiano "Reach" (animação). Para assistir outros ganhadores (documentário, estudante e videoclipe), acesse o website do festival.

 
O vencedor "Real Time - It's Just a Game" 

No final, houve uma vantagem não haver ganhado, uma vez que os vencedores, como mostrei acima, são exibidos no website da competição e isto para mim não é interessante (uma vez que para quem está na internet obter distribuição é muito difícil, adicionando à dificuldade extrema de se conseguir distribuição, o que é ainda mais "impossível" para curtas-metragens).

Realmente não sei se haviam outros filmes brasileiros no festival, mas sei que entre os semi-finalistas "O 100º Trabalho" era o único, então fica aqui registrada a minha satisfação por estar lá "levantando a bandeira".

 



Eu pensei muito antes de escrever este post por causa deste festival em particular. Por um lado me perguntava se é anti-ético meter o pau num festival para o qual você foi selecionado, por outro me sentia na obrigação de reportar o que aconteceu, sendo honesto com o leitor. Desde meu primeiro post sobre meu filme contei todas as coisas boas e ruins que ocorreram durante as filmagens, então por que deveria ser diferente na jornada do filme após o mesmo "sair pelo mundo"?

Então decidi abrir o jogo (e tenho certeza de que o leitor, curioso por coisas intrigantes, está dizendo "Oba!" neste exato momento! rs).

O Central Florida Film Festival é um festival novo (está no seu 4º ano), pequeno (ocorre numa cidadezinha floridiana chamada Ocoee) e recentemente mudou de endereço (costumava ser na cidadezinha floridiana chamada Kissimmee).

P.S.1: Vou exemplificar o que quero dizer com cidadeZINHA: na entrada do cinema estava um velho gordo com boné escrito "Prefeito". Era o prefeito da cidade. E no boné havia iscas de pescaria penduradas. NADA diz mais ZINHA que isto...

Talvez esta tenha sido a razão do festival ter sido freqüentado por... NINGUÉM. Sim, os filmes de longa-metragem tinham uma audiência média de 7 a 9 pessoas (contando os cineastas dos filmes e de outros filmes que possuíam passes para ver todos os filmes!). Claro, houve um longa-metragem que teve mais gente, o documentário sobre os cavalos Vanner Ciganos ("The Gypsy Vanner Horse"), onde uma classe de escola foi assistir como "atividade cultural". Mas isso conta?

Vi, portanto, vantagem em ter um curta-metragem no festival, uma vez que estes tinham mais ou menos 20 pessoas na audiência. Claro, os curtas eram muitos e o público era formado quase que exclusivamente pelos cineastas destes curtas (!), mas mesmo assim olhando pelo lado positivo (e quase poliânico) pelo menos tivemos a chance de mostrar nosso filme para várias pessoas, mesmo a esmagadora maioria destas sendo outros cineastas.


Produtora/esposa e diretor de "O 100º Trabalho" com produtora/esposa e diretor de "The Gypsy Vanner Horse"

As "festas" também tinham o mesmo nível de "concorrência": alguns cineastas - sempre os mesmos (um sujeito super puxa-saco que estava com dois filmes e acabou levando um prêmio de mérito questionável, um outro compositor musical sem filme no evento que estava visivelmente desesperado para vender seus serviços e outros igualmente sem noção) e alguns novos (que após a primeira vez não voltavam mais). E quando festas com comida e cerveja grátis são um fracasso, é porque tem algo aí.

E o "algo" foi o "espírito" do festival. E por "espírito" eu quero dizer o ambiente, o clima, a energia. Que era muito negativa.

Em primeiro lugar, o organizador é uma pessoa extremamente arrogante, que sempre que se dirige a você pergunta se você "Está aprendendo alguma coisa" ou para contar vantagens a respeito de si mesmo (vamos mais fundo a isto abaixo). A propósito, se ele percebe que você está puto da vida ele evita falar com você o máximo possível. Só que faz parte de ser profissional - e de ser homem - saber escutar críticas, especialmente quando se está errado.

Se o sujeito pelo menos tivesse vindo até nós (e por nós eu quero dizer todos os participantes) pedindo desculpas pela ausência total de imprensa, divulgação e público, a coisa teria sido menos horrível. Ainda assim horrível, mas menos horrível. Mas pelo menos ele teria um pouco do nosso respeito.

