Cena do filme de Fernando Meirelles.
Vamos aos fatos. Fernando Meirelles refez o filme pensando no que o público iria achar do seu novo filme o que prejudica muito a confiança do que vemos na tela. Com medo do que poderia causar as cenas fortes de estupro que existem no livro e na primeira versão do filme que foi exibida em Cannes desse ano, Meirelles “suavizou” a cena tornando-o quase incompreensível, o que nos traz a seguinte questão, o filme precisava de uma forte cena de estupro? A que esta nos cinemas não basta? Pessoalmente acho que o que acabou indo a público basta sim, mas incomoda muito saber que existia uma outra versão mais “ousada”e que simplesmente foi eliminada visando as bilheterias.

Diretor e elenco do filme na abertura do festival de Cannes desse ano.
Bem, essa estratégia não deu certo, o filme estreiou em 12º lugar nas bilheterias americanas. Fora essa discussão existem muitas outras vindas com a estréia do filme, muitas duvidas de gosto, mas de fato pouca coisa funciona no filme, grandes cenas são perdidas, como poderia ter sido da igreja com as imagens vendadas, a essência da perda da humanidade contida nas cenas de estupro e no ambiente descrito no livro dentro do sanatório de quarentena é mal executada ( boa parte culpa da trilha anti-climax que estraga a construção das cenas), a estética de gosto duvidoso à lá revista “Viver bem” ( com closes-ups publicitários em pecas do “bem estar simples” frutas, chuvas etc ) permeia a exaltação do simples sem muita identificação nos gestos dos personagens – e não estou da falando da ótima fotografia, extremamente criativa diga-se. Mas uma coisa não falha do começo ao fim, Julianne Moore, precisa, exata, exala identificação com sua personagem durante o filem todo, algo fundamental já que o filme é calcado no seu personagem delicado e forte sem que uma característica sobressaia da outra, sem que isso não seja perceptível.

Julianne Moore em cena do filme.
O que não significa total ausência de acertos, Julianne Moore como já citada é um deles, outro grande acerto é a brincadeira que a câmera faz com a “cegueira”, ora não vemos um objeto outra ora ele passa a aparecer após ser atingido pelo caminho de um cego, outra cena igualmente brilhante é o momento em que um cego no sanatório toma pra si o comando do lugar, é então que dois cegos voltam para suas camas, um branco apoiado num negro, e o cego branco ( e provavelmente racista ) diz com raiva ao cego negro “só podia ter sido um negro a fazer isso” ( subjugar os demais ) e o cego negro pergunta, “como você sabe que ele era negro?”, “Percebi pela voz dele”. Claro que nessa cena nenhum sabe da etnia do outro, o que a torna um Oásis de critica social em meio a tantas cenas sem muita imaginação ou sentimento.

Julianne Moore e Mark Rufallo em cena do filme.
Mesmo assim é delicioso ver essa São Paulo apocalíptica que existe no filme, reconhecer os ambientes familiares da cidade, agora reformulada, destruída pelo caos, nos da uma idéia do fino trato que a sociedade reza consigo mesma todos os dias e que impõem uma ordem frágil as nossas vidas. Divertido, mas sem o compromisso do livro, aqui a imaginação da lugar à ilustração na grande maioria das vezes.
4-9-2009
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