O fracasso total e absoluto do festival (de todos os cineastas que tinham algum talento lá e não eram locais eu escutei dizer "Nunca mais!") se deve à total incompetência da organização.


E estamos aí em mais um festival...

O antes

Em primeiro lugar, me corresponder com eles mostrou um nível de falta de organização incrível - o sujeito confundia o que era perguntado, mudava as informações de semana para semana, nunca nos passou quando o filme seria exibido (o mínimo que um festival pode fazer com seus participantes é informá-los de quando seus filmes serão exibidos), tivemos que pesquisar nós mesmos no website e cada vez que ele respondia algum email era uma longa redação constituída de desculpas e explicações defensivas. E meu caro, quando alguém está na defensiva é porque tem culpa no cartório.

Em segundo lugar, eles não sabiam que exisitam outros festivais de cinema na Flórida! Isto está no blog do sujeito, ou seja, ou ele está mentindo infantilmente (tentando dar mais importância ao eventozinho dele, o que não duvido) ou então é um total ignorante (o que também não duvido; se ele fosse a festivais talvez aprendesse a fazer um). E quanto o Florida Film Festival? O Miami Short Film Festival? O Orlando Film Festival (meu filme está neste também!)? Etc.?

Aqui então um leitor de coração bondoso pode indagar se a má qualidade do festival se deve aos fatos mencionados mais acima (mudança de local, ainda crescendo) e ao fato de que o sujeito não conhece o mercado de festivais de cinema. A resposta é não, e isto ficará mais claro abaixo.

O durante


Bom, por onde começar? Já disse que não havia público, divulgação, imprensa.

A esposa do organizador pediu para que enviássemos o material promocional para ela por correio. Enviamos o trailer (que ficou passando com os demais numa TV no lobby do hotel), 2 posters (utilizaram 1 dentro do cinema, o que foi legal) e 100 cartões postais - estes últimos não vimos em lugar nenhum. Estavam no porta-malas da mulher, devolvidos dentro da mesma embalagem do correio na qual os enviamos após o encerramento do festival!

A desculpa é que ela estava "muito ocupada", o que não me serve em nada. Pediu e combinou, tem que fazer. É muita falta de profissionalismo saber que lhe enviaram algo para um determinado fim, gastou-se dinheiro e tempo nisso e você não cumprir com o combinado, sem mencionar falta de competência - o quão difícil é tirar postais de um envelope e colocá-los sobre uma mesa?

 
Que bom que colocaram o poster!

Mais: todos os filmes foram exibidos no formato errado, esticados vertical ou horizontalmente! Sim, é isso mesmo: EXIBIDOS NO FORMATO ERRADO! Ou seja, nem exibir os filmes eles sabiam! Não vou comentar mais sobre isso porque é auto-explicativo o suficiente.

Mais: os painéis de discussão contavam apenas com uns poucos profissionais (dos que fui, eram 3 em um, 1 em outro), mais o organizador e um amigo dele. O amigo fazia de tudo para vender o próprio trabalho e o organizador ou falava bobagem ou falava bem de si mesmo (ou seja, mais bogagem). Também falaram mal do Sundance Film Festival, simplesmente  o maior festival de cinema americano e um dos maiores do mundo. A estratégia "vamos falar mal do outro porque não temos nada de bom no nosso e talvez assim não pareça tão ruim" é estúpida, para não dizer anti-ética. Um horror. Coitados dos profissionais que lá estavam dividindo a mesa... No terceiro painel que houve nem fomos (ah, este você tinha que pagar para participar! Nem de graça eu teria ido!).

Quanto ao fato do organizador ficar se auto-elogiando o tempo todo: ele se diz (várias e várias vezes) um "cineasta comercial e experiente". Da mesma forma que ele descreve o tempo todo o festival dele como "de alto nível". O sujeito fez alguns filmes de terror Z (sim, não é B nem C nem D...), horríveis da arte do poster aos créditos finais. Todos podem ser descritos assim: "tetas e sangue", é só o que possuem. Nunca na minha vida havia ouvido falar nesse cara, nem em nenhum dos filmes dele, a única pessoa que conheço que ouviu foi este amigo chamado Nelson que reúne os amigos uma vez por mês na casa dele para ver filmes ridículos e malfeitos e ficar rindo dos mesmos e tomando cerveja. Ou seja...

O sujeito se diz "diretor comercial" porque ele conseguiu vender esses filmes (?), mas ouvir esse cara se chamando de cineasta é a mesma coisa que você estar no Hilton para uma conferência de chefs franceses e aí entra o sujeito que vende cachorro-quente na esquina dizendo que é chef também, uma vez que "faz parte da indústria alimentícia". Sim, na verdade ele faz. Mas não pode ser considerado um chef porque tudo o que sabe fazer são... cachorros quentes. Da mesma forma que quem apenas sabe filmar "tetas e sangue" não é cineasta, ainda mais se o seu público é formado única e exclusivamente por "amigos do Nelson". Além do mais, quem é "comercial" entende pelo menos um pouco de marketing e este festival é a prova de que ele não sabe nem que isto existe.

A explicação do porquê ele não ser humilde reside no fato de que ele precisa falar bem de si mesmo constantemente para convencer... a si mesmo. Deve ser horrível você passar toda a sua vida sabendo que é um fracassado, então o pobre coitado possui essa necessidade. E com a mesma "qualidade" com a qual "faz filmes", também "faz festivais".

Um coitado? Sim. Mas mais coitadas são as pessoas que vieram da Holanda (sim, quatro pessoas!) esperando um "festival de verdade" e tendo... "aquilo". Caramba, tenho pena até mesmo das pessoas de Tampa, que é na Flórida mesmo, mas mesmo assim gastaram uma gasolina que vale muito mais que a experiência pela qual passaram! E ainda ouvimos do cara que viemos "só de Nova York" e não do Brasil...


Com os holandeses de "Two Hearts One Pulse"

Mais: também tenho que comentar sobre a seleção dos filmes. Alguns curtas que eu vi lá estão entre os melhores curtas que vi na minha vida ("True Beauty This Night", "Ana's Playground", este último que ganhou o prêmo de melhor curta - e mereceu!). Mas os piores curtas que vi na minha vida eu também vi neste festival! Fazendo uma pesquisa com a participação de demais pessoas, descobrimos que o número de inscrições de filmes foi tão pouco, mas tão pouco que eles selecionaram... TODOS!

P.S.2: Aqui vai uma dica - se você acha que seu filme é muito ruim, mas quer se gabar para seus amigos que seu filme foi "aceito por um festival americano", manda pro CENFLO! Mas NÃO VÁ ATÉ LÁ!

Agora, o leitor bonzinho novamente pode dizer: "Pobrezinhos, tiveram poucas inscrições", mas novamente eu também digo que a falta de humildade estraga as coisas ainda mais. No blog do sujeito e nas informações que ele dá para a (pouca) imprensa (local, que se importa com o festival dele) os números são bem diferentes - tanto de filmes inscritos quanto de público pagante. E isto é muito sujo! Sabe por quê ele não é pego? Porque NINGUÉM VAI para conferir! EU CERTAMENTE NÃO VI (nem outros cineastas aos quais perguntei só por desencargo de consciência) AQUELE MONTANTE DE GENTE LÁ (na verdade vi sim, assistindo o filme do Tarantino ao lado e não no festival)!

Chantal e Simone
Chantal Demming (atriz holandesa) e Simone Mihich Bueno

Então o festival não teve nada de bom? Sim, teve a cerimônia de encerramento. Por sinal feita pela esposa do sujeito (sim, aquela que não consegue administrar o correio). Foi bem feita, teve um nível bom, clipes muito legais com todos os filmes, foi uma festa interessante (aliás, ficamos sabendo que a festa após a cerimônia foi tão "freqüentada" como as demais... Claro, nem perdemos tempo indo, como fizeram quase todos os demais...).

O único problema da cerimônia foram os premiados (e o organizador que, como mestre de cerimônias, fazia piada com todo mundo, mas não admitia que fizessem com ele - característica típica de uma pessoa altamente insegura e com problemas sérios de auto-afirmação). Teve muita coisa certa (como o prêmio de melhor curta para "Ana's Playground", o de melhor longa para "Deadland" e o de melhor documentário para "American Colonies: Collapse of the Bee"), mas vimos que houve caso de gente que puxou o saco e saiu com prêmio... e não merecia.

P.S.3: Veja mais sobre os filmes abaixo.


Com Randy Harrison, diretor de "Tiny Little Lies"

Quero que este post, portanto, sirva de lição para que todos saibam de que, da mesma forma que existe marca de desodorante fajuta, roupa falsificada e comida de má qualidade, existe festival que é furada. E não é porque fui selecionado que vou dizer diferente. É minha obrigação dizer a verdade. Então, respondendo à pergunta do organizador: "Sim, aprendi que temos que selecionar melhor os festivais nos quais nos inscrevemos e nos quais vamos; aprendemos que não existe Primeiro Mundo e Terceiro Mundo, mas locais, pessoas, trabalho e evento de primeira categoria e de terceira, quarta, quinta...".

Houve um acordo que não foi cumprido - eu fiquei de fornecer a eles um filme, e cumpri. E eles deveriam ter me dado um festival (exibição correta, público, mídia), mas não deram.

Quanto a nós, realizadores de "O 100º Trabalho", valeu a pena ter ido porque temos família na Flórida, então a viagem não foi à toa de jeito nenhum, e porque fizemos bons amigos na viagem (todos os dias havia a "congregação de descontentes" nas imediações do festival...).

Aliás, aqui vão minhas recomendações de alguns filmes que vi lá:

"Ana's Playground" (curta) é um filme maravilhoso que conta uma história muito legal sobre crianças que vivem em zonas de batalha. É pra TODO MUNDO, de quem gosta de filme de ação a suspense e drama.

"American Colonies: Collapse of the Bee" (longa, documentário) fala do sério problema do desaparecimento das abelhas devido à poluição do homem: sem abelhas no mundo, 6 bilhões de pessoas morreriam de fome...

"Deadland" (longa) é um filme de ação sobre um pequeno grupo de humanos tentando sobreviver num mundo pós-apocalíptico. Sim, a idéia já foi explorada em outros filmes (de "Mad Max" a "Children of Men"), mas acredite, o filme vale a pena se você curte o gênero - e uma lição em como se fazer um filme muito legal com poucos recursos financeiros.

Se você gosta de cavalos, veja o documentário "The Gypsy Vanner Horse" (documentário). Foi realizado pelo fotógrafo profissional Mark J. Barrett e foi finalista do festival na categoria de documentários.

Também recomendo um longa que estava entre os finalistas chamado "Tiny Little Lies", uma verdadeira lição de como se fazer um grande filme com pouco dinheiro: 6 atores, 1 só locação, história muito inteligente, direção competente (que te envolve e não te deixa ficar reparando que o filme se passa no mesmo local com as mesmas pessoas por uma hora e meia).

O curta "True Beauty This Night" é uma comédia que literalmente redefine a expressão "louco de amor". Um novo recordista em número de festivais de cinema.

E quero não apenas recomendar, mas dedicar este post ao pessoal da Holanda que, não cabendo em si de decepção com o festival, estavam quase aos prantos. O sentimento era compartilhado por tantos outros, mas eles vieram de mais longe, e em maior número... O curta deles, "Two Hearts, One Pulse", finalista de melhor curta, também é ótimo.

P.S.4: Os que não recomendei não significa que são ruins. Em primeiro lugar, não há espaço para tudo (e não estou cobrindo o festival como jornalista, mas como cineasta participante); em segundo, não consegui ver todos os filmes. Mas que havia filmes muito ruins lá, isso havia (houve um em que TODOS saíram nos primeiros 15 minutos; na sala de cinema só ficou o diretor, comendo pipoca sozinho... Confesso que sentiria mais por ele se ele não fosse tão patologicamente chato! Mas isto já é outra história...).

Daqui em breve, como prometido, coloco o post do ThrillSpy...

 
[Créditos das fotos: amigos, divulgação]

2 respostas para “O 100º Trabalho representa o Brasil em mais festivais e é semi-finalista (Capítulo 10)”

  1. André Pomba Disse:
    E depois falam do BraZil. Puta que o pariu hein! hehe
  2. Micki Mihich Disse:
    Pois é, este é um dos motivos principais pelos quais achei legal contar o que aconteceu... :)

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